A data é boa como pretexto mas do ponto de vista do rigor histórico e da apreciação de uma personagem política polifacetada, marcante e central da época da ditadura como foi o general Delgado, diremos que a publicação agora do livro de memórias de Iva Delgado, além de um nítido golpe de oportunismo editorial (o que se compreende e aceita) , é um péssimo serviço prestado à necessidade de entender o papel desta figura, cujos restos mortais repousam muito justamente no Panteão Nacional, e fornecer às gerações que nasceram e viveram em democracia os contornos rigorosos do que foi a ditadura e a sua funda natureza, valores e capacidade de praticar e institucionalizar o crime e a perfídia.
Não tenho dúvidas em classificar a edição deste livro - na boleia das comemorações dos cinquenta anos do assassinato de Delgado - como um dos piores serviços prestados à memória do "general sem medo". Isto sobretudo pela afectividade, mais que natural, que contamina a visão do personagem artificialmente biografado. Como é possível que Iva Delgado, para mais uma mulher com a sua formação académica, fale do seu pai na fase pré-candidatura e apague (só podendo ser um acto deliberado) o seu longo papel de fascista destacado e de membro proeminente do regime, tentando concentrar esse mesmo passado na fase em que conviveu e viveu em Inglaterra e no Canadá, apresentando dele uma trajectória de homem de bons e rectos sentimentos, um democrata convicto e estruturado em convicções democráticas pelo convívio com os hábitos políticos anglo-saxónicos? Além, naturalmente, de não aflorar as contradições e ambições frustadas (tal como Henrique Galvão) que explicam, melhor - também explicam, o acto de deserção do campo da ditadura.
Naturalmente que a benevolência e a cumplicidade de Iva Delgado para com o pai é a coisa mais natural deste mundo. E tem todo o direito a que esses sejam os seus sentimentos dominantes. Mas a comemoração dos cinquenta anos de um crime político abominável cometido sobre um homem a quem a ditadura impediu que assumisse as funções presidenciais para as quias o povo português o elegeu, exige, como preito maior a um homem que repousa no Panteão, que seja lembrado com rigor e verdade, toda a verdade. Pintá-lo de santo e de herói é parecido aos que, na altura em que Delgado anunciou a sua candidatura, o tentaram achincalhar chamando-lhe "general coca-cola" (mais tarde correriam a apoiá-lo quando se viu que era com ele que o povo estava).
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