
No ocaso da sua carreira, em subaproveitamento forçado, Joaquim Letria participou numa entrevista biográfica conduzida por Dora Santos Rosa e editada pela Âncora e que tem o título de um dos seus velhos programas radiofónicos. A entrevista que abarca o jornalismo português (na óptica da experiência de Letria) desde a década de 60 do século passado até à actualidade (enquanto consultor e professor, ele continua a observar atentamente a decadência mórbida do jornalismo em Portugal), é um notável e circunstanciado fresco sobre as mudanças e trancalhadanças que a comunicação social sofreu desde o fascismo tardio até à democracia apodrecida de hoje. E no nosso jornalismo, parte da carne viva do nosso percurso político com uma ditadura a cair de podre, uma revolução e a democracia apropriada de forma a recompor as coisas e desaguando nesta espécie miserável e lodosa de marcelismo democrático, Letria foi figura central e carismática, determinante na exploração de caminhos novos, fazendo e desfazendo projectos, sempre marcantes e referenciais, até que uma estratégia de desforra pelo esquecimento tentaram meter-lhe em cima uma pedra de abandono e silêncio. Ao que Letria responde com este livro, como que dizendo "estive aqui, estou aqui, topo-me a mim, topo-vos a todos". Ler esta entrevista é uma forma de não só experimentar habitar o jornalismo português por dentro no último meio século como, inevitavelmente, acompanhar o percurso sinuoso e pouco recomendável do caminhar político em Portugal. Imperdível.