Terça-feira, 14 de Março de 2006

IGUALDADE, IGUALDADES


Começo por esclarecer, em declaração de interesse, que sou fã de Michelle Bachelet. Gosto muito dela. Simpatizo com a sua pinta, aquele ar discreto e decidido, com uma melena de alma inconformista, mas não querendo passar imagem superior à de uma amanuense especializada, lúcida e eficiente da função pública. Também gosto dela por, não sendo uma mulher bonita (o que, para Presidente, é óptimo na gestão do equilíbrio entre autoridade e carisma), lhe sentir no olhar um desejo que me é simpático e empático de equilibrar a história, fazendo justiça a Allende, honrando-lhe a memória e a tragédia, sem lhe repetir a alucinação e os seus custos. Para mais, não tenho dúvida alguma que se Michelle Bachelet não ganhasse a Presidência do Chile era, neste momento, nossa companheira de bloganço. Perda esta que dou de barato pelo benefício do bom futuro da pátria de Neruda e Allende.


 


Entre os méritos de benefício do mandato de Michelle Bachelet, louvam outros a sua rigorosa precisão aritmética na repartição entre homens e mulheres do gabinete governamental chileno – em 20 ministérios, 10 ministros + 10 ministras; em 32 secretarias de estado, 16 secretárias de estado + 16 secretários de estado. E, aqui, entro em dissonância com a minha admirada Michelle Bachelet e com os seus respeitáveis admiradores incondicionais, entre os quais se destaca o meu admirado amigo Raimundo Narciso. Apenas porque tamanha precisão me soa a pancada maníaca, uma variante artificial de igualdade de géneros conquistada numa folha A4 quadriculada. Até porque isto do rigor nas igualdades tem muito que se lhe diga. Porque há igualdades a conquistar mas outras igualdades também a considerar e cruzar. Suponhamos que um único ministro ou uma única ministra (podendo serem mais), um único secretário ou uma única secretária (podendo serem mais), pertence, por fatalismo biológico, a um determinado género mas a vida lhes revelou uma orientação (ou gosto) sexual divergente com a marca biológica original. Sei lá, uma ministra cuja aspiração maior na vida seja ter tomates para ser ministro e, com eles, combater a burguesia; ou um secretário de estado que goste de ir para a cama com lingerie sexy-erótica e se excite a acariciar uma púbis masculina e provocar-lhe erupções de luta do proletariado. Um caso único e hipotético de contradição entre aparência e essência, respeitável na contabilidade das igualdades, só por si, mandaria ás malvas o porfiar aritmético-maníaco e igualitário da simpática Michelle Bachelet. Pior, a igualdade-alvo dogmatizada corre um hipotético mas sério risco de ser uma ofensa à igualdade sentida e vivida por parte das respeitáveis pessoas ministeriadas, revelando uma igualdade para fora e uma iniquidade para dentro. Oxalá nada disto se passe, ministro seja ministro, secretária de estado seja secretária de estado, e o Chile seja feliz. E eu também, pois, como disse, sou fã de Michelle Bachelet. E do Chile. Sobretudo do Chile.


 

Publicado por João Tunes às 22:35
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3 comentários:
De cristina a 15 de Março de 2006
concordo consigo e nem tanto pela orientação sexual mas, porque entendo que as pessoas devem ser escolhidas pelas suas capacidades, não pelo sexo. aposte-se na instrução que essas medidas deixam de fazer sentido.
apesar de tudo, não lhe tira o valor e desejo sinceramente que seja o melhor para o Chile.
beijos
De Miguel Silva a 15 de Março de 2006
Mas a dicotomia homem-mulher é pública, enquanto a orientação sexual é do foro privado. Na primeira a discriminação pode fazer-se a olho nu. Na segunda será necessário algum conhecimento de causa. Não é assim? É por isso que as quotas fazem sentido para umas e não para outras.
De Ana a 15 de Março de 2006
Acima de tudo, que o Chile seja feliz, que a Presidente saiba honrar o cargo. Sendo apologista da participação activa e corrente das mulheres a todos os níveis da vida, inclindo o político, não gosto, como diz o João, de contabilidades exactas, matematicamente estudadas e cumpridas.
No que toca a preferências de ministros e secretários de Estado, fora das horas e das competências governativas, nem quero saber. Vamos pôr isto nos homens do futebol, que dá ainda mais graça...
Já imaginou que Co Adriaans pode gostar de usar lingerie preta, de mulher, em privado, por hipótese.
Há quem diga que Beckam joga com "fio dental" de Victoria. Há quem diga que C. Ronaldo gosta de usar saltos altos em privado. O que eles usam ou acariciam é indiferente, desde que brilhem naquela tarefa que lhes está distribuída.

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