Quarta-feira, 13 de Setembro de 2006

SOBRE A FEBRE DOS PACTOS

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“O PS preferiu seguir a consigna de Cavaco, subordinando-se à estratégia presidencial, e abrir caminho a uma incerta fase de pactos” escreveu o Manuel Correia, energicamente e com a acuidade lúcida de quem acabou de regressar de merecidas férias regeneradoras. MC segue o seu raciocínio e vergasta a exclusão, por via dos pactos PR/PS/PSD, das restantes forças parlamentares e de sectores críticos dentro do PS.

 

Comungo das preocupações deste meu caro amigo e já habitual polemista de estimação. De facto, também considero que a via dos pactos e mais pactos entre os partidos da alternância governativa, apresenta vários riscos (incluindo a própria qualidade da vivência democrática). Obviamente que a “fábrica dos pactos” está localizada em Belém. Igualmente, é evidente que, ao mesmo tempo que abre caminho ao fortalecimento orgânico do “Centrão”, acaba por definhar o debate interno no PS e acelerar a “blairização socrática”. Entretanto, parece-me (mas esses lá saberão das linhas com que tecem as suas estratégias desorientadas) que o PSD é quem mais perde politicamente com o “negócio”, ganhando em respeitabilidade de “sentido de Estado” mas perdendo demais em autonomia de potencial de alternativa.

 

Se, convenhamos, o “pacto sobre a Justiça” se entende pelo sentido de atender a uma coluna importante do Estado de Direito (tão degradada e desprestigiada, a necessitar urgentemente de “obras”) e susceptível (sendo mesmo louvável que se encaminhe para o máximo consenso) de gerar entendimentos idênticos ao das revisões constitucionais, persistir em pactos sobre pactos nas várias áreas de governação (e a Segurança Social, por natureza, é daquelas que mais distinguem a esquerda da direita) leva inevitavelmente à desertificação do debate e das alternativas políticas.

 

Depois de tanta concordância minha, bem pouco habitual, com o MC, sobra uma divergência do género “fatal como o destino”. Ela tem a ver com a crítica formulada por ele à “exclusão” das “restantes forças políticas representadas no Parlamento”. Aqui julgo que há truque de retórica tendo em conta as provas dadas da superior inteligência política do MC. Como não assim, meu caro? Com o CDS em coma pela sua profunda doença intestinal, com o PCP e o Bloco acantonados no extremismo do protesto bota-abaixo? Estender a mesa da negociação aos actuais extremos direito e esquerdos do arco parlamentar, fixados como estão nas suas obsessões egoístas, seria “negociar” ou “conversar” tendo como frutos únicos alguma matéria para discursos de comícios e permitir ao grupo parlamentar “portista” (de Portas, não do Porto) do CDS arranjar mais lenha no confronto com a direcção do seu partido. Inútil, pois, em termos de regime e de governabilidade. Claro que os mesmos que clamam que o governo PS é mais de direita que a direita, mais os outros que acham que o CDS deve ser mais de direita que a extrema direita, se manifestaram como damas ofendidas por não os sentarem à “mesa do pacto”. Mas isto não é pura retórica propagandística? Por mim, julgo que não só o é como tal entra pelos olhos dentro do mais ingénuo.   

Regressando ao “Centrão”, que a ambos nos preocupa, deixo uma provocação final ao MC: Se o “Centrão” está a ser construído tijolo após tijolo desde Belém até São Bento e à Lapa e passando cada vez menos pelo Rato, as esquerdas e a direita que se colocam na irresponsabilidade reivindicativa ou autofágica, não estão a ajudar a “obra” acartando baldes de cimento?

Publicado por João Tunes às 17:58
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1 comentário:
De Manuel Correia a 13 de Setembro de 2006
Amigo João Tunes,

Parabéns pela dinâmica de "rentrée".

Converso contigo no PUXA-PALAVRA, dando-te troco em dois posts singelos. O primeiro é mais grave; o segundo mais bem humorado.

Um abraço

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j.tunes@sapo.pt


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