Quarta-feira, 13 de Setembro de 2006

PELA MEMÓRIA

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Leio no jornal de hoje que os antigos presos políticos ainda vivos e os familiares dos muitos já falecidos, mais de 30.000 entre 1928 e 1974, vão ter direito a um “espaço de memória” dos seus martírios na luta pela liberdade perpetrados às mãos do anterior regime que usou uma estrutura policial vocacionada para a vigilância, a perseguição, a tortura e a prisão (PVDE/PIDE/DGS). Parece haver acordo à vista para que no condomínio privado a ser construído onde esteve localizada a sede da PIDE seja reservado um espaço para perpetuar a lembrança do principal antro operacional de terror do fascismo português. Igualmente parecem bem encaminhados os projectos de conservar como sinais de memória a construção de um memorial na Rua António Maria Cardoso frente à mesma sede da PIDE, a Prisão do Aljube, a Cadeia de Caxias, o Forte de Peniche e a sede da delegação da PIDE no Porto.

 

Este esforço de preservação da memória do horror do fascismo português que, a ser concretizado, se deve à persistência do movimento “Não Apaguem a Memória”, merece todo o apoio e incentivo. Mas esta memorização, sobretudo importante para que as gerações nascidas em liberdade e em democracia tenham uma ideia histórica do preço pago por tantos na luta por estes “bens” hoje tão banais, deve, pelo menos numa segunda etapa, contemplar aquela que foi a ignomínia maior do terror salazarista-marcelista -  o Campo de Concentração do Chão Bom (Tarrafal) na Ilha de Santiago em Cabo Verde, concebido e utilizado segundo o modelo dos “campos nazis”. Este Campo funcionou desde meados da década de 30 até ao princípio da década de 50 para prisioneiros portugueses e foi reaberto na década de 60 para durar até 1974 para aprisionar e exterminar os combatentes anti-colonialistas. Quando, em 2000, visitei os restos do Campo de Chão Bom, notava-se um tímido esforço de algum registo museológico mas a degradação avançava rapidamente devido a falta de verbas e de apoios. É tempo de evitar a completa e irreversível degradação deste Campo, sinal de memória imprescindível para que a visão da luta antifascista não padeça de elitismo eurocêntrico. Porque, não hajam dúvidas, se foi terrível o sofrimento dos prisioneiros políticos portugueses, mil vezes pior foi o tratamento dado pela PIDE aos africanos que prenderam por lutarem contra o colonialismo português. E, nada melhor que o Tarrafal, tendo em conta as suas duas fases de funcionamento, para que o retrato de memória do fascismo-colonialismo seja mais abrangente nas duas faces do “terror à portuguesa”.

 

Finalmente, recordo que em 25 de Abril de 1974:

A PIDE mantinha presos em Caxias:
Herminio da Palma Inácio, José Manuel Tengarrinha, Maria Helena Vidal, Marcos Rolo Antunes, Mário Ventura Henriques, Nuno Teotónio Pereira, Figueiredo Filipe, António Luis Cotri, Jose Alberto Costa Carvalho, Mateus Branco, Fernando Pinheiro Correia, Maria Helena Neves, Vitor Manuel Caetano Dias, Joaquim Gorjão Duarte, José Manuel Martins Estima, Pedro Mendes Fernandes Rodrigues Filipe, Orlando Bernardino Gonçalves, José Pereira Fernandes, Norberto Vilaverde Isaac, Manuel Luis Judas, Albano Pedro Pedro Gonçalves Lima, Vitor Serra Lopes, Jose Rebelo dos Reis Lamego, Carlos Manuel Simões Manso, Horácio Crespo Pedrosa Faustino, António Pinheiro Monteiro, Maria Elvira Barreira Ferreira Maril, Armando Mendes, Liliana de São José Teles Palhinhas, António Manso Pinheiro, João Duarte Pereira, Eugénio Manuel Ruivo, Maria Rosa Pereira Marques Penim Redondo, Fernando José Penim Redondo, Fernando Domingos Sanches, Manuel Gomes Serrano, Ezequiel de Castro e Silva, Carlos Manuel Oliveira Santos, José Adelino da Conceição Duarte, Acácio Farajono Justo, Rafael dos Santos Galego, Ramiro Antunes Raimundo, Margarida Alpoim Aranha, Luis Manuel Vitor dos Santos Moita, Maria Vítor Moita, Manuel Policarpo Guerreiro, Maria Fernanda Dâmaso de Almeida M. de Figueiredo, Manuel Martins Felizardo, João Filipe Brás Frade, Joaquim Brandão Osório de Castro, Fernando da Piedade Carvalho, Carlos Alberto da Silva Coutinho, Maria de Fátima Pereira Bastos, Maria Rodrigues Morgado, Carlos Biló Pereira, Fernando Nunes Pereira, Ernesto Carlos da Conceição Pereira, António Manuel Gomes da Rocha, António Vieira Pinto, José Casimiro Martins Ribeiro, Henrique Manuel P. Sanches, Mário Abrantes da Silva, José Oliveira da Silva, Amado Jesus Ventura Silva, Manuel José Coelho Abraços, Manuel dos Santos Guerreiro, Maria Manuela Soares Gil, Luis Filipe Rodrigues Guerra, João Boitout de Resende, Alvaro Monteiro Rodrigues Pato, Ramiro Gregório Amendoeira, Vítor Manuel Jesus Rodrigues, Abel Henriques Ferreira, Ivo Bravo Brainovic, José Alves Tavares Magro, António Dias Lourenço, Rogério Dias de Carvalho e Miguel Camilo. Os últimos quatro encontravam-se internados na Prisão Hospital de Caxias.

E no Forte de Peniche:
Francisco Manuel Rodrigues, Rui d'Espinay, João Pulido Valente, João Eurico Bernardo Fernandes, José Brasido Palma, Carlos Cardoso Gonçalves, Licínio Pereira da Silva, Raul Domingues Caixinhas, António Cândido Coutinho, Rui Benigno Paulo da Cruz, José Manuel Caneira Iglésias, Sebastião Lima Rego, Carlos António Gonçalves Tomás, Rui Teives Henriques, Pedro Campos Alves, Luis Flilipe Fraga da Silva, Luis Miguel Vilã, João Pedro Mendes da Ponte, João Duarte de Carvalho, Antonio Metelo Perez, Nelson Rosario dos Anjos, Carlos Saraiva da Costa, Angelo Veloso, Dinis Miranda, Manuel Pedro, António Gervásio, Manuel Drago, Carlos Domingues Soares da Costa, Horacio Rufino, José Pedro Correia Soares, Filipe Viegas Aleixo, Francisco Manuel Cardoso Braga Viegas, José Simões de Sousa, Garcia Neto e Joaquim Duarte.

 

A estes, há a somar os muitos milhares de nomes de africanos, presos políticos e de guerra, libertados após a queda do fascismo do Campo de Concentração do Tarrafal e de várias Prisões e Campos espalhados por todas as colónias portuguesas.

Publicado por João Tunes às 13:00
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1 comentário:
De Manuel Maria a 13 de Setembro de 2006
Toda a homenagem é pouca... para que a memória das gerações futuras não se apague e saibam que tanto devem a tanta gente!

Citando O salgueiro Maia na manhã de 25 de abril do alto da Chaimite para um amigo jornalisa que o questionava do objectivo do golpe:

- Não estives exilado por escreveres umas coisas? Pois fazemos isto para que ninguém mais tenha de saír do seu país, ou ser preso, ou turturado, pelo que pensa, diz, ou faz.

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