Domingo, 30 de Outubro de 2005

CONVERSANDO

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Se há companheiro da blogosfera de quem sempre leio os posts com o maior interesse, de fio a pavio, é o João Abel Freitas. Nas questões económicas e da Administração Pública, a sua análise serena e entendida faz a diferença se comparada com as máximas ditirâmbicas que tanto abundam (incluindo as minhas, exclamativas em demasia). Ele é, de facto, um especialista esclarecido e esclarecedor. Um homem que tem o mérito raro de dominar a arte de opinar sem perder o fio pedagógico.

Confesso que também lhe guardo estima por respeito à lembrança dos tempos em que nos cruzámos em projectos virados para o mesmo lado. Sobretudo de umas idas eleições autárquicas em que emparceirámos na mesma lista (e campanha) para a Assembleia de Freguesia de Benfica (e em que, curiosamente, Carvalhas, ainda não SG, foi candidato à Presidência da CML). E até tivemos um resultado bem honroso (então, se comparamos com os de depois...). Hoje, muita água mexida, cada um “anda às suas”, tentando ambos, julgo, não descalçar o pé do chinelo esquerdo.

Agora com as presidenciais, andamos desencontrados. Do que não vem um grãozinho de mal ao mundo. Mas, por exercício de convicção, tento entender as opções diversas. E leio, do João Abel, esta mais que chocha declaração resignada de apoio a Mário Soares:

“Era necessário ter surgido atempadamente um candidato agregador, prestigiado, da confiança de vastos segmentos da esquerda e mobilizador da mesma. Este processo exigia tempo e a esquerda "acordou" tarde e teve de se socorrer do stock usado.”
“Neste contexto, continuo a não ter dúvidas sobre o melhor candidato à esquerda para uma segunda volta. Já aqui o referi várias vezes: Mário Soares.”


Ele que me perdoe, acho esta declaração altamente “esclarecedora”. Porque é, sobretudo, mais um requiem de resignação fatalista que coisa de convicção. Sem pingo de entusiasmo. Um género de caminho para velório. E mete-me confusão: que raio de fatalismo voluntarista determina o apoio a um candidato da esquerda para, em condições particularmente difíceis, em vez do combate, se ir assim, de baraço ao pescoço, agarrado a Soares e esganando Soares, nos prostarmos aos pés da parceria “Sócrates & Cavaco” para que a tecnocracia substitua a política?

Ganhar ou perder, só a luta e o voto decidem. É bem verdade. Mas se a Esquerda tem candidato para combater e ganhar (indo á segunda volta e ganhando-a depois) - Manuel Alegre - porque substituir a luta por um desígnio derrotista, péssimo para a esquerda e péssimo para o sacrificado candidato. Como é o caso, está todo o mundo farto de saber, da “cartada” Soares?

Ou, caro João Abel, estamos a ver filmes diferentes?
Publicado por João Tunes às 01:53
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4 comentários:
De Joo a 30 de Outubro de 2005
Mas pq é que vêm dirrimir as vossas pessoalíssimas tricas para aqui? Depois, baralham-me... Este blogue é de um "autor" (mais de uns tantos seus visitantes), não tenho sociedade com quem quer que seja. Nem com o Sócrates, com o PS muito menos...
De Quadrpede Rosa a 30 de Outubro de 2005
Desta vez o João saiu confundido. A nossa querida Amiga Odete não se dirigiu a si, quando referia sobre a "animosidade" a Sócrates, mas a mim, por eu deixar transparecer, aqui e ali, este sentimento de consciência.
A poupança da "Sapo" nos quadros reservados aos comentários faz com que não haja respeito pelos parágrafos, o que causa, por vezes, alguma confusão. Já me lembrei de colocar Barras inclinadas (/) quando mudo de parágrafo, mas isso podia ser tido como pretensiosismo, e esta estirpe de "ismo" eu não possuo (salvo seja!).
De qualquer forma, o João acabou por responder por si, o que possibilitou uma esclarecedora posição.
A minha posição sobre essa "animosidade" dei-a (ou fiz por isso) no blogue da Odete, o "Alfragide XXI", por ser esse o local próprio para essa resposta.
Como disse à Odete, estou às voltas com uma peça de teatro que devia ter pronta em Outubro (eu diria de 2006, se o contrato não referisse o decorrente) e esporadicamente entro na blogolândia, escolhendo, com algum critério, aqueles blogues da minha preferência. Entre poucos outros, o do João e o da Odete são daqueles que, como soe dizer-se, "estão à cabeceira".
Um grande abraço para os dois e um, indirecto, para o Manel Alegre.
De Joo a 30 de Outubro de 2005
Mais uma vez, agradeço-lhe, Odete, a sua contumácia nas visitas e nos comentários. Obviamente que, na consideração, o que menos conta é estarmos de acordo no quer que seja. Mas não tem razão alguma para insinuar que não gosto,politicamente, de Sócrates por razões "que não são só políticas". Muito menos sobre o governo dele, onde nos Transportes e Obras Públicas, está um meu velho amigo e pessoa que muito estimo. Resumindo: não gosto do modo arrogante como Sócrates governa, não gosto do modo autista como o governo se comporta, não gosto da falta de estratégia política de Sócrates e do governo, sobretudo não suporto a falta de estratégia mobilizadora e de esperança que dê forca social e política para o combate e a imposição de alternativas aos que se limitam a defender privilégios, pior que tudo repugna-me a forma como agarraram em Soares e o espetaram numa candidatura que só vejo servir dois objectivos - passar a bola da derrota para as costas de Soares, preparar o casamento feliz entre as tecnocracias de Sócrates e de Cavaco sob a ditadura das "contas". Pressinto muito maquiavelismo nesta jogada Sócrates/PS/Soares. E a negação PS de Alegre só pode representar um corte com a tradição cidadã do PS e a facada mortal nos sonhos por uma sociedade melhor. Enfim, só um ponto de vista este o meu [se calhar é só meu, que sempre pugnei pela maioria absoluta deste governo PS (mas não para o isentar, sim para o responsabilizar), se calhar o único voto que Alegre, além do dele próprio, irá recolher nas urnas]. Ponto de vista para discutir e rebater, é claro. Com argumentos, opiniões, factos, etc. Mas não aceito nem admito são insinuações descabidas, preconceituosas, de se supor que alguem que pensa diferente o faz porque o movem motivações que "não são só razões políticas ...". Isso é chicana, intriga, aparelhismo ou leninismo no seu pior. E vejo que o soarismo está cheio disso. Talvez seja a última grande e mais nobre missão de Soares - agarrar a ele o pior PS, arrastá-lo no ridículo da derrota eleitoral, para que se cale durante uns tempos, tornando a atmosfera política mais respirável. Eu prefiro um Presidente de Palavra e de Palavras, Manuel Alegre, evidentemente. Volte sempre. E os mais democráticos dos meus cumprimentos.
De odete pinto a 30 de Outubro de 2005
Hoje enviei um comentário ao Quadrúpe Rosa:
"Obrigada pela visita e pelo comentário incentivador.
Após uma desilusão que não é só política, antes fosse, mas é sobretudo como residente em Alfragide e como cidadã participativa e sempre defensora de boas causas comuns, há sempre um período de interiorização e de nojo.

Afinal, com o afã do regresso ao blogue, apaguei o post A Razão de Uma Candidatura e com ele os animadores comentários (que apesar de tudo guardei em Word) e, pior que tudo, o esquecimento de um clique sobre os nomes dos autores fez-me perder os seus endereços electrónicos e, assim, os seus contactos que muito gostaria de manter. Tivesse eu ficado quieta mais uns dias ...

A si tenho-o "visto" e lido num blogue de visita diária que é o Água Lisa. Além do amigo Jumento, claro. Confesso que tenho andado a ver se descubro nos seus comentários aqui e ali, a razão da sua animosidade contra Sócrates. Alguma coisa me diz que não são só razões políticas ...

Quanto a mim, estou ainda, num dilema. Apoiei Alegre contra Sócrates para SG. Sócrates tem-me surpreendido pela positiva. Oxalá a determinação se mantenha e consiga fazer com que O cidadão digno e cumpridor, seja O público-alvo de toda a legislação e de toda a praxis. Não só do governo mas de todos os poderes que rejem a nossa Pátria.

Já tive uma tentação de "atraiçoar" Soares, votando em Maria de Lurdes Pintasilgo - pesou-me tanto e pesa, a sua morte - na hora da verdade, resisti à tentação. Nunca votei Eanes porque me indignou a sua presença ao lado de Mota Freitas, no Porto, numa celebração do 25 de Novembro e por me parecer duvidosa e sidonista a urdidura de um partido, em Belém. Apesar de muito admirar Salgado Zenha, não podia acompanhá-lo portanto. Como gostaria que fosse possível "ouvi-lo", hoje. Da actual dupla de caras-de-pau, estamos conversados.

Fez-me tão bem à alma ouvir ontem o Prof. Sobrinho Simões, assim, de peito aberto e informal, como sublinhou. Em detrimento do "politicamente correcto" (blhac ...). E depois Soares, aquela força e aquele ânimo transbordante e contagiante. Depois de um dia de profunda angústia (saber-se-á porquê, um dia destes, num computador abrupto perto de si?), só mesmo Soares e aquele seu brilhante apoiante me podiam animar".

Logo a seguir, vejo e oiço Alegre. Entre les deux, mon coeur balance ...

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