Sexta-feira, 18 de Agosto de 2006

DO INTERNACIONALISMO À CUMPLICIDADE SEM PRINCÍPIOS - 2

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(continuação)

Com a falência do “internacionalismo proletário” (entretanto substituída a fórmula pela da “solidariedade internacional” ou simplesmente “internacionalismo”), acompanhada da afirmação unipolar do capitalismo imperialista (Estados Unidos), caíram grande parte das referências de suporte de um instrumento de hegemonia e de controlo. A ideia ficou, até pelo poder mágico do ideal generoso, utópico e redentor que lhe alimentara a origem. Mas, sem um centro de liderança, organizador e financiador, como suportar uma estrutura irreversivelmente pervertida para poder suportar uma cadeia de hegemonias hierarquizadas? Para mais, com os “batalhões revolucionários” a recolherem-se aos nacionalismos (negação brutal da ideia internacionalista) ou a desertarem quando não a naufragarem no defensismo desesperado de orfandade histérica perante o mar encapelado do maior recuo na história da revolução, do anti-capitalismo e do comunismo. Entretanto, o inimigo principal - o Império do Mal - não só se agigantou em força e arrogância como estendeu o seu mando unipolar sobre o universo. Para cúmulo, a boçalidade de Bush (o grande "calcanhar de Aquiles" do "domínio americano") deu-lhe um rosto ridículo-repulsivo a assentar muito mal em cima de um pescoço tão forte e musculado(mas óptimo como bombo da festa da propaganda "bota abaixo").

 

A manutenção do velho “inimigo nº 1”, agora mais fortalecido mas mais estúpido, permitiu a passagem dos cacos do “internacionalismo” para a sua transformação numa versão degradada de “cumplicidade internacional” com tiques de associação mafiosa de ressentimentos. Abdicando de juízos sobre a natureza dos parceiros, da histórica formulação idealista, ideológica, teorizada e exigente, o “internacionalismo” passou a comportar tudo quanto combate os Estados Unidos (ou os seus aliados fiéis), sejam até cães, gatos ou hienas. Da obediência à URSS, o “internacionalismo” desceu mais um degrau na sua degenerescência, passando a um albergue de tudo quanto seja anti-americano. Em poucos anos, personagens, grupos, movimentos, organizações e partidos que não passavam antes pelo crivo mais largo da apreciação da qualidade revolucionária, transformaram-se em aliados objectivos ou subjectivos do “movimento internacional” onde estão pateticamente acantonados os restos dos partidos comunistas de matriz estalinista e uma ou outra organização “amiga” dos tempos do “internacionalismo proletário”. Mais, é claro, uns tantos "inocentes úteis" sempre disponíveis para serem, pontual ou sistematicamente, seus "companheiros de jornada". 

 

Um exemplo concreto desta degenerescência espantosa, sem pingo de marxismo, leninismo ou princípios, até ao estádio da “cumplicidade internacional”, encontra-se na actual “política internacional” do PCP de que o actual “Avante” é tribuna semanal (que muito deve atormentar o sono eterno de Cunhal). Além das pouquíssimas “ilhas comunistas” que ainda sobram (Cuba, Coreia do Norte, Vietnam, Laos, China), temos como outras parcerias “revolucionárias”  – a Fretilin em Timor (sobretudo depois de ter reintroduzido a votação de braço no ar), a Venezuela do populista-militarista Chavez (a Bolívia de Morales está na fase de "candidatura", enquanto Lula e o seu PT - considerados "traidores" - ficam fora do "arco revolucionário"), os fundamentalistas terroristas do Hezbollah e do Hamas (adeus OLP!), os tallibans do Afeganistão, os paranóicos agressivos que governam o Irão, a monarquia Baas da Síria, os bombistas do Iraque (os sunitas que matam xiitas e os xiitas que matam sunitas), a autocracia feudal da Bielorússia, enfim: tudo o que levante um dedo que seja, em nome do que for, para arranhar, dar um tiro ou meter uma bomba nos Estados Unidos, em Israel ou na Grã-Bretanha (o Trio do Mal). A Bin Laden (e à Al Khaeda), dá-se-lhe o estatuto de "cúmplice não assumido" porque acarreta dificuldades gritantes de susceptibilidade na opinião pública mas os seus "golpes" só vagamente são reprovados sem que se deixe de salientar, absolvendo-o via relativismo, que "pior que eles" é o "terrorismo de estado" praticado pelos Estados Unidos, por Israel e pela Grã Bretanha. Percurso espantoso este o de uma bonita e exaltante utopia  – tendo nascido de um sonho idealista, está a finar-se no lodo de uma aliança por um "Apocalipse Now": se o mundo não quer ser "o que devia ser", então que estoire. Entretanto, os "companheiros de jornada" do género suicidário-piromaníaco, continuam a não faltar à chamada.

Publicado por João Tunes às 02:12
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