Segunda-feira, 13 de Março de 2006

E A CIDADANIA?

Este PS/Sócrates sacralizou a ruptura do PS com o passado histórico do socialismo feito pelos cidadãos. De um socialismo à maneira da velha Internacional - reformista, democrático, republicano, conciliador, participativo, pedagógico, interventivo, social. Gerindo, a maior parte das vezes mal, a negação do Komintern e dos conglomerados de direita com a reacção. Nunca abdicando da intervenção do maior número de cidadãos, sobretudo os mais sofredores com a ganância da lógica capitalista, na vida política e como antídoto à supremacia da ignorância, dos privilégios e da violência.

 

Enquanto a tradição de direita entregava o monopólio do exercício do poder à nata dos poderosos e a tradição bolchevique pensava resolver esse problema à machadada, substituindo os burgueses por uma vanguarda militarizada com mandato ideológico auto-justificado da classe operária, o socialismo demarcava-se de tentar não falhar no cumprimento do jogo democrático sem deixar de atribuir aos cidadãos, com realce para os trabalhadores, o papel de actores da política e da história.

 

Hoje, o discurso do PS, de Sócrates, do governo e dos seus apoiantes, é: deixem-nos governar, em paz, sossego e confiança, por vós, em vosso nome. Mas não chateiem. Paguem os impostos, votem, desenrasquem-se, confiem, estejam quietos. Sócrates, o governo e o PS, não mobilizam vontades, não congregam, não vertebram, não mobilizam, não dão espinha dorsal a qualquer projecto de edificação nacional. Dão-nos o timing da hipótese da solução, mandam-nos olhar para a conjuntura e estarmos atentos aos indicadores, pedem-nos a confiança de neles confiarmos, anestesiam, dando-nos no coco, no bolso ou repartindo migalhas. E para rematar, em estocada final, ordenam-nos - como fatalidade - para neles confiarmos, inertes e meio tontos, quedos, mudos, cegos, confiantes. Na espera da boa hora a ser dada pelo relógio a que eles, laboriosamente, vão dando corda.

 

Com esta forma e esta sangria, o PS, o governo e Sócrates, escolheram como único trunfo distintivo da direita e dos bolcheviques, a competência da gestão, a manipulação dos indicadores, a contabilidade da crise, a gestão dos adiamentos, a vontade de forçar reformas decididas em gabinete. Porque, no resto, a governamentalização da política operada por Sócrates, pelo governo e pelo PS, aprendeu demais, imita em exagero, a praxis da direita e da esquerda redentora, ao vanguardizar-se como elite da solução. Remetendo os cidadãos para a espera e a confiança.

 

O definhamento da direita portuguesa (de que só se salva o messianismo cavaquista, irmão gémeo do gestionismo socrático) e o acantonamento da esquerda radical nos brados esquizofrénicos, explicam-se, também, pela arte de Sócrates em apunhalar a tradição socialista e cidadã, aplanando a diferença mais os seus riscos. Como não entender o noivado com Cavaco? Assim, o melhor de Sócrates será sempre o menos do socialismo e o inevitável na afirmação não controlável da cidadania. Tenderão para boas sondagens, alargarão a mancha do centrão, definhando esquerda e direita, mas de assassinos do socialismo não passam.

 

Publicado por João Tunes às 23:15
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6 comentários:
De pedro silva a 14 de Março de 2006
Caro joão: Parece-me a sua análise demasiadosimpática e optimista em relação aquilo que o sr.socrátes está a fazer.
Eu, nãosendo nada mais do que um cidadão anónimo digo-lhe que observo que os meus amigos e conhecidosna sua maioria, há 10 anos atrás, achavam que o ps era uma excelente alternativa e era para essas pessoas que eu conheço uma enorme referencia.
Actualmente , quando eu falo com alguns de política e vem o ps à conversa , o desagrado é evidente.
Diz você que o ps escolheu distinguir-se dos "outros" com a competencia da gestão, etc.
Sinceramente, acho-o muito optimista em relaçãoa ter sido só essa a distinção. Está da sua parte a dar ao ps um crédito que ,na minha modesta opinião, ele não merece,nem fez alguuma vez por merecer.
Desta vez o ps está colocadona posição do jogo final: esta é a ultima oportunidade para o ps. Para mim já a falhou; socrátes e o gang neo liberal que o acompanham são maus demais.
Por eunquantoexiste ojogo das ilusões. D aqui a um ano os problemas estarão na mesma, e o desemprego maior.
"""Remetendo os cidadãos para a espera e a confiança""" Diz o joão.
O problema como eu o vejo é que ,desta vez,neste momento histórico, os cidadãos de esquerda não irão(justamente,diga-se) perdoar ao ps este estado de coisas.
Dou-lhe um exemplo:na semana passada consegui escutar o forum tsf duranet 10 minutos no dia em que se debatia a questão do aumento de 23% das taxas moderadoras na saude. Uma senhora que ligou para lá,disse basicamente isto:"eu não votomais no ps. Não admito que em campanha eleitoral seja uma coisa e chegados ao governos seja outra. Era uma pessoa de esquerda que diz claramente que não torna a votar ps, e que não confia ps.
Eu só ouço isto acontecer com pessoas de esquerda. Que se desiludem ccompletamente com o ps. Portanto, apesar de eu ter gostado bastante do seu post, vejo o ps muito mal,e eu próprio não votarei no ps jamais enquanto um certo estado das coisas existir no ps. E enquanto o ps estiver entretido com socrátes e quejandos deixa de ser ps e passa a ser o partido neo- socialista liberal.
Nota aparte:no outro post que eu comentei,eu concordava com todos os parágrafos,mas mais com o ultimo...
De ana a 14 de Março de 2006
"assassinos do socialismo", com efeito.
Aquele PS em que acreditei, em que me revi, em que votei durante anos, não existe mais.
Agora noiva com Cavaco, mas já teve anteriormente outros estranhos comportamentos, dando só razão de desencanto a quantos viram no PS um partido de consciência social, em busca de uma justiça redistributiva da riqueza, que nunca se levou à prática e, desde o início da globalização da economia, menos ainda esperamos ver.
De João Tunes a 14 de Março de 2006
Pelos vistos, vcs, Pedro e Ana, são mais para o hard e eu mais para o soft. Nunca me pensai tão conciliador. Vou pensar.
De pedro silva a 14 de Março de 2006
Caro joão, sabe a questão já passa para lá do hard ou do soft. Não duvidando da sua boa fé a realidade é que o ps actual é uma ficção. E amim o que mais me surpreende é a atitude "média" do seus militantes. O ps está a entrar em erosão ,como ideia política séria na sociedade portuguesa;a prórpia ideia de esquerda está a ser erodida na sociedade portuguesa, e os militantes/simpatizantes do ps agarram-se a uma defesa do partido ,que, dentro do contexto para onde as coisas estão a caminhar é absolutamente absurdo. O Ps irá privatizar o eatdo e a sociedade portuguesa e depois, perante o caos evidente que daí sairá, ficarà remetido à simples posição de ficar admirado por as pessoas não aderirem a ele? Lembra-se da diferença na sociedade portuguesa que provocou os estados gerais comparativamente agora às novas fronteiras? isso não dirá nada aos simpatizantes /militantes do ps? Só para dar um exemplo? escrevo só isto como tópico de reflexão......
De ana a 14 de Março de 2006
Caro João,
Você próprio, num post anterior, se/nos perguntava se Cavaco "direitou" o PS.
Não foi Cavaco que o direitou. O PS já se tinha direitado antes e, talvez por isso mesmo, tanto lhe convinha Cavaco.
Tanto lhe convem Cavaco.
Depois das OPA's que andam aí a surgir à média de uma por semana, mais coisa menos coisa, há-de vir a fase das privatizações.
A empresa onde trabalho, há muitos e muitos anos, lá há-de ir também.
De João Tunes a 14 de Março de 2006
Pronto, caros amigos, está bem, não batam mais no meu reformismo. Marquem lá a manif. Eu alinho com todo o gosto.

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