Sexta-feira, 18 de Agosto de 2006

DO INTERNACIONALISMO À CUMPLICIDADE SEM PRINCÍPIOS - 1

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A ideia da fraternidade internacional entre os trabalhadores nasce na primeira fase da estruturação dos movimentos operários. Formulou-se como resposta à constatação do egoísmo capitalista e da impossibilidade de lhe responder sectorial e nacionalmente. Se o “capitalismo não tem pátria” (fórmula simplificadora por tender a subestimar as contradições infra-capitalistas), como se constatava, como a podia ter as massas trabalhadoras, inferiorizados como estavam em meios de influência e de afirmação dos seus interesses específicos em luta insanável e sem tréguas com os exploradores? A formação da I Internacional (AIT – Associação Internacional de Trabalhadores), ainda no Século XIX, juntando as famílias socialistas e anarquistas, foi a primeira expressão orgânica desta necessidade e da sua percepção pelas elites operárias mais politizadas.

 

O projecto do internacionalismo proletário - arguto, ambicioso e utópico -,  deu um novo impulso ao movimento operário, pela permuta de informações e experiências e pelas vias abertas à entreajuda de classe, mas comportava a lide com contradições insanáveis internas e eternas. Desde logo, a passagem da táctica e da estratégia da luta operária local e nacional para um nível supranacional implicava uma uniformidade ideológica e programática mínima impraticável porque tropeçava nas diferenciações profissionais, nacionais, culturais e níveis de politização (sobretudo no balanceamento entre os imediatos interesses corporativos e as obrigações de solidariedade). Depois, porque o caminho para uma praxis ambiciosa que tinha a elevadíssima pretensão de - com meios escassos e sujeita a uma repressão poderosa, brutal e organizada - unificar e coordenar o combate da “classe operária internacional”, não só implicava um safanão qualitativo na passagem da “consciência sindical” para a “consciência política” (ou, dito segundo os cânones – da consciência da “classe para si” para a consciência da “classe em si”) como introduzia a querela politicamente violenta sobre hegemonias e projectos diversificados no caminho para a idealizada sociedade sem exploração. Não foi necessário esperar muito tempo para que os conflitos mortíferos entre socialistas e anarquistas, suscitados com o surgimento e apuramento do marxismo, levasse á atrofia e à morte da I Internacional.  Ainda no Século XIX, Marx arranca com a II Internacional, como meio unificador dos socialistas na via revolucionária rumo ao socialismo, sem lugar para os anarquistas e para os reformistas atávicos estagnados no cooperativismo e no mutualismo. O bolchevismo, no início do Século XX, reduzindo a via revolucionária à prática comunista, criando uma fractura insanável na família marxista, leva a uma nova cisão em que as famílias socialista e social-democrata se detêm com os restos da II Internacional e cria-se, em 1921, a III Internacional (a Internacional Comunista ou Komintern). Esta tem já um perfil exclusivamente político e partidário, subalternizando a prática sindical (encarada como uma mera alavanca dos partidos revolucionários) para um departamento especializado e instrumental (o Profintern). Numa primeira fase, o Komintern pretendeu ser um instrumento da revolução mundial mas após a acumulação de experiências falhadas de exportação da revolução soviética (na Hungria, na Polónia, na Finlândia e na Alemanha), Estaline impôs ao movimento comunista internacional o centralismo russo absoluto (pela formulação da “construção do socialismo num só país”) e como dever revolucionário supremo em toda a parte da solidariedade e submissão aos interesses próprios da construção do socialismo e do comunismo na União Soviética, em que a fidelidade à URSS e ao PCUS passou a ser a condição primeira para se ter direito à qualidade de comunista. Este afunilamento hegemónico e instrumental, ferreamente controlado, consolidado na liderança de Dimitrov, pautou praticamente toda a vida do Komintern até à sua extinção no final da 2ª Guerra Mundial, por inutilidade óbvia e para permitir a aliança URSS-EUA-Inglaterra que havia de derrotar o nazismo. Com a constituição do “campo socialista” (URSS e “democracias populares” satélites), a prática “kominternista” passou a ser activada directamente do PCUS para os “partidos irmãos”. O remanescente da II Internacional manteve-se (e julgo que ainda exista) confinado aos reformistas socialistas e como feudo de irradiação do chamado “sindicalismo amarelo”. Uma certa IV Internacional, minúscula cisão trotsquista da III Internacional estalinizada, nunca passou além de um conglomerado de grupúsculos autodenominados de socialistas revolucionários.

 

Não é, pois, um caso de sucesso a história atribulada, com sucessivos e corrosivos abalos sectários, da tentativa de pôr de pé a fórmula “Proletários de todo o mundo, uni-vos!”. Mas durou até à sua longa fase terminal, em que o “internacionalismo proletário”, com um espectacular efeito de retórica propagandista, se traduziu numa fórmula estreita de subordinação seguidista perante a hegemonia do “centro da revolução” (URSS / PCUS), género Estado Maior devendo-lhe obediência obrigatória os batalhões, as companhias e os pelotões revolucionários. Nesta última fase, a “Internacional Proletária” (externamente apresentada como não orgânica) criou a sua própria hierarquia para a acção revolucionária mundial, confluente aos interesses geoestratégicos soviéticos, desdobrando-se em três campos (aplicação do princípio orgânico sagrado do "centralismo democrático", em que o PCUS era o vértice da pirâmide - a "vanguarda máxima", com as massas oprimidas em ascenção para a "consciência de classe" e depois para a "consciência política" na base, tendo pelo meio várias camadas de "vanguardas intermédias"): primeiro nível – “campo socialista” (URSS mais “democracias populares”, onde os PC detinham a exclusividade do poder e eram obedientes ao PCUS, com transposição militar no "Pacto de Varsóvia"); segundo nível – a classe operária dos países capitalistas (ou seja, uma forma eufemística de designar os PC’s alinhados com o PCUS e que ainda não tinham conquistado o poder); terceiro e último nível – o “movimento de libertação nacional” (amálgama das movimentações nos “países atrasados” que, sob influência marxista mitigada e com algum grau de controlo e influência soviética, se demarcavam ou combatiam a influência do imperialismo americano). Foi assim até à implosão da União Soviética e da esmagadora maioria das “democracias populares”.

(continua)

Publicado por João Tunes às 02:10
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