Sexta-feira, 11 de Agosto de 2006

OS NEGACIONISTAS DA VIA SEMÂNTICA

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Não existem modelos puros na prática política. Que mais não seja, porque esta não passa da arte do possível. E, para o ser, tem de se adaptar, moldando-se, aos status e às circunstâncias. A maior partes das vezes, não para se impurificar ou degenerar, antes para ganhar a eficácia da adaptação.

 

Se a formatação do “comunismo soviético” for tomado como um absoluto, em que cópia é tudo e imitação nada, então só tinha havido prática comunista na União Soviética.  Seguindo as exigências rigoristas dos exegetas do copismo, Cuba, Coreia do Norte, Vietname, Laos e China de hoje, Roménia, Polónia, RDA e Jugoslávia de ontem, nunca foram regimes comunistas. Porque não são ou não foram cópias exactas, quimicamente puras, do modelo soviético. E, por aquilo que defendeu e propôs, em que sempre pincelou o seu marxismo-leninismo com fortes adaptações nacionalistas, Cunhal, ele mesmo, sumo sacerdote da ortodoxia do estalinismo dos tempos modernos, seria, vá lá, um nacional-conservador-revolucionário de inspiração leninista mas não um verdadeiro e puro comunista. O que, sublinhe-se, seria insultuoso para com o ícone sagrado e eterno do PCP. Pela nossa parte, ele que descanse em paz que não lhe faremos tamanha desfeita.

 

Puristas da veracidade copista dos modelos da praxis política andam por aí a bramar que fascismo mesmo foi o italiano e mais nenhum. O nazismo terá sido outra coisa, bem pior. As variantes fascistas havidas em Espanha e em Portugal não lhe chegaram aos calcanhares, porque mais imperfeitas, mais brandas (ou mais doces?), mais católicas, mais conservadoras, mais provincianas. Não tendo preenchido todos os parágrafos dos cânones, rituais e excessos do fascismo italiano, terão sido, quando muito, formas de autoritarismo conservador-católico e não mais que isso. Fascismo, fascismo mesmo, isso é que não.

 

E no entanto, os condimentos (sobretudo as arestas) do modelo fascista, do original italiano, estiveram bem presentes e sofridos no corpo e na alma dos que viveram o fascismo português. Não faltaram as cópias que se pretenderam integrais (a Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa, a Obra das Mães, a PIDE, o Campo do Tarrafal, a Censura, o Partido Único) que, depois, deram numa ou outra versão pífia tipo "tuga". E a “grande diversidade” do fascismo português face ao modelo copiado teve a ver sobretudo com a adaptação nacionalista ao mundo rural-católico que enformava então a sociedade portuguesa. Mas não lhe faltou sequer a componente expansionista e da conquista de “espaço vital” para a “raça portuguesa” (o império colonial). O que não representou qualquer desvio mas, antes, foi prova de uma talentosa capacidade adaptativa. Como foram os casos da Croácia, da Hungria, da Roménia, de Espanha, da Eslováquia, da França de Petain. Todos fascismos, todos diferentes, todos iguais.

 

A única curiosidade especial da agudeza actual dos negacionistas da natureza fascista da ditadura que nos consumiu 48 anos, tem a ver, exclusivamente, com este momento especial em que um movimento se opõe a que a memória do fascismo português se apague na História, tentando evitar que desaparecam as suas marcas para que as novas gerações saibam que houve fascismo, e longo, e brutal, em Portugal. Agora, a via dos negacionistas, objectivamente branqueando a ditadura, é a do rigorismo semântico. Sobra-lhes em lata o que lhes falta em coragem de se confessarem quanto à real intenção - poupar o fascismo português de ser julgado pela memória colectiva. Porquê e para quê?

Publicado por João Tunes às 21:10
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2 comentários:
De Fernando Esteves a 11 de Agosto de 2006
"Poupar o fascismo português de ser julgado pela memória colectiva. Porquê e para quê"????
A memoria colectiva nao e um juiz, mas apenas um
quadro de referencia de uma sociedade ou comunidade. Mas a sociedade (ou comunidade) nao e una nem consensual... entao que sentido tem procurar unanim idadade dos conteudos da memoria colectiva?
De João Tunes a 16 de Agosto de 2006
Nada no texto indica o sentido do unanimismo no julgamento (se se preferir: avaliação) da memória. Não há memória neutra, ela serve-nos como meio de consciência e vontade de conhecer os erros e iniquidades pessoais ou históricas, pelo menos para não os repetir. E neste caminho, cada qual transporta os seus valores, desejos e compromissos, culpas também. O apego ao valor da liberdade só se consolida com o conhecimento da realidade (vivida) da não-liberdade. O silêncio dos cemitérios da memória só interessa aos que não contêm a pulsão pela patifaria, a individual e a colectiva. A um antigo Pide, interessa-lhe que não se saiba o que foi e fez a "prestimosa", a um outro, que sofreu o chicote da Pide no lombo, lutará para que a história do chicote não esqueça. Só por isto, não haverá unanimidade mas apenas valores. Uns mais interessados que outros em que a história, os factos, fiquem expostos à luz do dia.

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