Quinta-feira, 10 de Agosto de 2006

SE FIDEL ASSINOU, PORQUE NÃO ASSINAR?

Não estranhei ver os nomes de José Saramago e de Boaventura de Sousa Santos entre os «400 intelectuais» que assinaram uma declaração pró-ditadura cubana apresentada como denúncia antecipada de ingerências previstas. Confesso até que esperava pior, isto é: mais nomes (e igualmente sonantes)aqui da pátria lusitana.

 

Era mais que previsível que a actual crise política cubana, que é uma crise de pré-implosão interna devido à incapacidade da ditadura sobreviver à perda natural do ditador, despertasse entre os revolucionários romântico-libertadores, os da acção, os do coração e os do pensamento, uma antecipação da nostalgia pela eminência da queda de uma referência e um mito querido mais uma re-afirmação de fidelidades acumuladas. É coerência (revolucionária) dirão estes. E claro que o é. Mas também um justo pagamento por uma dívida que os revolucionários pró-Fidel, não cubanos, têm para com os últimos 47 anos da história de Cuba – conseguiram neste período de tempo, enquanto os cubanos sofreram a opressão e a penúria, manterem-se revolucionários noutras terras, noutras comodidades e, por vezes, usando variadas e amplas liberdades negadas ao povo cubano, por conta dos juros dos rendimentos da compensação utópica e mitificada das gestas de Che, Fidel, Raul e seus companheiros. E alguns deles, os mais sinceros na fidelidade revolucionária, os menos dispostos a traficarem opções livremente tomadas, terão conseguido manter a coerência e a fidelidade, não se inquietando com as contradições entre a formulação dos seus ideais e a prática política da ditadura cubana, simplesmente porque o alimento ao mito lhes ocupou todo o tempo, em nada sobrando para se questionarem nesta pergunta simples “Gostaria eu de viver na libertação cubana?”.  Evitando ainda o previsível pesadelo para alguns entre os alguns, de saberem intimamente que a sua independência e rebeldia, que escolheram porem (mas fora da Ilha) ao serviço do apoio a Fidel, se exercida na ditadura cubana, partilhando as agruras dos cubanos e não se conformando com elas, lhes valeria, pela certa, o caminho da prisão em vez do direito a citação no “Granma”.

  

Os mitos de Fidel, de Che e da revolução cubana, desumanizados pelo reverso do desprezo pela (má) sorte dos cubanos, serviram a muitos, talvez demasiados, “revolucionários” espalhados pelo mundo a boa consciência compensadora da má consciência por não fazerem revolução em parte alguma. Assim, como podiam faltar as assinaturas de José Saramago e de Boaventura de Sousa Santos nesta hora de angústia revolucionária? Se Fidel Castro, ele próprio, para se prolongar no mando até que a lei da vida o vencesse, assinou, em seu tempo, o termo da abdicação dos ideias formulados na Sierra Maestra e na entrada em Havana pelo alinhamento incondicional com o puro e duro estalinismo soviético e que produziu, em tantos anos, alguns milhares de clones tropicais?

Publicado por João Tunes às 16:38
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5 comentários:
De M. Conceição a 10 de Agosto de 2006
Sem desmerecer nada ao seu post. Como poderia? Só se tivesse, de vez, perdido qualquer pingo de sensatez que me reste...também falo do Fidel, no meu blog. Com o testemunho de alguém, que eu considero idóneo, que com ele privou. O que eu pretendo dizer é que a realidade é mesmo complexa.

Mas, já que me permite, não li o texto que acompanha a recolha de assinaturas, mas cheira-me a palhaçada, ainda para mais, travestida de intelectualidade. As criaturas, dediquem-se à poesia...
De João Tunes a 16 de Agosto de 2006
Com o devido respeito, cara M. Conceição, esse Leonardo não é santo da minha devoção. Tem muito de redencionismo criativo-evangélico que facilmente o faz cair nos braços um qualquer outro ditador "libertador" que lhe passe a mão pelo pelo (mais o ego) e o compense das dores das chicotadas papais. Mas concordo consigo (uff!) em que a realidade é (sempre) complexa. Abraço ateu.
De Quadrúpede Rosa a 10 de Agosto de 2006
De José Saramago, nesta ortodoxia bafiente, já nada há a esperar de novo, de arejado. Por vezes, na visão da sua passagem pelo campo das letras, onde tem semeado, à sua maneira, o que eu considero intragável (gostos são gostos), afigura-se que as suas posições polémicas e alinhadas, pretendem soar a coerência, colocando o autor - que é - como personagem principal, e a sua obra como acessória. O que, pese embora o meu gosto literário, não devia acontecer.
De Fidel, a Cuba Livre, como bebida, e os melhores charutos Montecristo ou Cuaba; depois, a singular manutenção daqueles relíquias que são as "banheiras" ambulantes americanas.
Enfim, detesto ditaduras.
De Quadrúpede Rosa a 10 de Agosto de 2006
Onde está "bafiente" devia estar "bafienta".
Desculpe o João esta reentrada, mas não costumo verificar a ortografia.
De Manuel Maria a 10 de Agosto de 2006
Mas olhe que o Saramago já se retratou... ao que consta

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