Quarta-feira, 9 de Agosto de 2006

AS COSTAS LARGAS DO ANTI-SIONISMO

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O Tiago Barbosa Ribeiro veio trazer para o debate um interessantíssimo contributo para aclarar posições, algumas muito bem encapotadas, sobre o anti-semitismo (*) dos tempos actuais.

 

Claro que é, em alguns casos, uma pressa de combate incluir automaticamente na categoria de anti-semitas (ou anti-judaicos) todos os que odeiam Israel e celebram, entre amigos políticos, cada rocket lançado pelo Hezbollah. Aliás, estes, os da banda esquerda, bem sublinham que são apenas anti-sionistas e nunca, por nunca ser, anti-semitas. Ou seja, o anti-semitismo seria um património direitista, coisa de nazis e quejandos, gente pouco recomendável e com quem não admitem misturas. Quanto aos combatentes da esquerda anti-Israel, eles afirmam condenar exclusivamente o imperialismo guerreiro e o expansionismo dos israelitas, o martírio dos palestinianos, libaneses e tudo quanto é muçulmano e sobretudo, mal maior, a aliança de Israel com o Império do Mal. Em termos de organização teórica das ideias, mais ainda nas intenções, é evidente que se pode admitir que alguém, ou uns tantos, por muito afirmativos que sejam, tentem essa ginástica política de separar os vários “anti” que lhes povoam as cabeças.

 

Julgo que em termos concretos, ou efeitos práticos, a distinção pretendida, se já fez algum sentido, e isso não nego de todo, está datada na discussão e na oportunidade quando da criação do Estado de Israel há cerca de sessenta anos. Na altura, a “ideia sionista” que levou à implantação do Estado de Israel, apresentando argumentos de fundamentação, tinha um sem número de óbices e constrangimentos para ser aceite como legítima, sobretudo tendo em conta os direitos de implantação no terreno dos palestinianos. O certo é que a existência do Estado de Israel foi uma realidade de facto e legitimada pela comunidade internacional, no que pesou decisivamente o facto de tanto os Estados Unidos como a União Soviética terem apadrinhado a nova realidade.

 

Não é responsável quem defende, hoje, o desaparecimento do Estado de Israel e que se obriguem os judeus ali instalados a sofrerem um novo êxodo de fuga errante pelo mundo. E tirando os fanáticos que governam o Irão, mais os grupos ultra-fundamentalistas, poucos têm coragem de defender uma nova “solução final”. O pretexto usado na propaganda de ódio anti-israelita é o pretendido entorse sionista que transforma Israel, pela sua prática mas sobretudo pela sua natureza, numa potência militarista e expansionista em missão de genocídio de palestinianos e dos seus irmãos e camaradas, um aliado do imperialismo americano em terras próximas de muito petróleo. E, nas ideias e nas propagandas, as imagens utilizadas são sistematicamente repetidas – o drama palestiniano, o drama libanês, os “territórios ocupados”, as vítimas da metralha israelita, acabando sempre na reedição metafórica da luta entre David e Golias. Nada havendo a dizer quanto à condenação dos métodos de retaliação usados por Israel, maioritariamente repugnantes porque cruéis e indiscriminados, o certo é que os “anti-sionistas” esquecem sistematicamente, nos seus julgamentos parciais, dois factores fundamentais – por um lado, a brutalidade israelita é defensiva (segundo o princípio “quem se mete connosco, apanha!”), incluindo as ocupações de territórios fora das suas fronteiras, com um grau de violência que dissuada os apetites agressivos ou provocatórios; segundo, não é “melhor”, nem “mais humano”, nem de grau diferente, a brutalidade do terrorismo e dos ataques que pretendem castigar Israel e obrigá-lo a recuar no seu direito à existência em segurança.

 

É a parcialidade do “anti-sionismo” dos tempos modernos, inscrita no arco do activismo anti-americano, com uso e abuso de “dois pesos e duas medidas”, em que a ameaça do terrorismo, do fanatismo e do fundamentalismo islâmico (com os apoios e meios poderosos e agressivos do Irão e da Síria, usando os instrumentos Hamas e Hezbollah), é silenciada (como se cada ponto que o terrorismo islâmico marcasse contra Israel não fizesse ricochete nas cabeças bem pensantes), vestindo os palestinianos de David e os israelitas de Golias, que torna estultamente falhada a pretensão invocada de se querer ser, ou parecer-se, anti-sionista sem ser anti-semita. Porque, na prática, se trata, afinal, da mesmíssima coisa, prisioneira que está do maniqueísmo em que todos os palestinianos são bons e mártires e, como pensa a direita nazistóide, o único judeu bom é o judeu morto.

 

 

(*) – Sei que o termo “anti-semitismo” não é rigoroso como categoria de aversão exclusivamente “anti-judaica”. Porque, de facto, semitas são tanto os judeus quanto os outros povos da região. Mas, ressalva feita, como a expressão acabou por adquirir uma parcialidade que lhe deu identidade (ninguém fala em “anti-semitismo” a propósito de sentimentos “anti-árabes”!), continuaremos a utilizá-la.  

Publicado por João Tunes às 17:13
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1 comentário:
De José Manuel a 9 de Agosto de 2006
Judaísmo não se confunde necessariamente com Sionismo, são conceitos completamente diferentes. E, já agora, para muitos judeus (nomeadamente judeus ortodoxos) o Sionismo é contrário aos princípios do Judaísmo.

Ver mais aqui:
http://www.jewsnotzionists.org/index.htm

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