Terça-feira, 8 de Agosto de 2006

O DRAMA LIBANÊS

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1 – Têm plena razão teórica os que lembram que o Líbano, além da Palestina projectada e das marciais e imperiais Turquia e Indonésia, foram as grandes esperanças de concretização democrática, multicultural e multireligiosa, até civilizada e moderna, no mundo muçulmano. Mas, agora, é o Líbano que está no palco, o pior dos palcos – o palco das bombas. Fiquemos, pois, pelo Líbano, a chamada “Suiça do Médio Oriente” (e a alcunha não é nada inocente).

 

2 – O Líbano tem factores específicos na sua identidade que se distinguem da realidade circundante: possui uma tradição burguesa-mercantil consolidada em séculos e que, na sua irradiação mundial (encontram-se comerciantes libaneses por tudo quanto é parte do mundo) lhe conferiu uma componente capitalista sólida e transnacional e, concomitantemente, um liberalismo de conveniência, uma plasticidade perante outras sociedades e outras culturas; foi colónia francesa, mantendo esta cultura de raiz, num mundo essencialmente colonizado por otomanos e ingleses; comporta uma dualidade islâmico-cristã (60/40) que dissuade hegemonias e fundamentalismos; tem uma tradição turística e mundana que a torna permeável a osmoses cosmopolitas, abrindo-se ao mundo.

 

3 – Tragicamente, o Líbano não escapou, na sua procura de uma identidade sui generis, ao fatalismo da sua inserção cultural-geográfica.  Cultural e politicamente, o Líbano tinha e tem uma forte tendência centrípeta relativamente aos modelos democráticos e europeus. Mas, geograficamente, o Líbano fica (demasiadamente) perto das praças fortes do irredentismo islâmico, das erupções do “socialismo árabe”, de Israel, da Palestina e, não tendo petróleo, está a dois passos do petróleo. O conjunto destes factores, moldados nas estratégias de conflito, ditou a perenidade do drama libanês. Tornou-o vulnerável pela tentativa de afirmação cristã fracassada; pelos apetites de hegemonização e domínio do vizinho sírio; porque foi um importante reduto de refúgio da diáspora palestiniana, viu-se mergulhado no conflito israelo-muçulmano em que Israel lhe impunha a neutralidade-tampão e o fundamentalismo terrorista islâmico o queria como guarda avançada no combate a Israel. Assim, os conflitos exógenos mas próximos, praticamente todos, entornaram-se sobre o Líbano e têm ditado o afogamento de uma via autónoma que poderia servir como modelo superador, de tolerância e de referência convivial e democrática. Inevitavelmente, a prisão a estas contradições e asfixias, impôs a castração de veleidades autónomas no Líbano. Aquela a que assistimos.

 

4 – Os mais interessados na “diferença libanesa” sempre foram, entre os vizinhos do Líbano, o Estado de Israel. Na estrita medida em que essa “diferença” seria um tamponamento suficiente e generoso perante a agressividade islâmica. O mesmo Israel que se afirmou sempre como implacável face a qualquer condescendência libanesa perante osmoses ou promiscuidades com posicionamentos que lhe fossem hostis. Esta tensão e as tensões simétricas de oposição e controlo (da Palestina, da Síria e do Irão) impediram a mínima tranquilidade para estabilizar o Estado e o seu aparelho ao serviço da autonomia libanesa.

 

5 – O Líbano não teve condições para se consolidar como Estado autónomo. Fragilizado internamente pelas tensões mortíferas entre cristãos e muçulmanos, viu-se ocupado pela diáspora combatente da Palestina, sofreu a retaliação israelita pela sua transformação em santuário dos palestinianos, caiu na esfera da influência da Síria, baqueou perante a afirmação agressiva e terrorista do Hezbollah (com apoio iraniano e sírio) e a quem não foi capaz de impor o desarmamento. Pagou sempre elevadas perdas em vidas, património e capacidade autonómica, cada vez que um input dos vizinhos lhe caiu dentro de casa. Agora, mais uma vez, o Líbano sofre o fogo israelita por não ter tido a força suficiente para impedir que o Hezbollah se transformasse, no Líbano, um Estado dentro do Estado e um sub-Estado agressivo e terrorista, generosamente incentivado, armado e financiado pelo Irão com a cumplicidade síria.

 

6 – Como não chorar por ti, Líbano? Pelas tuas fraquezas, pelas tuas dores e, sobretudo, pelo teu azar com os vizinhos implacáveis e cruéis que a geografia impôs.   

Publicado por João Tunes às 00:51
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4 comentários:
De IO a 8 de Agosto de 2006
Excelente 'post', grato abraço, IO.
De Quadrúpede Rosa a 8 de Agosto de 2006
É o Líbano, a Suíça, o Cedro e a vizinhança que não o deixa ser isso, mas nada. Por cuklpa da sua fraqueza ou da sua tolerância. Síria e Irão constituem, em primeira lina, a mais indesejável das vizinhanças. E, como diz o povo do norte, o transmontano das raízes do João Tunes, "quem com maus vizinhos vizinhar, com um olho há-de dormir e com o outro vigiar". Isto mesmo o diz Israel, que se plantou em terreno de má vizinhança, cuja ortodoxia assenta num fundamentalismo bafiento e injustificado.
Bom post João, pela sapiência, pela lucidez, por tudo.
Um abraço.
De ´Ricardo a 8 de Agosto de 2006
Está na altura de nós nos convertermos em aliados e limparmos a Suíça de ataques sionistas. Bloqueios económicos a Israel e cortes de relações diplomáticas em força!
De Anónimo a 8 de Agosto de 2006
6- Como não chorar por ti Humanidade? Pelo teu azar de o petroleo ser o negócio que é e as pessoas que o controlam te causarem sofrimentos destes.
Investigue um pouco o assunto do oleoduto Baku-Tblisi-Ceyhan (BTC) recentemente inaugurado, no dia anterior ao inicio desta guerra, e das companhias e assuntos relacionados e vai perceber o que quero dizer. Já é tempo de não nos deixarmos 'cegar' por aquilo que nos impigem nos media todos os dias e analisarmos porque é que estas barbaridades acontecem.

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