Terça-feira, 28 de Junho de 2005

DÍVIDA A PÁVEL E À MEMÓRIA

pavel.jpg

Talvez seja tempo de a areia sair do entulho da memória da resistência (nomeadamente da sua componente mais eficaz, determinada e sacrificada – o PCP), mostrando o branco, o negro e o cinzento dos homens e mulheres que - carnes, nervos, inteligências e almas – construíram o não ao fascismo. Em grandezas, no assim-assim e até em algumas misérias, mor das vezes em altos e baixos. Como é próprio de qualquer projecto humano, sobretudo se o dizer não exige tudo de cada um que se submeta como pessoa ao projecto de sacudir a opressão nefanda. Para que, pelo menos, conheçamos as pessoas que permaneceram na luta e para quem temos a dívida da liberdade de hoje (independentemente de se saber se era esta a liberdade por que lutaram). Também para que este povo tenha direito à sua memória.

Há um absurdo monstruoso na vida e na militância dos membros do PCP. Dão-se a um Partido, lutam pelas suas causas, levantam o punho e bandeiras rubras, orgulham-se do passado de luta e do objectivo do seu ideal, cantam as suas canções, manifestam-se, fazem greves, votam e angariam votos, cumprem tarefas, são disciplinados e organizados, comovem-se com os seus dramas e alegrias, tratam-se por tu em sinal de camaradagem, olham para onde acham que devem olhar, seguem em frente, resistem, acham que vêm do Bem e que procuram o Melhor, sem O Partido sentir-se-iam órfãos, mas não conhecem a história do seu Partido e, assim, são militantes sem direito a passado e a memória. Eles e os outros, porque a memória é uma questão de cidadania e, assim, respeita a toda a sociedade.

Não faz sentido algum que o Partido que se arroga como tendo o património de glória de transportar consigo o melhor da humanidade e da tradição de afirmação da dignidade do povo português, continue a ocultar a sua história. Pior, filtrando-a para debitar este ou aquele episódio, maltratando a memória com os tratos da propaganda. A explicação para este fenómeno insólito só pode encontrar-se na decisão mantida de servir mitos, lendas e mentiras, como xarope para a fé, servir-nos os heróis, os santos e os mártires (verdadeiros ou construídos) e deixar os vilões, as vilanias, os injustiçados e a injustiça, na sombra mais profunda. Para anular qualquer risco de um demónio sair santo ou vice-versa? Como se alguém lúcido pudesse acreditar que um passado que exigia o limite de cada um, numa organização clandestina e acossada, só revelasse o bem humano, isento de luta pelo poder, sacanice, desenrascanço, traição, vacilação e compromisso. Mas, quem sabe, talvez um dia o PCP resolva apresentar-se como partido de humanos. Até lá, a vontade de ter memória também mostra a sua energia. Tanto mais que os que foram grandes Partidos Comunistas europeus já abriram os seus arquivos aos historiadores (casos do PCF e do PCI) como vai acontecendo com os arquivos do PCUS. E se, por cá, os que mais sabem nada contam, ou contam como convém contar, vai valendo (com os riscos inevitáveis da falta de rigor e da fantasia) aqueles que se dispõem a narrar um naco aqui e outro acolá.

Francisco Paula de Oliveira (Pável) foi Secretário-Geral do PCP e caluniado internamente e junto do Komintern. Hoje, está mais que provado que Pável foi vítima de uma nefanda calúnia (a propósito da sua evasão do Aljube) que funcionou como sua morte política enquanto comunista e de que se aproveitou (aproveitando as circunstâncias ou fazendo por elas) uma alternativa de liderança. Pável refez a sua vida no México e morreu amargurado porque sempre houve escusa (ou recusa) de fazer justiça (a ele e à história do PCP). Mas a honra de um homem não morre com o seu corpo. A dívida para com Pável continua a pesar na construída e alimentada amnésia histórica. Até um dia.

Entretanto, aqui fica, sobre Pável, a transcrição de um depoimento de Edmundo Pedro encontrado no excelente blogue do João Pedro George:

”Foi operário comigo nas oficinas do Arsenal de Marinha, que era uma oficina de elite. Todos os operários eram obrigados a frequentar a Escola Industrial. Em nenhum outro estabelecimento fabril era assim. Havia todo um conjunto de pessoas de grande craveira intelectual. Lembro-me do Alfredo “Pasteleiro”, conheci-o quando era aprendiz numa oficina metalúrgica situada na rua do Salitre. Foi ele quem me deu a ler os primeiros manifestos comunistas. O Francisco Paula de Oliveira, que foi Secretário-Geral do PCP e Secretário-Geral da Juventude Comunista, tomou o pseudónimo de Pável, o nome de uma personagem de um romance do Máximo Gorki, A Mãe. Era conhecido pelos amigos como o “Viagens à Lua”. Era a alcunha que lhe davam no Arsenal, porque era um tipo que se interessava por ficção científica, viagens à lua, etc. Esteve preso no Aljube mas fugiu. Foi para Paris e fugiu depois para o México, onde se radicou com o passaporte de um combatente da Guerra Civil que tinha morrido, António Rodriguez. Tornou-se escritor e um grande crítico de arte. Foi uma grande figura da cultura mexicana. O México fez-lhe uma homenagem nacional pela contribuição que ele deu à cultura mexicana. Não é qualquer um. É um caso que dava um romance fabuloso. Depois do 25 de Abril, o Mário Soares convidou-o a vir cá. Tenho fotografias dessa visita.”
Publicado por João Tunes às 17:23
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