Terça-feira, 30 de Agosto de 2005

A PERSISTÊNCIA DO EXPEDIENTE KRUTCHOV (2)

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Sobre as mudanças no poder do Kremlin após a morte de Estaline, pouco se entenderá se não se tiver em conta a figura central, cínica e intelectualmente conspiradora de Mikhail Suslov e autêntica “eminência parda” dos corredores entre o Secretariado e o Politburo do PCUS e durante várias décadas após 1953 e até à nomeação de Gorbatchov. Suslov era um burocrata sofisticado, dominando o “marxismo-leninismo” de cartilha neo-estalinista e que, criado na (ou pela) escola aparetchick estalinista, ajudou Krutchov no seu golpe contra Béria e depois continuado contra Molotov, construíu o golpe que depôs Krutchov e implantou a “estagnação” dos tempos de Brejnev, continuando a ser sempre, até ao seu desaparecimento físico, um dos homens mais influentes (e mais “discretos”) da direcção do PCUS onde detinha o pelouro da orientação e vigilância ideológica.

Pertence a Suslov grande parte do “mérito” da concepção do “estalinismo sem Estaline”, na teoria e na prática, depurando a iconografia dedicada ao “Pai dos Povos” mas mantendo todas as chaves de funcionamento partidário nos mesmíssimos cânones introduzidos por Estaline no PCUS (e que o transformaram numa sombra do seu funcionamento no tempo de Lenine e, após a morte deste, enquanto durou a luta pela sua sucessão e que culminou no poder absoluto concentrado nas mãos do antigo seminarista georgiano).

Suslov, na prática um dos homens mais influentes do Kremlin desde a década de 50 à década de 80, era um grande admirador e “protector” de Álvaro Cunhal e o principal portal de garantia da “amizade eterna PCUS/PCP”, tendo-o condecorado com a “Ordem da Estrela Vermelha” (a mais alta condecoração soviética atribuída a cidadãos estrangeiros) e concedendo-lhe o cognome honorífico e relevante de “marxista de cristal” (o que, na “linguagem de madeira” do PCUS só poderia traduzir elogio indubitável a um dirigente comunista capaz de construir e dirigir um partido estalinista da cabeça aos pés com talento de brilho na camuflagem e sem necessidade de uma única referência elogiosa a Estaline e se necessário com uma referência de circunstância e de passagem aos seus “erros e desvios” para cumprir a praxe e calar os adversários).

Dado que Suslov era sobretudo um poderosíssimo “homem da sombra” - organizador de bastidores e um conspirador nato - com a auto-missão de nunca permitir que o legado de Estaline se perdesse (negando o que, por propaganda, se tivesse de negar), a sua figura, apesar da importância crucial que teve no período pós-Estaline e com apogéu no consulado de Brejnev, ainda é relativamente pouco conhecida e tratada pelos politólogos e historiadores. Para o caso português,difícil será entender a essência e a profundidade da dependência do PCP relativamente ao PCUS (enquanto este existiu) e a constância e fortaleza do apreço do PCUS por Cunhal e pelo PCP, bem como o papel instrumental de confiança que Suslov atribuíu ao PCP na fidelização do Movimento Comunista Internacional e no combate às forças centrípetas que por lá afloravam, as suas motivações e os canais, formas e áreas em que tudo isto se verificou, sem que se conheça algo mais e de mais revelador sobre os laços políticos que sustentaram a longa amizade pessoal e ideológica que uniu Suslov e Cunhal. Provavelmente, muito de revelador ainda dorme nos arquivos do PCUS em Moscovo porque, sabe-se, os burocratas aparelhistas tinham o gosto maníaco de sobre tudo fazerem actas, tirarem apontamentos e elaborarem notas. Resta que Putin recue, se recuar, nas suas ordens de regressão no acesso aos arquivos do período soviético por parte dos historiadores.

Na imagem: Suslov “acena às massas” ao lado de Brejnev e quando este ainda vivia a sua fase pré-senil.
Publicado por João Tunes às 12:48
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