Sexta-feira, 29 de Julho de 2005

NA HORA DA AUTOCRÍTICA (2)

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O Manuel Correia, com quem bati um acalorado papo também não quis, aqui, de deixar a sua versão de “auto-crítica” que, por respeito ao contraditório, não posso deixar de permitir honras de idêntico relevo. Aqui vai o inspirado texto do Manuel Correia:

”Estes palonços proto-pacifistas, ex-comunistas e de outros credos inconfessáveis, que andaram um ror de anos a pregar o desanuviamento enquanto os seus émulos encartados patrulhavam os gulags esfiapando os espíritos e as carnes dos que ousavam dessidir do 'pensamento único', estes apologistas do 'triunfo dos porcos' disfarçados de 'homem novo' e de outras balelas superficialmente profundas, estes energúmenos - esta gente, - dizia eu, vem agora derreter-se em derriços de Gandhi, quando o que escondem na alma é um Guevara amaneirado, uma identidade perdida, um choro convulsivo pelo maldito modelo socialista que não conseguiu sair dos escritos dos melhores pensadores do século XIX. Pensam eles que nos conseguem persuadir e conduzir a mais um fracasso, desta vez contra o terrosrismo internacional de pretexto islâmico, sem perdão, sem explicação, demoníaco de alto a baixo, sem sequer ancoragem histórica ou antropológica que nos pudesse levar a fazer uma pausa na dinâmica aceleracionista e conceder-lhe, de sobrolho franzido (como convem) um rápido soslaio. Estes patós não percebem que a única receita que pode salvar-nos - física e espiritualmente; individual e colectivamente - é a guerra, é fazer cantar as armas onde os pacifistas baratos e chéchés, como Soares, Freitas, Louçãs, Jerónimos, et j'en passe, acabam, com as suas falinhas mansas de rameiras arrependidas, por os justificar e criar as condições para que continuem a matar-nos. Cuidado. O próximo podes ser tu. Melhor: o próximo serás tu. Mata-os antes que te matem. A solução é só uma: a guerra. Em frente. Não te deixes acobardar pela sedução pseudointelectual dos que querem arrepiar caminho, fingindo que pode haver outras soluções. À morte. Ao fim.”
”PS. - O Zapatero nunca me enganou; o Blair está a deixar-se ir e dos ingleses não se pode esperar melhor. Essa história da 'Aliança das Civilizações' é um logro. A estratégia de Bush é que está certa. Ocupá-los, humilhá-los, esmagá-los. Quando já nada restar dos homens, acabar-se-ão os problemas. Como diz o nosso astro JPP, não há razões sociais por detrás do terrorismo global. São todos ricos, educados, leitores da Vogue e clientes Dior. A Palestina nunca existiu. É uma invenção do defunto Arafat. Não se deixem ir nos cantos de sereia dos tartufos que em vez de esqueleto têm duas fileiras de costelas antropológicas. Ponham cobro ao arrazoado dos pensadores antibelicistas. Como dizia Pessoa, 'É a Hora'. Em frente. A sorte protege os audazes. Vamos a eles. E se eles morrem cobarde e suicidariamente nas suas acções de guerrilha, ocupemos-lhes as terras, retaliemos sobre as famílias, os vizinhos, os amigos, os simpatizantes e, por fim, se tudo isso não resultar, por todos os que com eles mostrarem qualquer parecença ou semelhança minimamente significativa que nos alerte para a possibilidade de poderem vir a ser terroristas. É aqui que reside a solução. Não há outro caminho. Não há outro modo de pensá-lo. Ide e mataio-os todos.”


Restará perguntar em que podem dar os dois “pensamento únicos” caricaturados por projecção no espelho (por mim e pelo MC) e que, afinal, não passam de arremessos convenientes (inevitavelmente demagógicos) de tentativa de anulação de discursos que, se comungam na vontade de esconjurar medos, logo se perdem nos atalhos da procura de culpados reduzidos a esqueletos armazenados dos tempos dos velhos resssentimentos que teimam na vacuidade da basófia de serem eternos.

Pela minha parte, direi que, se acredito que a barbárie de Bin Laden nos afronta no que as nossas sociedades têm de melhor (a laicidade da separação entre Estado e Religião, direitos humanos e de possibilidade de tendência para mais igualdade, escolha dos modos de nos organizarmos, liberdade de expressão do pensamento, o princípio “um homem, um voto” nos processos de escolha e de governo), a violência da sua agressão suscitou-nos, como resposta, trazermos à superfície o que temos de pior (a oportunidade de bramir preconceitos e desforrar ressentimentos, o reflexo securitário do recurso mais rápido a disparar que a pensar, estarmos mais disponíveis para agredir que para unir e substituir por facadas as bandeiras esfarrapadas levadas pelos ventos ideológicos, dificuldades em vivermos com o terror pela preguiça de demasiadas décadas em que o ladeámos à sombra do “equilíbrio da guerra fria”). E, neste aspecto, reconheço que Bin Laden conseguiu uma primeira vitória parcial. Se lhe dou este “benefício de mérito”, não desistirei de tentar contribuir para que que ele não ganhe a guerra, ou seja, que não consiga destruir-nos no que temos de melhor. Para isso, primeiro que tudo, temos de resolver rapidamente os nossos problemas de surdez e a primeira condição para esta prevenção de otorrino-política, é limpar ouvidos através do decantar dos ressentimentos, impedindo que eles entupam de cristais a nossa liberdade de pensar. Finalmente, relativamente àqueles que colocam a tónica na “compreensão do fanatismo terrorista”, eu chamo a atenção que talvez sim (e, por favor, não me venham com a história da “contradição” por manifestar posição diferente de há uns tempos atrás porque sou um cidadão vulgar que vai aprendendo enquanto pensa e não tem a suprema ambição de “viver e morrer com a coerência à Cunhal”) mas antes limpemos o nosso olhar, olhando-nos melhor. Talvez seja vaidade excessiva considerar que as minhas conversas com o MC, aqui e no Puxa Palavra, foram exercícios de esgotamento de arquétipos e preconceitos que nos embaraçam o pensar este fenómeno terrível que nos caíu em cima e para o qual, manifestamente, as velhas armas cognitivas e ideológicas se mostram obsoletas. Se foi assim, ao prazer do costume de conversar com o meu estimado amigo Manuel Correia, juntem-se alguns juros de benefício pela evidência do ridículo dos exageros no amor aos estereótipos.
Publicado por João Tunes às 17:54
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2 comentários:
De Joo a 29 de Julho de 2005
MC, quem sou eu para não respeitar o teu timing e-reflexivo. Não tenhas problemas, até porque vou de férias. Quanto aos "erros de palmatória" cadê eles? (este antigo aluno da Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva não vislumbra um para amostra) É que tenho, como princípio pedagógico, que o erro e a sua demonstração discutida, ao contrário de activar um inútil sentimento de vergonha, é a melhor fonte de se melhorar e andar em frente. Abraço amigo.
De Manuel Correia a 29 de Julho de 2005
João Tunes, os textos talentosos levam-me frequentemente a um silêncio reflexivo. Por isso perdoa-me por, para já, não acrescentar mais nada quanto às substâncias. Aproveito apenas para te dar os parabéns pelos dois excelentes textos (o deste poste e o outro sobre o IRA. (Quanto à minha brincadeira acerca dos estereótipos, fiquei um bocado envergonhado, porque, à pressa deixei passar três erros de palmatória. Não havia necessidade...).
Boas férias e melhor regresso. Um abraço

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