Quarta-feira, 31 de Agosto de 2005

A PERSISTÊNCIA DO EXPEDIENTE KRUTCHOV (5)

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Desde Krutchov, de cada vez que a degenerescência no Partido, no Estado e na Sociedade bloqueava qualquer hipótese de saída (no PCUS ou em qualquer PC), passou a usar-se a fórmula, apresentada como mágica e de efeito instantâneo, do “regresso ao leninismo”. O que significava, grosso modo, que se afastavam as perversões e os entorses por via da purificação e se voltava, como tábua de salvação, à pureza original dos bons princípios revolucionários e políticos praticados e ensinados por Lenine, lembrado-o na sua condição de Pai e Guia impoluto, sábio e infalível da Revolução Mundial. Em termos de praxis, se o “estalinismo” tinha sido e era (em termos abstratos) a “arca das doenças partidárias”, desempenhando o papel útil de instrumento exorcista, o “leninismo” era a poção mágica que dava pureza, eficácia e a salvação de todos os males e maus pensamentos.

Com o andar dos tempos, reposta a obrigação do referencial ao leninismo, a fórmula “evoluiu” (na prática, regrediu) para a expressão aparentemente mais abrangente do marxismo-leninismo (com hífen obrigatório no meio e que tinha sido uma titulação ideológica paradoxalmente criada e usada por Estaline). Significando, por um lado, que a sabedoria de inspiração se bebia na trindade Marx-Engels-Lenine (enxotando-se assim da galeria dos Guias, a referência incómoda a Estaline e aos desvios malsãos de Mao). Ainda, pela soldadura entre Marx e Lenine, como a teorização sobre o Partido “de novo tipo” se devera a Lenine, como também era um perigo intelectual e político, em termos de possibilidade de desvio ou de devaneio filosófico-ideológico, o “demasiado” estudo da obra de Marx (sobretudo algum Marx), o melhor era ficar-se pelos ensinamentos (teóricos e práticos) de Lenine passíveis de selecção, resumo e adaptação numa vulgata “bem feita” e que desse a receita certa para o momento certo segundo as conveniências certas. Explicava-se também que “o leninismo é o marxismo dos nossos dias”, ou seja, que Lenine, tendo aprendido tudo o que Marx ensinou e traduzido a redenção proletária na época do imperialismo, com os galões da eficácia dos vencedores da Revolução de Outubro, bastavam a inspiração de Lenine lida nos seus tradutores, invocadores e aplicadores da ocasião. Em sinalética sacramental lá estava (e está) a múmia do Mestre e Profeta a garantir presença e eternidade no Santuário para toda a (então) fonte de inspiração incensada e mítica (Praça Vermelha, Moscovo, URSS). E a força simbólica dessa localização atractiva, de onde imanavam as “ideias justas”, era muito mais importante que qualquer veleidade conceptual sobre a renovação partidária. De ali vinha “o Sol que iluminava a Terra” e tanto bastava porque definitivo como dogma maior entre todos os dogmas.

No fundo, o chamado “retorno ao leninismo” nunca foi mais que um estado de alma ou, quando muito, um sobressalto de alma. Em termos político-partidários e ideológicos, descontando o élan do efeito de propaganda pela “injecção de uma nova energia no regresso imaginário às origens dos bons velhos tempos”, nada foi, nem podia ser, novo ou diferente. Porque, diferindo do consulado de Lenine no tempo, nas condições e nas circunstâncias, o estalinismo foi apenas a expressão do apodrecimento do leninismo, mas, afinal e “tout court”, um leninismo pós-Lenine acrescentado da marca da direcção absoluta e patológica de Estaline. Tendo em conta as experiências práticas dos “regressos a Lenine” que se verificaram, o estalinismo não só perdurou (e perdura) como marca da prática comunista herdada da concepção de Partido formulada e praticada por Lenine (quando muito radicalizada pelo voluntarismo sem escrúpulos de Estaline) como se travestiu de “leninismo” ou de “marxismo-leninismo” como meio de desculpabilização dos excessos sádicos e criminosos da prática de mando de Estaline que, a menos que se assumisse claramente como programa de extermínio de todo o povo soviético (estigmatizando-o como inimigo total do socialismo e do comunismo), se tinha esgotado nos seus excessos demenciais. Ou seja, acrescentou-se uma limpeza da fachada, das caves e do sótão ao prédio sórdido e em ruínas.

A marca da prática comunista, em que é perene a obra de fundição e reificação operadas pelo mando de Estaline sobre o PCUS, a URSS e o Movimento Comunista Internacional, bebe, como sempre bebeu, em Lenine. E tanto o estalinismo é um prolongamento do leninismo que a melhor prova disso mesmo é que não há neo-estalinista que não se importe acolher-se a um qualquer “retorno ao leninismo” ou ao regaço do “marxismo-leninismo”, dispensando o fardo de justificar Estaline. Porque as contradições práticas que podemos encontrar entre Lenine e Estaline estão no tempo e nas circunstâncias. E só o facto de as circunstâncias (e talvez do grau de sadismo no prazer em beber sangue de outros) terem sido extraordinariamente diferentes é que fornece esse manancial imaginário de “pureza leninista”.

A formulação foi construída e deixada por Lenine – um Partido construído à imagem do Exército; assente num corpo de revolucionários profissionais; com uma disciplina hierarquizada, implacável e, se necessário, cruel; com uma moral pautada exclusivamente pela supremacia absoluta e recorrente em todos os domínios, dos “interesses do Partido”; omnisciente e omnipotente; disponível para o poder absoluto e a eliminação absoluta dos adversários; usando o proletariado como tropa de choque e de combate; exercendo o despotismo iluminado em nome, e em vez, da classe operária e dos seus circunstanciais aliados; dotado de uma estratégia rígida e uma táctica flexível; comandada por um Estado Maior obrigado à fidelidade absoluta ao seu Generalíssimo. A fórmula para o mando partidário – centralismo democrático. A fórmula para o poder sobre a sociedade e a sua transformação – ditadura do proletariado. Quanto ao rumo desta arquitectura partidária preparada para a tenacidade sem tréguas na luta de classes em que a vitória comunista seria no seu culminar, teoricamente, a sociedade sem classes e o fim do Estado, dependia das circunstâncias e da resistência do “inimigo”. Com Lenine, o tempo e a circunstância impôs não o fim do Estado mas o seu reforço; o terror e o “comunismo de guerra” para consolidar o novo poder e liquidar as “classes erradas” e as manifestações de “contra-revolução” (entendida como aplicável aos divergentes daquela forma de revolução, mesmo que companheiros ou aliados de véspera – mencheviques, sociais-revolucionários, anarquistas); a implantação de um regime totalitário sob direcção de um Partido Único; a fusão do Partido com o Estado; a exportação da revolução para todo o mundo mas com concentração do seu centro irradiador e condutor em Moscovo.

O que fez, via Partido, Estaline diferente de Lenine? No essencial: ritualizou a absolutização formal do poder antes inquestionado de Lenine; praticou com artes de mestre os jogos e arranjos fraccionários até obter o poder absoluto; transportou a “luta de classes” para dentro do Partido; cometeu à polícia (transformada em força de liquidação autónoma do Partido e subordinada à obediência exclusiva ao Líder Absoluto) exercer o terror sobre quem antes sobrara vivo do terror praticado por Lenine (chegando a vez a comunistas, camponeses, populações suspeitas de apetências nacionalistas ou regionalistas); renovando o Partido (pelas purgas) com a ascensão de uma nova camada de burocratas brutalizados e brutais que sabiam que a pele se salvava com a obediência; dispensando o trabalho e a direcção colectiva; transformando o Partido num local de rituais de obediência e de culto para com o Chefe. Foi, de facto, muito e pior (sobretudo, se pensarmos nas vítimas). Mas o certo é que Lenine legou a Estaline (herança contrariada, mas herança) um Estado, uma Sociedade e um Partido sem soluções fora da brutalidade e do terror. Se o estilo marcou a obra de Estaline e foi diferente relativamente ao comando de Lenine, as circunstâncias não contribuiram menos para isso.

Esgotadas (ou alteradas) as circunstâncias, os constrangimentos e as resistências (os “anti-corpos” pretextando a brutalidade à Estaline), o que custava e custa, para qualquer estalinista dos sete costados, limpar a lama e o sangue do casaco e repurificar-se com a fardeta nova de leninista ou de marxista-leninista? Porque a obra, a essência da obra, foi e é a mesma. No fundo, uma evidência comprovadamente difícil de aprender por qualquer iludido como podendo “renovar a obra” – ir além da sacudidela da poeira mata a “obra” (matar mesmo matado Estaline, dá cabo de Lenine, o Partido morre e outra coisa qualquer – não comunista – nasce no seu lugar). No caso de Krutchov, tiraram-lhe a mão da massa a tempo; Gorbatchov nunca terá entendido bem o que andou a fazer fardado de pasteleiro; Cunhal (à distância e sem o ónus do exercíco do poder) nunca se enganou.
Publicado por João Tunes às 16:51
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