Sexta-feira, 26 de Agosto de 2005

NINO versus CABRAL

nino.JPG

Se a democracia fosse um regime de garantia das boas escolhas, perdia a graça e ia á falência do interesse. Porque se tornava chata devido ao enfado do pré-determinado. Assim, quem ganha festeja e quem perde tenta para a próxima. E se a maioria dá o voto naquele que a minoria julga ser o pior candidato, ainda resta a mobilização extra da raiva do desconsolo.Abençoada democracia que não permite que a escolha de todos seja a escolha de cada qual.

Pense-se o que se pensar sobre Nino Vieira, o certo é que temos de viver com o facto de que ele é o (de) novo Presidente da Guiné-Bissau. E é legítimo porque foi legitimado. E não adianta tossir.

Claro que houve coisas estranhas, sobretudo na política de alianças, no meter de bico de países limítrofes, numas malas cheias de euros mandados por empresários amigos e mais umas quantas suspeições deste ou daquele procedimento eleitoral. Mas, feito o balanço, consideradas as partes e averiguadas as queixas, Nino foi considerado vencedor e agora só há que seguir-lhe o mandato para ver como se comporta no regresso ao Palácio que ele tão bem conhece. E respeitá-lo na sua readquirida dignidade de Supremo Líder dos guinéos e confiando que não vá repetir asneiras passadas.

Cumprido o acto de culto para com as formalidades, sobra o interesse pelo paradoxo de Nino Vieira ter ganho a Presidência contra o PAIGC (Partido que prolonga a aberração de manter o “C” de Cabo Verde na sigla). Ou antes, contra o candidato proposto pelo PAIGC (o que, talvez, não seja a mesma coisa).

Sabe-se que Nino foi o mais notável General (entre os “pretos da Guiné” que lutaram pelo PAIGC) na luta de guerrilha. Conseguiu até, durante a luta de libertação, adquirir uma áurea tal que o transformou numa figura lendária entre a guerrilha que fez gato sapato da tropa portuguesa. Eu próprio, passados tantos anos, ainda arrasto a sombra do nervoso miudinho quando, uma vez por outra, a noite cai e me alucino a imaginar o regresso das chuvas de morteirada com que ele nos costumava mimosear no Sul da Guiné, encafuados no quartel cercado e ele nas suas mandanças de comandante da Frente Sul (também chamada, então, de “Reino do Nino”). E, passado o medo e despida a farda, ficou-me o respeito pelo combatente de talento. De talento e ganhador, porque com ou ou sem 25 Abril, o PAIGC ganhou (e ganhava) aquela guerra.

Um exagero a comparação que chegaram a fazer entre Nino e Giap. Mais coisa de propaganda deles e de valorização da oficialada do exército colonial a quem convinha agigantar o inimigo para contabilizar o heroísmo da resistência e da contra-ofensiva. Apesar de tudo, e tanto foi, a Guiné não foi o Vietname e, comparativamente, os contendores foram uma escala pequena num rectângulo pequeno. Mas não é isso que, no meu ver, diminui os méritos guerrilheiros de Nino. Ele deu provas no terreno e nas circunstâncias em que combateu e que chegou e sobrou para todas as nossas “Torre e Espada” que bem procuraram deitar-lhe mão.

Como se sabe, o PAIGC transportava consigo uma contradição insanável. E tanto que devia moderar a tendência para mitificar a pretensa genialidade de Amílcar Cabral (com enormes e diversos méritos mas com o senão gigante de ter criado, através do PAIGC, uma impossibilidade de realizar a vitória pretendida pois teimou em impôr dogmaticamente uma abstração intelectual ao conceber a unidade Guiné-Cabo Verde e que deu no que sabemos). Provavelmente, o génio de Amilcar Cabral foi obliterado pela sua condição de mestiço com raízes caboverdianas, acreditando que a ideologia seria capaz de lhe resolver os acasos de nascimento, projectando numa utopia os seus complexos sobre as suas raízes genéticas e de solo e lançando populações na sua concretização inviável. E, na prática, o PAIGC não foi mais que uma elite de mestiços caboverdianos altamente politizados e letrados ou semi-letrados e superiormente dirigida pelo talento de Amílcar (incapazes de desencadearem a luta em Cabo Verde, sequer de mobilizarem a maioria da sua poulação – os pretos caboverdianos) que foram para a luta na Guiné usando como massa de combate os pretos da Guiné (sobretudo os balantas). Ou seja, uma simetria repetitiva do percurso político dos quadros mestiços caboverdianos escolarizados que enquadravam a administração e a burocracia coloniais na Guiné. E, entre os combatentes pretos da Guiné (curiosamente, os balantas não deram um General de destaque durante a luta), Nino (de etnia papel, a circundante de Bissau) destacou-se e foi o mais promovido, por mérito próprio, a um nível de prestígio e de decisão próxima dos quadros caboverdianos do PAIGC. No fundo, Nino foi, para Amílcar Cabral, o preto de talento e útil para disfarçar (dando “autenticidade” africana) às cores “demasiado” claras (pelo sangue europeu) da nata do comando guerrilheiro.

Está para averiguar desde quando Nino Vieira se apercebeu do papel instrumental que Amílcar e os restantes caboverdianos lhe atribuíam e que uso fez, mais ou menos melífulo, dessa percepção quando estalaram as cisões e a intriga foi montada pela Pide e pelo exército colonial e que, culminou, como sabemos no assassinato do líder do PAIGC. O certo é que, desaparecido Amílcar (Aristides e Luis Cabral nunca tiveram résteas do carisma do Chefe assassinado), obtida a independência, Nino deu o golpe que pôs termo definitivo à utopia guinéo-caboverdiana e assumiu-se como o Chefe Supremo dos combatentes pretos e deitou mãos às rédeas do poder. Poder que exerceu da forma que se sabe, foi interrompida de maneira igualmente conhecida, regressando agora, com a legitimidade do voto popular, ao cadeirão presidencial. Com a curiosidade extra de regressar ao poder máximo contra o PAIGC. Resta saber se vai continuar a existir PAIGC com Nino de fora (e com o estigma de adversário) ou se, de uma vez por todas, Nino cobra, com conta de absolutismo (reapoderando-se do PAIGC ou levando-o à inacção da inutilidade), o papel de destaque que, um dia, Amilcar Cabral necessitou de lhe atribuir para contrabalançar a mestiçagem do PAIGC, gerando esta dualidade decerto não imaginada por Amílcar – um PAIGC só guinéo e só de pretos ou o fim do PAIGC às mãos do seu mais destacado General por via do voto democrático. Num caso ou noutro, sem lugares de proeminência para mestiços mesmo que de pele escura como era o caso de Amílcar Cabral (se ele voltasse a ser jovem, bem teria de penar para ter alguma cabidela no PAIGC...). O que é a maior negação ao cantado talento genial de Amílcar Cabral que criou o PAIGC para enquadrar e levar à luta um grupo de mestiços caboverdianos politizados e anticolonialistas com uso de mão-de-obra da Guiné-Bissau, nunca contando que o pessoal corresse com os encarregados da obra.
Publicado por João Tunes às 17:39
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