Domingo, 20 de Março de 2005

OS JORNALINHOS DOS TRANSPORTES CANSADOS (1)

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O português tem fraquíssimo hábito de leitura. E quando lê, a maioria tende para o fácil, o imediato e o exposto. Normalmente, quando consome, consome o romântico que projecte sonhos adiados de ascensão social ou de fama, o escabroso que desventre as misérias do mundo e a fotografia dos sucessos e insucessos fáceis ou fatais. Tudo o que não exija fazer-se fazendo e se sinta menos sujo que os piores já que não pode ter a posição dos sentados na boa vida. É a via da mediocridade que nos alimenta a resignação. E o problema dos portugueses não é serem medíocres, é serem resignados na espera de outros dias.

Dirão que, neste quadro, pouco é melhor que nada. Depende do pouco, comento. Ou seja, se leva ao muito ou ao nada.

O transporte público, ainda hoje, é ritual de sofrimento. Uma correria dura que leva cansaço para o emprego e traz raiva suada de volta a casa.

Juntando estes dois pólos - a preguiça no ler e o cansaço no ir e vir - foi encontrado um mercado de leitura, a que se juntou o gosto comum pelo desconto ou pelo brinde. O metro e o destak são jornalinhos “oferecidos” em que se servem as gordas em mistura com os anúncios de sustento da empreitada. Sem o mínimo esforço de desvio da peregrinação para o ganha-pão. São feitos a pensar exactamente no leitor típico – não paga nada, lê depressa, dispensa pensar, interpretar ou ajuizar. Dá-se uma vista de olhos, larga-se quando se chega à paragem. Jornalinhos bem à portuguesa, pois. Espertos, estes tipos.
Publicado por João Tunes às 16:10
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7 comentários:
De Joo a 4 de Abril de 2005 às 16:09
Uns tempos de ausência do país, levam-me a responder tarde e a más horas ao Marujo. Mas, mais vale tarde que nunca. Já agora, só para dizer que, por muito que ele tente, não me arrasta para a desonestidade intelectual própria do debate hooligan - aquele em que até se dá a navalhada de atribuímos a outros o vício simétrico da nossa virtude (exemplo: admitir que "o outro" comenta sobre algo que não leu). Ou seja, que é um parvo patareco e um exibicionista armado aos cucos. Saúde.
De Marujo a 23 de Março de 2005 às 17:08
Foi uma pessoa livre que escreveu. Não recebi mandato de ninguém - uma pessoa que, crítica e livremente trabalha, para todos os dias melhorar o que faz. E susceptível não sou, daí ter tentado abrir outra possível leitura para o debate. Não o queria tornar leitor. As deformações caricaturais são próprias de um debate, na blogosfera se quiser, ou em qualquer espaço de tertúlia: visam a ironia, nunca a excelência redactorial do Metro. Essa, meu caro, atestam-no os muitos comentários positivos de leitores "cansados" (que incluem muitos jornalistas de jornais de referência, que nos fazem chegar avaliações positivas).
Do essencial do que escrevi, ficou por responder...
PS - Já agora, alguma vez leu o "Metro"?
De Joo a 21 de Março de 2005 às 23:32
Caro Marujo, claro que não discuto o seu direito ao "ganha-pão" nem a sua identificação com o seu patrão. Seria um "debate" desigual - eu em opinião solta e livre e vc a defender o posto de trabalho. Tanto, que eu não o impulsionaria em situação inversa. Por honestidades intelectual. Com o devido respeito, e o desejo de sucesso profissional, mantenho a minha opinião e não comento as deformações caricaturadas que fez sobre o meu texto (o que, diga-se de passagem, não é bom augúrio sobre a excelência redactorial do "metro"). E uma pessoa susceptibilizada é a última que desejamos ter pela frente num debate entre pessoas livres. Boa sorte.
De Marujo a 21 de Março de 2005 às 21:50
O Metro é um jornal de origem sueca. Espalhado por 63 cidades de todo o mundo - incluindo Nova Iorque, Paris, Copenhaga, Helsínquia... e tantas outras cidades de "chicos-espertos".
É um jornal feito à medida dos seus leitores - e do seu tempo de viagem? Pois é. Para despertar novos e eventuais leitores para outras publicações, onde se explique, contextualize, analise a realidade. Ou para simplesmente dar outra leitura (breve, curta, claro) da realidade, que não se limite à "info-televisiva" ou a nada. Ou preferimos que os passageiros dos transportes cansados não leiam sequer uma linha "cansada" e "esperta"?

Declaração de interesses: sou jornalista do Metro.
(As suas edições - nacional e internacionais - estão disponíveis em www.metropoint.com)
De Joo a 21 de Março de 2005 às 15:48
É esta a nossa triste condição - ou somos espertos ou standard... (com talento, até somos metade de cada coisa e, então, vivemos mortos de felicidade)
De IO a 20 de Março de 2005 às 23:21
Pois, olha, que até acho que estou muito mais 'standard' desde que o preço do passe inclui o 'destak'..... que leio sentada no comboio, Tejo ao fundo, enquanto as gordas do 'Público' são lidas no autocarro _ onde só não há lugar para os carneiros que se amontoam em volta do motorista. Antes de haver o paskim, não imaginas o mal que os meus colegas pensavam de mim... é que não havia nada em comum entre as notícias do meu jornal e as 'fofocas' e 'crimes' deles...
De Pedro Santos a 20 de Março de 2005 às 22:52
Não dizem que o mundo é dos espertos? :-)

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