Sábado, 19 de Março de 2005

ALENTEJO: AGORA A SECA DOS APARETCHICKS

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Com o tempo, com a normalidade da duplicidade, vem o reverso da face da simpatia à Jerónimo que tanta e tão boa gente impressionou na última campanha eleitoral.

O Alentejo vale o quê? Secando o património de lutas antigas e irmãs, mais a utopia da gesta criativa a semear kolkozes e sovkoses no sul deserdado onde o diabo meteu tesos de espinha direita e malteses (sempre ou às vezes) a amassar pão com a fome espancada, o Alentejo vale o quê para os aparetchick da aliança operária-camponesa? Ali, onde até a bela Catarina Eufémia (uma Gioconda de foice numa mão e luta na outra, cabelos libertários a levantar searas pisadas e que me inspirou a dar o nome mais bonito, porque então mais honrado, à minha filha mais velha) se esbate em traços perdidos no tempo, mais difusa no cheiro da campina que a viu nascer e morrer. E agora que os Carrajolas do banquete neo-liberal têm outros modos de levar a sua à certa e hoje, em vez de metralha, compram montes e se põem a a ofender o Alentejo com hedonismos de posses em fins-de-semana ou férias curtas.

Se o Alentejo valia lutas, hoje vale votos. É assim o tempo do charme populista-eleitoralista até que a luta dispense urnas com papéis em que os esclarecidos se misturam com os de mau uso da cruz no sítio certo. Porque, da ditadura do proletariado (a Fátima bolchevique), só resta a encomenda às alminhas até que os terços rezados pelos bons devotos leve às vanguardas que tragam um sorriso à velhice de Cunhal. Das lutas, sobrou cansaço e desesperança e ficou uma memória de honra. Quanto a votos, sobram poucos, porque alentejanos são cada vez menos. São mais os homens-chaparros (desculpem, mas eu vejo em cada alentejano direito uma árvore de direitos) que apostam em mudar as raízes que os que se agarram ao chão padrasto no arrasto de um cantar com a barriga encostada a um balcão onde rola o vinho do esquecimento e da inspiração. E nos que restam, além dos que vivem na esquizofrenia da memória honrada, cada vez mais tentam abrir os olhos para verem além do horizonte estreito dos aparetchick. É o bem da planície, a força de ver longe.

Não admira, pois, que os aparetchik estimem tão pouco os alentejanos. Se já não dão lutas e poucos votos lhes restam, servem para quê? Para mais, alentejano é bicho-homem habituado a pensar e falar. O tempo que ali roda devagarinho, com a planície a convidar olhar longe, leva o alentejano a pensar e a repensar. Quando não labuta ou canta, não se pendura num baraço preso a um chaparro para abreviar finalmentes adiados, não desfia conversas sem termo à sombra do sol teimoso ou com os lábios húmidos de sangue generoso saído da terra e transportado em copos de vidro grosso, o alentejano pensa e repensa. Porque, quando se cala, um alentejano é um pensador subversivo de todas as ordens. Esta forma de estar, se era perigosa para a velha ordem, também travessa é para aqueles que se convenceram que eram seus donos em ideologia. Sobretudo para aqueles que pensaram, em arroto de donos do mundo, imitando os mandraços latifundiários, que os alentejanos eram gente de prender de arreata e levar de cabresto para depositar o voto.

Os aparetchick, em vez de interpretarem os sinais das mudanças de voto no Alentejo, teimam em obrigá-los a voltarem a votar bem. A imagem mítica do Alentejo casado com o PCP vale mais que qualquer sinal ou evidência de resultado. Uma teimosia é sempre teimosa. E às ovelhas negras dá-se-lhes com spray, pensam eles, e voltam a ficar como novas. No fundo, são Passanhas à bolchevique, nada a fazer.

A razia nos autarcas alentejanos da CDU, comunistas mal-amados entre comunistas (terrível sarna essa, embora com a sorte de os gulags não terem encontrado tempo de sementeira adubada por aqui), folhas secas em tempo de seca, julgados e condenados pela Suprema Direcção, não pelo trabalho autárquico como se supunha dever ser suprema prestação de contas de autarca, ou pelo que fizeram pelo Alentejo e pelos alentejanos como devia ser juízo sobre representante alentejano, mas pelo mesquinho critério sobre a fidelidade perante o altar da fracção dirigente, está aí para demonstrar a outra face do charme à Jerónimo e que é, singela e fatela, a brutalidade monolítica dos aparetchik, sempre em pânico com a nota dissonante que lhes desarranje a ossana.

Estes gajos estão malucos. Querem tirar o pensar aos alentejanos. Se a um alentejano lhe tirarem o pensar, para que lhes serve a água que lhes falta e o copo de tinto que lhe apalada o cantar e lhe aprofunda o olhar sobre a planície?
Publicado por João Tunes às 18:11
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