Quarta-feira, 27 de Abril de 2005

SOBRE CAUSA E EFEITO (2)

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O meu post “Sobre Causa e Efeito (1) “ mereceu dois comentários que me acicataram a desenvolver a tese que ali perfilhei. A eles respondi na “caixa de comentários”. Resolvi trazer esses diálogos para a página da frente, na esperança de que o tema recolha novos contributos.

1 – Mascando Chuinga:

A Isabella que, além de alimentar o seu excelente blogue, é nossa visitante atenta, recordou: “uma frase, de então, do Presidente Samora Machel: "A guerra colonial foi a universidade dos capitães de Abril".
Deixei-lhe esta réplica:

”Quanto à frase citada de Machel, não sei não, embora lhe entenda o sentido político-propagandístico que é de bom efeito. Para os "capitães de Abril", a guerra colonial, mais que "universidade" (considerando que universidade é sítio próprio para evitar a estupidez, quando vemos tanto académico estúpido...), não terá sido antes o acumular acima do limite do medo da morgue e do pânico dos perdedores? (é que, convém não esquecer, os militares antifascistas e anti-colonialistas precisaram, modo geral, da terceira comissão para serem antifascistas e anti-colonialistas, antes disso até vestiram o patriotismo da missão). E, curiosamente, mas dando que pensar, a consciência mais desesperada (e mais consequente e impaciente, pois então) entre os militares profissionais do exército colonial, depois MFA, eram (por acaso?) os que estavam na Guiné e em Moçambique (onde estavam as castanhas mais quentes). E menos, muito menos, em Angola, em Cabo Verde, em Timor e em Macau. Para não falar nos sítios onde não houve guerra, porque é que Angola foi "menos universidade" que a Guiné e Moçambique? E, nestas "duas universidades" porque é que a Guiné deu mais "mestrados" e "doutoramentos"?

2 – Estudando pela Sebenta:

A th, outra animadora dos comentários neste blogue e dona do seu excelente poder de escrita, “provocou”: “Vocês não andarão à procura da resposta para a velha questão: "quem apareceu primeiro...a galinha ou o ovo?". Certo, certo, uns dirão que foi a galinha, outros o ovo...quanto a mim em algum lugar apareceu um, noutro lugar apareceu o outro...mas que deu uma bela "refeição"...lá isso deu, com algumas "indigestões pelo meio, como era de esperar, que o fim de uma boa refeição nem sempre é bem conseguido!",
ao que argumentei:

”Quanto ao que diz da "refeição", cara th, concordo inteiramente. Quanto à questão de fundo, tenho opinião (sujeita a aferição) diferente da sua. Não me parece nada a questão da "galinha" e do "ovo". Isto é, se a guerra colonial não fosse travada pelos movimentos de libertação da forma como foi (na Guiné e em Moçambique, com sucesso estratégico, de mobilização e com resultados militares palpáveis), de certeza que o fascismo duraria bastante mais e as forças armadas não teriam um papel central e talvez até alinhassem ao lado do regime. Era limitada a capacidade da resistência antifascista para fazer face ao fascismo luso (com poderosos aliados internacionais, no contexto da guerra fria). Até internamente, a mobilização antifascista conseguida (mas insuficiente para derrubar o regime) deveu muito ao medo e recusa de sectores da juventude perante a guerra colonial. E como Salazar morreu quando a morte o visitou depois do acidente da cadeira, talvez Marcelo tivesse morrido doente e na cama ou passado a pasta a um "Adolfo Suarez à portuguesa" . Como Franco em Espanha e que encontrou ainda formas (através do Rei, e não só) de o franquismo passar tranquilo através da "transição", evitando roturas revolucionárias. Aqui, a rotura não só foi revolucionária e antecipada à capacidade popular de libertar o País do fascismo, porque as FA entraram em força no processo de rotura e isso porque os oficiais não suportavam mais a guerra colonial onde ela fazia mais mossa. Pensando nisto, não posso deixar de concluir que o factor determinante para o 25A foi a guerra colonial, pelo impacto da luta anti-colonial onde ela foi mais eficaz (na altura: Guiné e Moçambique). Entretanto, julgo que o anti-fascismo "metropolitano" (embora tenha ajudado o movimento anti-colonial), "civil" se perdoar a força de expressão, não teve e não tinha capacidade para impor uma solução ao problema colonial. Assim, julgo que é justo reconhecer que devemos aos movimentos de libertação anti-colonial (designadamente ao PAIGC e à Frelimo) terem desgastado de tal forma as Forças Armadas que as empurraram para o antifascismo e para a Revolução. O seu a seu dono.”

A procissão vai no adro. Recolhe já à capela das inutilidades redundantes ou tem ruas para andar? Quem quiser, que se chegue. Escuto.
Publicado por João Tunes às 22:29
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