Terça-feira, 6 de Junho de 2006

UMA LEI ANTILIBERAL

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Como fumador confesso, reconheço todos os direitos a quem não quer fumar o meu fumo. Gostaria que, pagando-me na mesma moeda, os não fumadores me deixassem em paz com o meu vício desde que não os incomode. Mas, importado da pátria do comércio e do marketing dos cigarros, veio um fundamentalismo histérico (à semelhança dos “anti-touradas”) que, carente de causas, mais atreitos às modas e ao folclore, fazem da investida sanitária antitabágica uma via de cruzada de purificação social e de apuramento da raça.

 

A “solução espanhola” sempre me pareceu a mais sensata e a mais respeitadora das opções, as dos que fumam e a dos que não querem suportar fumo. Em Espanha, os restaurantes, bares e cafés, optam por dar ao seu estabelecimento a norma de “permitido fumar” ou a de “proibido fumar”. Como tal, o estabelecimento é registado e é obrigatória a afixação bem visível na porta de entrada sobre a opção tomada e qualquer cliente, se quiser entrar, sabe antecipadamente ao que vai.

 

Pelo lido, a “modalidade espanhola” não foi aceite como inspiradora da legislação portuguesa. Porquê? Ora, pela aversão à livre concorrência. Porque é previsível, como acontece em Espanha, que há muito mais captação de clientela se permitir-se fumar que se houver proibição. Arrasando as opções, recorre-se, pois, ao proibicionismo, nivelando o mercado por via administrativa. Mas temente aos receios dos comerciantes, retirou-se a penalização antes prevista para os donos dos estabelecimentos onde haja fumo de cigarro (os fumos das fritadeiras e das gorduras animais continuam livres, pois serão benéficas à saúde pública!), optando-se pela multa directa ao fumador. Pelo que teremos a “caça ao fumador”, pela multa e pela denúncia. O que lembra, os tempos do salazarismo, os dos “fiscais de isqueiros” que interpelavam e multavam os utilizadores de isqueiro sem licença tirada para o efeito (medida destinada a proteger os interesses das fosforeiras) e que alimentava com uns cobres suplementares uma legião de “pequenos bufos-polícias”, assim ficando gratos ao regime e ao seu Chefe.

 

Publicado por João Tunes às 23:47
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3 comentários:
De ana a 7 de Junho de 2006
A pretexto, talvez fora de contexto, há um ano que deixei de fumar e tenho, nesta matéria de "fundamentalismo anti-tabágico", uma postura absolutamente vergonhosa e promíscua, de que aqui faço confissão (vergonha minha). Isto, na esperança de que me hei-de curar, também disto. Quando alguém fumador, por perto de mim, deita fora a sua baforada de fumo, como quem não quer a coisa, vou-me chegando, assim com ar de distraída, a ver se ainda "agarro" um bocadinho daquele fumo...
E, acreditem ou não, ainda me dá um certo gozo, muito pecaminoso, já se sabe...
Há-de passar.
Quanto às medidas a implementar, só há uma recomendação: haja bom senso e tudo vai correr de feição!
De Maria Papoila a 7 de Junho de 2006
A verdade é que só um empresário de hotelaria muito tótó é que declararia por sua livre vontade o seu negócio como impróprio para fumadores! Mas olhe, há dias estive mais de uma hora à espera da mala no aeroporto de Madrid. Ali perto não havia área de fumadores e depois de meia hora de espera, os franceses que vinham no voo começaram a fumar, depois os portugueses e os espanhóis, os italianos... Os altifalantes do aeroporto bem que repetiam que não se podia fumar, mas nenhum funcionário nos chamou à atenção, nem mesmo os polícias que estavam ali ao lado. Portugal quer dar o exemplo e por simples cidadão fundamentalistas a fiscalizar os desgraçados dos viciados. Da próxima vez que vir um tipo a enrolar um charro na minha rua, chamo a polícia. será que o multam?
De artur correa a 13 de Junho de 2006
Era tão bom que cada um pudesse escolher o que quer. Até agora os não-fumadores (em Portugal) não têm tido escolha. É engolirem o fumo dos outros ou não irem a restaurantes. Quanto aos locais de trabalho a situação é mais séria.
Fala-se tanto em remédios para deixar de fumar (não se fala em "olha ! comecei a fumar! ai sim? que bom!)- isto quererá dizer alguma coisa. A mim até ao ar livre o fumo incomoda , mas luto contra isso com a minha maneira defensiva de respiração. Quem me dera de ter dinheiro para abrir um restaurante! Mostrava a todos os que têm estes estabelecimentos que estão altamente errados se proibirem fumar. Até lá só posso dar a minha ajuda nesta divulgação: http://no-smokezone.planetaclix.pt

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