Terça-feira, 19 de Outubro de 2004

UM ENCONTRO

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Foi meu colega de empresa durante anos e anos. Engenheiro de máquinas, homem sensível e dado às artes, bailarino nos tempos livres, curioso das coisas da vida, hesitante nas acções e nas decisões, mas radical nas tomadas de posição. Afável e gentil, se a conversa metia política vinha ao de cima uma firmeza dura e definitiva que casava com os seus amores ideológicos por Estaline, Mao, Hoxa e Francisco Martins Rodrigues. Passada essa nuvem, voltava o brilho de homem carente de ternura, com ar de desprotegido, incapaz e inconsequente em militâncias que metessem lutas que tivessem curvas a mais para a sua paciência e disponibilidade. Homem bom, a quem muito estimei. Apesar dos nós duros com que ele se protegia para não desatar o quer que fosse. Tive, para com ele, paciência de o ouvir, coisa que rareava na maior parte, o que dava o privilégio da sua procura, assim que queria desabafar (descarregar) as suas contradições e hesitações.

Saiu da empresa há muito. Não voltei a encontrá-lo até ontem. Porque a empresa é demasiado grande para que alguém que dela saia deixe saudade nos que ficam. Até porque tantos foram os que saíram que, contrário fosse, a empresa ia falir por motivo das saudades ou das lembranças dos que a fizeram.

Ontem deambulava por uma dessas catedrais do consumo (a que pornograficamente chamam de Fórum), perdido em necessidades de aquisições prementes, tendo de me enfiar, por míngua de euros no bolso, numa fila do Multibanco. Especado na espera de vez, olho e vejo o meu amigo e antigo colega a deambular perdido naquele templo do capitalismo comercial. Larguei a fila do Multibanco e, dado o abraço da praxe, quis saber como andava ele. Mal, muito mal. Não de saúde que essa recomendava-se a olhos vistos. Mas de solidão e de desinteresses. Num profundo abandono de si. Pouco lê, pouco sabe, pouco quer saber. Tentei uma daquelas motivações de algibeira, tirada do catálogo dos afagos de circunstância. Não resultou, ele é contra os computadores e a Internet. Coisas imperialistas, despachou ele. Depois, resvalámos para a política. Aí, os olhos acenderam-se de repente, com um brilho de aço e de convicção. Que votava CDU, embora nunca lhes perdoasse a retirada da ditadura do proletariado do programa. Mas não tinha militância. Porque não perdoava aos antigos amigos da UDP aliarem-se a trotsquistas, esses traidores que sempre combatera. E que só cá fazia falta o grande Estaline que limpava o sebo a esta gajada vendida aos americanos mais aos traidores que renegaram o proletariado. Falei-lhe na malta nova, numa nova geração que não ia conseguir amar Estaline. Nem isso o demoveu, a malta nova estava toda viciada, não prestava. Ele queria mesmo era Estaline, só Estaline, para lhe fazer companhia no rancor da sua solidão. Lá lhe disse dos meus percursos e mudanças. Ele olhou-me duro, reprovador, escandalizado com a dimensão do meu reformismo, provavelmente com desejo de me enfiar num gulag se o tivesse ali à mão. Mas o aço do seu olhar durou segundos, depois veio um fio de ternura pelo prazer de nos vermos e eu, mais uma vez, o ouvir. Lembrou-me o homem bom que conhecera, agora metido no azedume de a vida o obrigar a transformar-se num velho bom, órfão de uma vontade férrea, mesmo que brutal, para compensar a fragilidade da sensibilidade do seu não estar na vida. Deixei-o, a lembrar-me de outros carentes de profetas que por aí vociferam. Não tão bons como este meu amigo reencontrado, quase de certeza. Porque a este, soube-me bem o abraço do encontro.
Publicado por João Tunes às 18:30
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2 comentários:
De Marco a 20 de Outubro de 2004
João,
Por vezes parece-me que a luta e o combate político assume proporções que acabam por desumanizar as pessoas. É como se tentassemos fazer uma sociedade de ouro com pessoas de chumbo. E vejo isso em todos os quadrantes políticos. Não sei se é o caso do teu amigo, mas lembrei-me logo de alguns comunistasque eu conheço.
De Prima a 19 de Outubro de 2004
Ao seu amigo resta-lhe a ilusão. Nada mau. Não há pior que a amargura de um comunista desiludido. Muito mais dolorosa que a perda de fé religiosa, a perda de fé nos homens.

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