Quarta-feira, 3 de Novembro de 2004

E AGORA?

lthumb.nyr10111032331.bush_time_magazine_nyr101[1].jpg

O desgosto para com a reeleição de Bush, percebo-a bem. Também é meu. Mas há que ter senso e fair-play democrático. O mundo não acabou, minhas senhoras e meus senhores. Agora, se o mundo da paz e do progresso se tornou mais frágil, ou continua frágil, com a reeleição de Bush, a solução não está em procurar bodes expiatórios mas sim em fortalecer as causas e as frentes de progresso. Exigindo o primado da democracia em todas as partes, sem lhes conferir critérios ideológicos ou de comunhão de causa. Combatendo as violações aos direitos humanos, lutando pela liberdade de expressão, expurgando os regimes em que não se governa sob a legitimidade do voto livremente expresso. Pondo-se termo a alianças, de facto ou tácitas, em que, explicitamente ou por omissão, se aceitam parcerias de causas ou se praticam silêncios de conivências, que mais não fazem que meter a serpente no campo democrático. Colocando a prática democrática como valor fundamental para merecer a concordância ou o silêncio (contrariado ou não). Uma prática que não está questionada nas eleições americanas. Pelo que, o resultado daquelas eleições, só por si, é mais saudável para o mundo que qualquer boa causa obtida fora da legitimidade do sufrágio.

A América foi atacada e sabemos que vai voltar a sê-lo. Tem o direito de se defender. Deve defender-se de acordo com as regras internacionalmente consagradas e instituídas. Submetendo-se à soberania da ONU, como qualquer outra nação. Devemos repudiar todo o abuso de força que a América use para se defender. Mas não pode questionar-se o direito americano ao uso de legítima defesa. Porque a América foi atacada e voltará a sê-lo.

Podemos não gostar da América, mas não podemos pedir-lhe que se vergue, desapareça ou, pior de tudo, que seja uma outra América que não a América que os americanos querem. Enquanto o poder na América tiver legitimidade democrática, a América só pode e só deve ser o que os americanos quiserem.

Julgo que a América se assustou com as serpentes que boa parte dos democratas europeus deixaram aninhar-se no seio do protesto anti-Bush. Porque essas serpentes, não visando só a América, têm a América como alvo principal. E, no mínimo também, foi indigno que se tratasse um regime democrático com um furor, uma acrimónia, um desprezo, como aquele com que, um pouco por toda a Europa, se tratou o Presidente dos Estados Unidos. E isso, tudo isso, ofendeu a maioria dos americanos. E, ofendidos, disseram que preferem Bush às frentes anti-americanas. Eu lamento mas entendo.

Um caso que me surpreendeu é a ira que se apoderou do estimado Causa Nossa, normalmente sereno e objectivo nas suas ponderadas análises e opiniões. Acho que ali esquentaram as cabeças com o desgosto e desataram a disparar na caça aos bodes expiatórios. Já referi a sanha contra os judeus americanos por parte do Luís Nazaré. Pois, parece que distribuíram, entre si, as frentes de culpabilização. VJS dispara contra a aliança Bush/Putin, caracterizando os regimes americano e russo como “derivas antidemocráticas legitimadas pelo voto popular” (donde se depreende que, com Kerry, é que a América voltava ao seio das democracias). Vital Moreira culpa a direita evangélica. Mas, meus senhores, aquilo foi apenas uma escolha. Pelo voto. Ou seja, a mesma forma que se a rifa desse Kerry estaríamos todos calmos, felizes e a fazer a festa. Agora, deixemo-nos de teorias conspirativas e vamos lá a ver se tornamos mais forte essa coisa da democracia. Tão forte que contenha a tendência de Bush abusar da força.
Publicado por João Tunes às 23:45
Link do post | Comentar

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO