Quinta-feira, 1 de Junho de 2006

MAIS BLASFÉMIA NO AI TIMOR

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Nem sempre, ou quase nunca, a política tem os ponteiros combinados com o relógio da história. Umas vezes, o que devia vir antes vem tarde, noutras, o que merecia esperar um pouco dá um trambolhão e cai cama abaixo. É assim. Não há determinismo que valha. Porque há ontens que cantam e amanhãs que preguiçam ou ficam afónicas.

 

A ditadura na Indonésia caiu passado pouco tempo do “problema Timor”. Talvez, até, as barbaridades indonésias em Timor tenham acelerado a degradação e queda da dinastia Shuarto. Foi assim. Mas o país Timor Leste existe por causa da ditadura na Indonésia. Mais por isso que pela nossa choradeira sentimental. Quando a ditadura indonésia caiu na carnificina, deu-se um entorse na pata sobre Timor e, em dominó (rebentando outras contradições), a ditadura tornou-se insustentável e o mundo foi surpreendido com o regresso da Indonésia à democracia. O paradoxo histórico destes encontros e desencontros é que do colapso da ditadura indonésia resultaram um grande país no reencontro com a democracia (Indonésia) e um país (se calhar) artificial, inviável e exótico (Timor Leste) que “sobrou” da ditadura caída. Estivesse o relógio da política acertado com o relógio da história e, provavelmente, teríamos hoje os timorenses a baterem-se, apenas e em sossego, como os catalães perante Madrid, por um estatuto autonómico condigno no quadro do Estado multi-étnico e multi-cultural da Indonésia. Em democracia, talvez consolidada.

 

Entretanto, surgiram interesses poderosos que se impuseram e impulsionaram a via aberta pelo sentimentalismo português pró-Timor (o celebérimo e bem chorado “AI TIMOR”) – a gula pelo petróleo timorense, os interesses da Austrália e o Vaticano a querer consolidar uma “fortaleza católica” encravada dentro de um dos estados muçulmanos mais populosos.  

 

Agora, a Indonésia, o antigo opressor genocida, limpa as mãos e limita-se a fechar as suas fronteiras com Timor Leste (“amanhem-se”…). Austrália e Vaticano não desistem dos seus intuitos hegemónicos. Portugal voltou ao sentimentalismo serôdio da saudade colonial. Sem se olhar para os relógios político e histórico. Pois, o nosso problema é a incompetência dos nossos relojoeiros. Que, bem vistas as coisas, somos todos nós, que gostamos mais de chorar e de rezar que pensar e resolver e quando não vamos “lá” com fados e missas, chamamos um pai-protector ou mandamos a GNR.

Publicado por João Tunes às 23:04
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1 comentário:
De amc.martins a 4 de Fevereiro de 2007
Esta é a linguagem fria da da análise estratégica, do cálculo preciso de ganhos e perdas, da descoberta do que é mais conveniente, do que mais interessa, do que dá mais lucro em qualquer dos prazos que normalmente são chamados a estes casos, dos melhores meios a utilizar para chegar aos fins nunca confessados - a atitude típica dos políticos, sempre ao serviço dos interesses económicos, situando-se a um lado e a outro consoante os resultados das suas análises minuciosas. O resultado destas análises têm sido as tragédias humanas e humanitárias que sempre atingem a grande massa de gente anónima que não passa de mais um factor a considerar, um meio a potenciar ou um obstáculo a derrubar. A pessoa que sofre, sem casa, sem pão, sem família, sem comunidade, sem referências, a PESSOA HUMANA em nome de quem tudo se faz, essa não interessa para nada. Chamem-lhe o que quiserem, ingenuidade, sentimamentalismo bacoco, idealismo, o que quiserem, mas o que realmente importa não é a lição de história que ficará para a posteridade mas sim o grau de respeito e preocupação pela POESSOA HUMANA presente em cada ser que habita este planeta.

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