Terça-feira, 7 de Dezembro de 2004

SOCIAIS-DEMOCRATAS?

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Muito se tem falado, a propósito da deriva santanista, sobre a mudança de matriz do PSD, e que teria descambado num tal PSL. Sobretudo por parte da velha oposição interna, os puristas que se reclamam da pureza de Sá Carneiro, identificada como uma pretensa natureza ideológica social-democrata (firmada no centro-esquerda).

Mas a verdade é que o PSD foi tão social-democrata como o CDS foi do centro ou sequer democrata-cristão. Ou seja, pouco ou nada, antes por máscara. E máscara conveniente pelos tempos da época em que não ser socialista, para lá não caminhar, com ele não emparceirar, valia opróbio público, cujos riscos poucos quiseram correr.

O PSD afirmou-se social-democrata quando o PS dizia que o não era. E ser então social-democrata era colar-se chegadinho ao PS do seu lado direito. Mas, na sua essência, o PSD resultou da adaptação do conglomerado de interesses (muitos deles, pequenos e médios) que vivia confortável com o Estado Novo. Com uma componente rural poderosa proveniente das antigas ligações clientelares com gestão entregue a uma intelectualidade urbana da média burguesia que, antes e com Marcelo, havia embarcado no projecto da Primavera. No fundo, o PSD foi uma versão adaptada e revista do marcelismo sem Marcelo. E, em termos de eficácia política, não foi pequeno o mérito de Sá Carneiro ter feito, em pouco tempo e num contexto de revolução, a adaptação das raízes implantadas da ANP num partido de resistência da burguesia à revolução, expurgando-a dos elementos salazaristas, ultras e radicais (que caíram, na maior parte, no colo do CDS).

Não admira que o PSD ideologicamente nunca fosse nada e, na prática, sempre tenha sido uma gestão de interesses feita de mansinho. Construindo princípios, valores e líderes, ao momento, isto é, conforme as possibilidades de acesso ao poder e da conservação dos interesses representados. Normalmente, por contraponto, contrariando no poder ou na oposição, as afirmações de valores de esquerda, ajustando o seu radicalismo à medida das transformações sociais que colidissem com interesses instalados ou a instalar.

Como estranhar pois que o mesmo PSD, o de Sá Carneiro, tenha dado Cavaco, Durão, Alberto João Jardim, Pacheco Pereira e Santana Lopes? Por não ser social-democrata ou seja o que for. Por ser um partido mutante. Na essência, para além da retórica.

Por uma questão de rigor, acusem de tudo Santana Lopes, menos que ele está a descaracterizar o PSD. A haver mudanças, elas são de caracterização. O alinhamento do PSD com o neo-liberalismo representa a primeira fase de autenticidade em que o PSD quer ser aquilo que é, dizendo-o. A que não será alheio o facto de agora ser a vez de a esquerda não saber que terrenos ideológicos pisa (o marxismo-leninismo do PCP é apenas uma teimosia histérica e o Bloco é o que Louçã vai pensando sobre a adaptação casuística das sobras do trotsquismo tardio) e o PP assumir, cada vez mais claramente, o seu encadernamento de extrema-direita.
Publicado por João Tunes às 16:32
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2 comentários:
De mfc a 8 de Dezembro de 2004
É lúcida a análise e concordo com ela excepto num aspecto.
É que existe uma deriva do PSD que o arrasta para fora do arco de defesa da democracia.
Alguns democratas (de direita é certo, mas democratas) do PSD estão a ser asfixiados e a serem relegados para o beco do partido.
De Bravo Mike a 7 de Dezembro de 2004
Bem visto quanto ao PSD.
Tal como a questão de esquerda.
Resta hoje o modº USA, dominante.
De qq modo, tempos virão, para o eterno combate dos excluidos.
Estamos assim tão longe, mesmo nas sociedades de consumo, da escravatura?
Trinta anos depois, talvez o acerto do espectro partidário PO.

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