Quinta-feira, 25 de Maio de 2006

TIMOR E O SEU PETRÓLEO

O Miguel, num detalhado post, coloca questões muito interessantes, a partir do facto de o governo timorense ter preterido a Galp relativamente à ENI-Agip num concurso de exploração petrolífera, sobre as regras saudáveis do investimento de Portugal na área CPLP. Não resisto, devido à qualidade do post, a lançar algumas achas para a conversa (achegas, não discordâncias).

Primeiro; ao escolher a ENI, o governo timorense não deixou a Galp (enquanto empresa de propriedade múltipla) totalmente “de fora”. Como a ENI é um importante accionista da Galp, mais milhão menos milhão, pela Galp ou pela ENI, a ENI beneficiaria sempre. Ou seja, em substância, a ENI jogou em Timor através de “dois carrinhos” – ganhou pelo “carrinho” com mala maior. O que nos lembra duas coisas que deviam ser óbvias: essa da Galp ser “portuguesa” pertence a um passado perto do remoto; a ENI não abdica do lucro máximo (como esperar o contrário?) mesmo concorrendo com uma empresa de que é proprietária parcial (e Pina Moura sabia isso, talvez melhor que nós, quando meteu a ENI dentro da Galp).

Segundo; a Galp não concorreu isolada à concessão em Timor. Fê-lo em associação com uma empresa malaia e outra brasileira. Estes interesses também foram “preteridos”. Falar-se de preconceito anti-português na perda da Galp, não faz sentido. A ir-se por aí, então fale-se de preconceito anti-português-malaio-brasileiro. O que é tão medonho em termos de perfídia abrangente que transforma o “preconceito” num absurdo.

Terceiro; se houve concurso, quem concorre ganha ou perde. Preferir num concurso é o quê? Aliás, o concurso foi previamente apreciado por uma comissão, antes de ser decidido pelo governo timorense. O primeiro-ministro timorense explica hoje, no “Público”, que não havia margem para “preferir” pois as propostas estavam muito afastadas. A comissão de avaliação fez o seu relatório fundamentado. Sem o conhecer, falar em “preferências” é julgar precipitadamente e através de um outro preconceito – o anti-timorense.

Quarto; o concurso badalado respeita a UM bloco da exploração do petróleo timorense. Como, também pelo “Público”, o primeiro-ministro timorense chama a atenção, vão haver mais concursos para outros blocos. Haja pois medida das proporções quando se fala da “entrega do petróleo de Timor à ENI” e da “exclusão da Galp”.

Quinto; é uma postura tipicamente “neo-colonial” pretender que os governos de antigas colónias, hoje países soberanos, tenham privilégios de preferência (mesmo com prejuízo nacional) para com os velhos colonizadores, macaqueando concursos se for caso. Tanto como enviar a GNR para os “meter na ordem” (perdão, “ajudar a restabelecer a ordem pública”).

Sexto (sob a forma de veredicto de jurado); o Miguel mostrou que percebe tanto ou mais do “negócio do petróleo” que o “ex-presidente da edilidade portuense” que dirigiu, pela Galp, a negociação/proposta de acesso ao petróleo timorense. Mas cometeu um erro que lhe pode ser fatal em termos dos seus privados recursos financeiros – confessara antes que apagou um mail que podia ser a grande oportunidade de ascender socialmente e largar a condição proletária. E, assim, perdeu uma "chance" magnífica de, pelo menos, passar a ter tempo para almoçar com todos os vagares e em convívio com os amigos.

Publicado por João Tunes às 13:24
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1 comentário:
De Miguel Silva a 25 de Maio de 2006
A condição proletária limita, mas não impossiblita. É tudo uma questão de "concertação social".
Um abraço

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j.tunes@sapo.pt


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