Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2005

OS OLHOS E A BARRIGA

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O Manuel Correia respondeu ao meu post anterior:

“Quanto às maiorias estamos praticamente de acordo. Apenas não percebo como os eleitores podem fugir delas, mas provavelmente referes-te aos que pensam poder votar contra elas, no sentido em que Paulo Portas aconselha os seus apaniguados. Se for o caso, até essa parte mais intrincada terei percebido.
Quanto à questão do «alter-ego», confesso que, ao reler, tb me deu vontade de rir. Faz bem rir em boa companhia. Porém, não ri do mesmo que tu (suponho...), já que, para achares tanta graça, tiveste de me atribuir a categorização que o PCP e o BE usam em relação ao PS. Como eu vejo o PS de outro modo (diferente das visões oficiais do PCP e dos bloquistas) a coisa pode dar vontade de rir (admito) mas com um gargalhar mais suave. Bem vês: se, seguindo o meu raciocínio, o PCP e/ou o BE gostassem de se constituir em alter-ego do PS (e eu continuo a achar que sim), teria de ser daquele PS que é de esquerda, apesar de «certas políticas de direita» de que tb é capaz (para falar à la PCP) ou daquele PS que é «a direita» mas tem pulsões de esquerda a que devemos dar o braço (para falar à la BE). Sendo, para mim, o PS um partido da esquerda, e sendo eu a falar, a categorização já aguenta a hipótese do resto das esquerdas (PCP e BE, por exemplo) tentarem ser «mais esquerda» com o PS.
Na última parte do teu comentário continuas, ainda com graça, a recordar-me o tempo em que fechávamos as «lutas de classes» nos manuais com que nos tentávamos endoutrinar. Hoje esforço-me por não dicotomizar o que pode, com vantagem, ser tricomizado. De resto, o desejo de compreender melhor o que se passa, permanece.”


E eu meto lenha na lareira, agradecendo-lhe o troco:

Caro Manuel,

Este “papo”, no mínimo, teve a vantagem de perceber um dado importante que, culpa de falta de entendimento meu, me tinha escapado completamente – entendes a Esquerda como um conceito suficientemente abrangente que mete o PS, o PCP e o BE (provavelmente, também a RC, porque não?). E chegados aqui, acho que subimos um degrau para nos entendermos - nos conceitos - e a análise poder ser mais “fina”. Sendo verdade que o risco é grande de, a partir deste ponto, a análise não levar a grande porto pois se Esquerda são tantos (cada um à sua maneira), Esquerda é o quê?

Tão importante como a categoria de Esquerda, estando aí o busílis, não é a capacidade de “governar à esquerda”? E aqui chegado, vêm as minhas “policotomias” assentes numa convicção – o PS tem capacidade de governo e já demonstrou que o consegue fazer com políticas de direita e de esquerda, muitas vezes, numa salganhada tal que não se destrinça o que a casa gasta; enquanto o PCP e o BE (cada um à sua maneira e com estilos diferentes) contestam as “políticas de direita” do PS mas não chegam, sequer, a serem alternativas como suporte ou apoio a uma prática de governo (o PCP porque quer que a história ande 28 anos para trás; o BE porque, com poder, desaparecia por explosão automática do seu poder de atracção de orfandades). Assim, teremos duas chalaças – a do PS dizer-se só de esquerda (quando é, na realidade uma confederação que mete desde convicções de esquerda até gestões de interesses que, provavelmente, é o que mais dá estrutura óssea ao partido); a do PCP e do BE que criticam as “políticas de direita” do PS, a partir de um ponto (que comporta batota) de pureza que não é mais que a sua exclusão (ou auto-exclusão) da governação. E o jogo parece-me tão viciado que, a meu ver, a questão da “maioria” (ser relativa, ou absoluta) se me afigura absolutamente irrelevante (em termos de ser colocado como pedido ao eleitorado, não quanto às consequências). Porque não acredito nem que o PS “absoluto” venha a fazer uma política de esquerda (será uma “salada”, como é costume), nem que haja margem de entendimento entre um PS “relativo” + PCP + BE (a obter no Parlamento).

Para dois cidadãos (tu e eu, no caso, julgando que ambos queremos é que se chegue a uma “política de esquerda”, mais que determinar as siglas dos actores), antevejo que não vamos ter “brinde” no próximo bolo-rei. E daqui parto para a minha opção pragmática – que não nos calhe a “fava”, ou seja que o PSD e o PP sejam apeados do poleiro e da forma que mais lhes dane (e, só por isto, gostaria que o resultado final desse uma “maioria absoluta” ao PS, sem direito a champanhe ou caravana na rua). Porque, me parece querer ter mais olhos que barriga, agora e de uma vezada, conseguir a maravilha de “2 em 1” - apear a direita e, ao mesmo tempo, meter o PS nos eixos (da esquerda).

Quanto aos nossos sonhos por uma “política de esquerda”, não há que desistir deles, até porque nos vão fazer falta para desancar nas “direitadas” do PS no poder. Mas quanto a isto – uma “política de esquerda” (aqui enganaste-te: não é uma regressão minha aos tempos que já lá vão, é um projecto de que não abdico, mesmo que pareça não passar de uma teimosia), é assunto que não vai lá nas próximas eleições, aliás o momento menos acertado para as resolver, porque, talvez mais que uma questão política-eleitoral, é coisa para se revolver (se se resolver) no social, no cultural, no gregarismo, na capacidade de os cidadãos se entenderem e organizarem tão bem como o fazem os grandes interesseiros dos grandes interesses. E, se queres um exemplo (paradigmático e de desafio), do muito trabalho que há a fazer, dou-to já: até quando o sindicalismo neste país vai continuar a ter, como formas, esta CGTP e esta UGT?

Abraço.
Publicado por João Tunes às 14:05
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1 comentário:
De Manuel Correia a 10 de Janeiro de 2005
João Tunes,
acrescento algo à nossa conversa, no PUXA-PALAVRA. Adianto algumas elocubrações acerca a «esquerda», sobre o fio da navalha, com uma fragilidade calculada.
; )
Lá te espero.
Um abraço

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j.tunes@sapo.pt


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