Quinta-feira, 25 de Maio de 2006

A RECUSA DE LUANDINO

A Cristina diz ter estado a matutar, sem chegar a conclusões, sobre a recusa de Luandino Vieira em aceitar o Prémio Camões. Mas, minha cara, razões “pessoais e íntimas” de outros podem ser entendidas por mais alguém que pelo próprio? E querer saber de alguém aquilo que essa pessoa não quer revelar não é, só por si, intelectualmente falando, uma tentativa de violação do direito de cada um à sua privacidade (intimidade)?

Certo que neste mundo que temos, um mundo muito assente na exposição e no fogacho da fama e dos prémios, Luandino Vieira não escapa a que a sua recusa seja “interpretada” e, assim, o seu direito ao silêncio será sempre, mais ou menos agredido. Como, por exemplo, aqui se faz, embora como enaltecimento. Suponho que ele terá medido esse risco.

Quando o Prémio Camões foi atribuído a Luandino, escrevi post onde referi uma “maldição” que acompanha o escritor - a “marca política” que lhe está associado. No caso, por ser uma “marca política” que funciona como cortina de fumo à sua obra literária, porque tendendo a que ela seja sobretudo lida “politicamente” ou associando os seus livros ao seu percurso e martírio político (*). E essa “marca política” é especialmente gravosa para o escritor, do ponto de vista literário, quando acresce o desencanto sofrido relativamente ao rumo político tomado pela causa a que ele dedicou o melhor da sua vida cidadã.

Porquê, até por respeito ao recolhimento de Luandino, não nos contentarmos com os seus livros? Antes que por desencanto ou por loucura de eremita, ele decida queimá-los. Mas sosseguemos, a Caminho já anunciou um seu novo livro. Vamos lê-lo?

(*) – O oposto acontece com outros. Aqueles que, de fraca ou mediana qualidade literária, beneficiam largamente de empatia, até culto, pela “associação política”. Por exemplo, quantos leriam Manuel Tiago, quantos filmes se fariam com base nas suas obras, se Manuel Tiago não tivesse sido o pseudónimo decifrado da figura política que o escolheu?

Publicado por João Tunes às 02:19
Link do post | Comentar
3 comentários:
De cristina a 25 de Maio de 2006
joão
a questão é a seguinte:
quando alguém escreve, ou escreve por gozo pessoal e para si, e nesse caso não publica, ou escreve para os outros e decide publicar os livros. se opta pela segunda, acho que deve algum respeito a quem o lê. obviamente não me interessa saber as razões da decisão. agora, se o público decide mostrar através de um prémio o sua consideração pelo autor, este , quanto mais não seja por educação e reciprocidade, deve corresponder, no meu entender. e separar as questões pessoais.
ou não separando, dar alguma explicação, ou usar o momento e a visibilidade para fazer as criticas que entender necessario.

beijos, desculpe a extensão do comentário...

De João Tunes a 25 de Maio de 2006
Cristina, registe-se a discordância de eu não ser tão lapidar nas regras de obrigação do escritor para com o público. Pela minha parte, acho que a um escritor, além dos livros, nada se pode exigir além daquilo que ele entende expôr. Depois, não foi o "público" que lhe atribuíu o prémio, foi um júri patrocinado por determinadas entidades. Finalmente, Luandino explicou-se: foram razões pessoais e íntimas que o levaram a recusar o prémio. E venham mais livros seus... Abraço.
De LNT a 25 de Maio de 2006
Nem mais, João. Um autor pode escrever e divulgar sem ter de explicar seja o que for. Quem gosta lê e ponto final. Nem todos os que fazem trabalho público têm necessidade de protagonismo. Aliás, o escritor (o autor), nem sequer tem de se confundir com o cidadão. Há que distinguir uma e outra coisa e principalmente há que aceitar com normalidade a recusa à exposição. Concordo absolutamente como texto.

Comentar post

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO