Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2005

E MAIS UMAS TANTAS CEREJAS

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A culpa será da parecença com as cerejas. Mas o certo é que, de deixa em deixa, o Manuel Correia não desiste, e ainda bem, de estender os seus raciocínios sobre os nossos males de esquerda que, em grande parte, resultam da adopção das fragilidades da democracia. Porque se as limitações da democracia representativa são um bem para a direita, porque é a melhor forma de não beliscar os interesses instalados, dramático é que a esquerda, também ela, ao parlamentarismo se confine, perdendo a capacidade de mudança que só com o empenho participado dos cidadãos se alcança.

E, por assim pensar, é que não entendo o empolamento dado (por quem pede “maioria absoluta” e por quem vê nela um perigo a evitar) à aritmética parlamentar que há-de sair da próxima votação. Ou seja, a obstinação em, por via eleitoral, querer resolver os problemas não resolvidos dos vícios do sistema, das pechas na participação e na prática política introduzidas pela partidocracia reinante. Enquanto, entre eleições, se deixa correr o marfim, reduzindo-nos a espectadores (às vezes, críticos, outras, nem isso).

Concordo com o Manuel Correia nos seus desabafos:

“De facto a vida – a vida política inclusive – não pára entre eleições. Os autarcas, tal como os dirigentes e outros activistas sindicais, têm de fazer frente e encontrar soluções ou, pelo menos, saídas, para situações prementes.”
(…)
”Uma das maiores perversões do nosso sistema político (tema já aqui discutido no PUXA-PALAVRA) consiste na acentuação do estilo autoritário das lideranças partidárias após a formação do Governo. O chefe do Partido ganhador, que foi a votos na qualidade de «candidato a 1º ministro», passa a concentrar, em consequência da coordenação político-partidária e do resultado das eleições, uma tripla legitimadade: chefe do partido, chefe do governo e chefe da maioria. A maioria, partidariamente gerada, tende a conformar-se com as directivas partidárias respectivas, desvalorizando a função fiscalizadora do Parlamento e dificultando ou inviabilizando, mesmo, as iniciativas das oposições nesse sentido. É o paradoxo da «ditadura democrática» e aproxima-se, de certo modo, do lema cunhado por um dirigente do PPD já ido - Sá Carneiro - «Uma maioria, um Governo e um Presidente». Como quem diz: se podemos ter o poder - democrático - todo, porquê deixar algumas partes à mercê dos outros?”
“Nas Autarquias Locais, apesar do método de Hondt se aplicar também à composição da instância executiva - a Câmara Municipal - uma boa parte das Assembleias Municipais acaba por funcionar como «caixa de ressonância» do partido político do presidente que detém, geralmente, a maioria na Assembleia Municipal. Os deputados municipais, na maioria dos casos, não têm condições para exercer as suas competências fiscalizadoras; a compensação pecuniária é risível e o funcionamento dos serviços de apoio é parco ou inexistente.”
”O que é assombroso neste estado de coisas, não advém desta descrição sucinta e necessariamente incompleta atendendo à existência de mais de 300 municípios. O que mais impressiona é o aparente nacional conformismo que nos atingiu, apesar de incessantemente advertidos para o empobrecimento geral da cultura política que as práticas descritas implicam. Apesar disso, não mexemos uma palha para alterar a situação.”


Verdades que se podiam aplicar, segundo variáveis de práticas e modelos diferentes, à vida sindical.

Mas a culpa dos partidos na cristalização da partidocracia é culpa nossa. Apenas. Porque nos ativemos ao principio de que a democracia assenta nos partidos. O que, sendo verdade, devia estar longe de esgotar o uso da democracia. Que, muitas vezes, para se regenerar, até pode ter de ser feita “contra os partidos”. Longas décadas de proibição de partidos deu nisto. Nesta cultura de reverencia atávica para com o instituído.

De repente, nos tempos eleitorais, quando as escolhas fervem, com o campeonato a poder mudar de líder, então esperamos e exigimos a nuvem mais o Juno. E agora é moda, na esquerda, com a barriga inchada da perspectiva de vitória certa, subir o patamar para os grandes banquetes da fartura. Não basta apear a direita, contadas que estão as favas, agora quer-se isto e mais aquilo, prende-se o cão ou a falta dele. Sócrates pede maioria absoluta. A esquerda de fora explora o medo do absoluto, eleitores precavidos dizem que querem PS mas relativo. Enfim, finuras de abastança.

Num repente, substituir a direita já parece coisa não atraente. Muito menos, suficiente. E tecem-se cenários idealizados, desprovidos de sustentação, exigente na aparência, mas perigosamente levianos. E inventou-se essa coisa, perfeitamente artificial, que é o cenário do PS, prisioneiro do Bloco e do PCP, a ser puxado para a esquerda. Como se um PS “relativo”, por passe mágico, automaticamente perdesse os seus “pecados de direita” e se “convertesse à boa e combatente esquerda”. Perante um PS que é considerado como “de direita” para, no minuto seguinte, ser colocado como o factor determinante para a tal “política de esquerda” necessária e urgente. O que me parece falácia ou miragem. Com um risco de se acordar do sono das exigências para a realidade de uma direita recomposta a explorar as fragilidades à esquerda. Porque convém não se contar já com os sapatos do defunto. Porque o presumido (nada pior que subestimar o adversário!) tem os seus recursos. E o populismo, sabemos, defeitos têm-nos mais que muitos, mas domina, como poucos, a arte da dramatização, dos afectos e da sedução. E à direita resta ainda a capacidade de recomposição – Cavaco à espreita, Bloco Central como ideia não definitivamente morta (vão-se lendo as lérias dos gestores-políticos do Compromisso do Beato…).

Em momento eleitoral, temos o que temos. As escolhas são o que são. Ou governa o PS ou o PSD. No quadro dos votos que recolher. Cada qual, seja qual for, governará melhor, em termos de condições políticas para o fazer, consoante mais folgada for a sua vitória eleitoral. E o score serve também para a função de responsabilização. O resto não é embirração desproporcionada? Ou manias de geómetra eleitoral (e eleitoralista). Obviamente que o respeitável eleitorado de esquerda tem opções além do PS. Felizmente, sublinho. Mas aqueles que votam por aí, assumam a opção do voto, defendam a escolha por aquilo que escolhem. Não ambicionem duas opções naquela que é só uma (a escolha no voto) – a opção propriamente dita mais um sinal de castigo em quem não votam para que esse “ganhe mas não abuse”. É areia a mais para a camioneta de um voto só.
Publicado por João Tunes às 18:50
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2 comentários:
De Joo a 13 de Janeiro de 2005
Caro Manuel, a sensação que tenho é que abrimos o "peditório", agora outros que metam a "moeda". Eu já estava a ficar com a sensação de me repetir e a repisar. E às tantas (deus meu!) até parecia que andava em campanha pelo PS e por Sócrates, o que só faria se corasse com facilidade (o que não é o caso, embora julgue que me reste vergonha na cara) para dar um tom rosa à face. Eu só tenho um voto, eu só procuro que ele, além da utilidade singela, seja inteligente. Obrigado pelo exercício argumentativo que estimulaste nesta falsa polémica que afinal é fruste entre quem "anda ao mesmo" - mais esquerda, melhor esquerda, esquerda sempre, um País. Abraço.
De Manuel Correia a 13 de Janeiro de 2005
João Tunes, acho que tens razão. O grau de exigência de papos como o meu vem marcado por aquilo que tu chamas «finura de abastança». Admito tb que o populismo tem recursos que estamos porventura a minimizar. Certo. Porém continuo a achar, do ponto da vista de uma postura crítica mínima, que pedir a MA antes de anunciar o programa eleitoral implica uma cumplicidade que eu compreendo, respeito, mas não partilho.
A precipitação dos apoios antes de expressas as medidas programáticas parece-me má conselheira. O único partido da esquerda posicionado para ganhar as eleições e governar é o PS. Com certeza. O meu desiderato é que tudo isso aconteça sem excesso de confiança e sem inversão lógica do debate, conclusões e apoios.
Um abraço

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