Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2005

O CAUDILHO QUE CANTA A INTERNACIONAL

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O conceito de Caudilho só se entende pensando a hispanidade. Que, aliás, teve várias mutações ao longo da história. A certo momento, a designação cristalizou numa matriz católico-fascista quando foi, oficialmente, aplicada a Francisco Franco. Para engrandecer o baixote galego com voz aflautada, penduraram-lhe cognomes susceptíveis de lhe aumentarem a figura – Generalíssimo e Caudilho (aqui com o acrescento pela graça de Deus). Na altura, a adjectivação tendia a equipará-lo às grandezas de mando sugeridas pelo Duce mussoliniano, pelo Furher hitleriano e pelo Chefe salazarista (os irmãos mais velhos de Franco nas lides nazi-fascistas) . Apesar do reducionismo de interpretação da expressão, ela ficou, a partir de então, definitivamente ligada à carga do exercício de poder ilimitado por parte de Franco.

Na América de cultura dominantemente hispânica, os Caudilhos à maneira franquista multiplicaram-se, com apoios da ditadura espanhola e da Administração americana que, na fase da “guerra fria”, tudo o que era anticomunista era bom e quanto mais melhor. Foi uma sucessão de ditadores cruéis e torcionários, muitos com estares de opereta a enfeitar regimes de imitação ao domínio franquista. Foi a fase do caudilhismo fascista que, aparte poucas excepções, afastou a América do Sul e Central da democracia durante décadas a fio. E que alimentaram, como simétrico, a gesta e as derivas do guerrilheirismo castrista-guevarista, maoísta ou até polpotiana (como é o caso da patologia genocida do Sendero Luminoso no Peru). Hoje, todos esses Caudilhos foram despachados e, com mais ou menos dificuldades, a democracia penetrou como normal modo de estar em toda a América de cultura dominantemente hispânica (e no Brasil).

Por paradoxo (será mesmo?), desaparecidos os Caudilhos de matriz franquista-fascista, restou Um. Conservado no clorofórmio do pretexto das boas causas opostas – independência do seu povo, igualdade, socialismo, comunismo, mais o orgulho de fazer frente ao Vizinho Imperial. Mas Caudilho dos Caudilhos. O Caudilho mais longevo. O Caudilho que não pede meças de crueldade e de ódio à liberdade a qualquer dos seus congéneres de direita. O Caudilho Mor. O último imitador de Franco no espaço hispânico, Fidel Castro. Esse mesmo. A herança de Franco na degradação por ele iniciada do fenómeno caudilhista. Agora, só resta o Caudilho que canta a Internacional.
Publicado por João Tunes às 22:45
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