Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

LER OU NÃO LER

 

Um comentador habitual gozou-me, com companheira gentileza, por eu ser um dos raros leitores do “Avante” usando este blogue para difundir as prosas incendiárias que o PCP gostaria que fosse privilégio, em exclusividade, dos seguidores que o lêem. Como este “reparo” está longe de ser solitário, transcrevo a resposta que lhe enviei (texto revisto):

 

Pertencerei à irredutível minoria dos que lêem metódica e assiduamente o “Avante” (talvez reflexo de honra para a minha meninice e juventude em que os recebia e passava, dobrados no volume mínimo que o "papel de arroz" tão bem permitia, com o coração aos saltos por causa dos olhares indiscretos).

 

Hoje, o “Avante”, o “Avante” após Cunhal, virou pasquim sectário da fracção que governa o PCP, transformado que foi este partido em seita de sociedade recreativa em fim de baile. E é, nessa degenerescência, que repousa o seu interesse documental de hoje, enquanto prova autenticada do enorme embuste de duplicidade que o PCP exibe nas barbas da democracia portuguesa. Enquanto no Parlamento, nos blogues, na comunicação social, nas lutas sociais, o PCP se arroga a mais virginal da essência democrática do regime (e seu vigilante-mor), o “Avante” continua a ser a descarga da catarse de um estalinismo serôdio, foleiro, anarco-populista, tremendista e aventureiro que, pela forma canibal como se exprime, faria corar Cunhal, esse exegeta do marxismo-leninismo e seu cultivador na forma asceta e asséptica, elitista também (quase aristocrática) que era própria desse "boiardo de Moscovo" no domínio que tinha sobre a arte da comunicação política cifrada em mensagens para fora e para dentro de molde a permitir recuos táticos ou avanços estratégicos. E, sobretudo, julgo deveras interessante, até para perceber a actual comunicação em política no Portugal de hoje, como esta duplicidade passa e resulta (embora, em termos de eco eleitoral, não atinja o segundo dígito na percentagem de votos, o valor aproximado em que se encontra fixado - os 8% - só é possível pela separação de discursos dualistas em que estruturou a sua propaganda, com uma comunicação eleitoral despida ideologicamente e concentrada no ressentimento social, remetendo as pregações da fúria marxista-leninista para uso interno nas missas de fiéis e em que o "Avante" faz de menu das orações).

 

Num jogo de enganos, politicamente aceite como correcto, o PCP é urbano, civilizado e exigente (aceitando a democracia e só querendo mais democracia) quando "fala para fora". Mas tem de contentar o seu alter ego estalinista, o que mantém a união entre hostes, através do “Avante”, fazendo a catarse interna da impaciência revolucionária, da sede de ódio de classe, da irresistível atracção pela ditadura iluminada que os exalte como minoria que tem a graça de ser vanguarda, do seu olhar no desespero de alianças pelo mundo fora, procurando, sem exigência política ou ideológica, apoios e parcerias, não se coibindo de se apoiarem, e apoiarem, (n)os assassinos, ditadores e bombistas (numa corruptela espantosa da tradição de exigência revolucionária que sempre alijou o aventureirismo e o terrorismo da arena dos veros revolucionários) desde que os Estados Unidos, Israel ou a democracia com capitalismo sejam os alvos. E, também, uma reprodução esquizofrénica da realidade social e política que justifique o discurso dualista do PCP ávido de antinomias, regredindo, à falta de melhor maniqueísmo, para o estereótipo serôdio do fascismo/antifascismo, encenando um quadro heróico em que eles lutam hoje - com eleições, Parlamento e grupo parlamentar do PCP - numa realidade de neo-fascismo instituído (pior que o velho-fascismo, na medida em que os fascistas de hoje são os irmãos-traidores socialistas, os de sempre, os de Soares a Sócrates).


Finalmente, confesso um aspecto particular que me dá gozo ao citar o Avante: é, cada vez que o faço, prestando ao “Avante” um serviço voluntário e gratuito de difusão, ter um ou vários comentadores (quase sempre sob a capa clandestina do anonimato) a bramar que citar o “Avante”, transcrevê-lo, é manifestação de peçonhento anticomunismo. O que prova que eles, os fiéis de pala jerónima, usam mas não suportam a dualidade que praticam. Há aqui uma interessante dislexia psicológica que pode acabar mal: ou os iranianos atiram rapidamente a bomba atómica e eles, e nós com eles, vamos desta para melhor a cantar a Internacional e a ler o Corão, não havendo nem capitalismo nem socialismo nem nada
além das cinzas para ninguém, ou eles acabam todos reunidos a eleger o Comité Central e ouvirem discursar o Secretário Geral num manicómio para seitas políticas. Mas, talvez em última esperança de saída saudável, eles encarrilem após lerem melhor, com mais vagar, o Carlos, o Frederico, o Vladimiro e o Álvaro. E o Suslov, sobretudo o Suslov, o genial Suslov, o pragmático Suslov, o que subiu ao Secretariado com Estaline, acompanhou Krutchov até o derrubar, reinou com Brejnev e ainda sobreviveu no olimpo com Andropov, morrendo vestido do fato do Politburo, tão manhoso, tão manhoso, que foi ideólogo e santo protector do Álvaro no altar do Kremlin, demonstrando como era sábio exigente na selecção dos protegidos.

Publicado por João Tunes às 17:31
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6 comentários:
De josé simões a 12 de Fevereiro de 2008
eu já me tinha esquecido do avante! até começar a ler o agua lisa.
com o agua lisa recuperei o hábito de ler o orgão do pc.
e é um hábito valioso como "interesse documental de hoje, enquanto prova autenticada do enorme embuste de duplicidade que o PCP exibe nas barbas da democracia portuguesa".

avante! "camarada" da blogosfera joão tunes.

cumprimentos

De Van Aerts a 12 de Fevereiro de 2008
De todos os apontamentos que li na blogosfera sobre o PCP, foi neste se espaço que se produziram as críticas mais totais.

Nao é de estranhar que surjam avençados do PC que lhe tentem mitigar a vontade de escrever com comentários exóticos ou ofensivos. Seguramente já reparou que se passou (e passa) o mesmo com outros blogues (como exemplo, o corta-fitas, o arrastao, entre muitos outros) que quando toca o momento de alguma crítica ao partido aparecem os mesmos comentários sempre com o mesmo estafado palavreado, diferindo isso sim, a assinatura dos mesmos.

Estas (poucas) pessoas, por iniciativa própria ou por ordens superiores da pandilha deverao passar todo o seu precioso tempo passeando-se pela blogosfera á procura de "inimigos do povo" o que nao deixa de ser caricato.

P.S. Há tempos o JT confessou estar cansado do blogue, faço votos que nao finde esta casa em breve e que continue a escrever até que os dedos lhe doam.
De pepe a 12 de Fevereiro de 2008
Também aprecio a leitura do Avante (de que sou leitor habitual), mas confesso que aprecio ainda mais a selecção que o Água Lisa apresenta (e comenta).

Lendo o post , fico realmente a pensar o que diria Cunhal da actual deriva de simpatias que misturam na mesma página o saudosismo serôdio pela defunta URSS e as loas aos islamitas mais aguerridos. É que do velho Cunhal comungo a apreciação aqui feita: o "exegeta do marxismo-leninismo e seu cultivador na forma asceta e asséptica, elitista também (quase aristocrática),etc" com um lado sedutor e amável que refinou com a idade.

E se há quem entenda que estas leituras são mera excentricidade já que o PCP perde votos e influência, basta atender às recentes manobras na CGTP para ter a certeza de que esta leitura é sempre pertinente para desmontar o discurso "para fora".


De carlosfreitas a 13 de Fevereiro de 2008
O problema é a memória. Essa memória dos tempos duros em que o próprio jornal era clandestino. A memória de quem os viveu e hoje entende que os caminhos podiam e deviam ser outros. O problema reside em que não se deve criticar deve-se ler sem pensar. Ora isso é o que todos querem que façamos. Leio o Avante como leio qualquer outro. E gosto da leitura critica. E ponto final. Escusam é de abusar da paciência da leitura critica. Porque só critica quem lê. E todos temos direito à verdade, prefaciando outro jornal entretanto desaparecido na voragem da democracia, mas a verdade que cada um constrói dentro de si e não imposta do exterior. Difícil ? Provavelmente sim. Dai que um dia destes deixam de ter leitores à altura do jornal. Ou só querem um rebanho de ovelhas??? Acríticas ? Provavelmente.
De Augusto a 13 de Fevereiro de 2008
boa malha João
Um abraço
De Francisco António a 13 de Fevereiro de 2008
Em pleno século 21 num País da Comunidade Europeia ter um PC destes reflecte um elevado atraso cultural de muitos trabalhadores, semelhante curiosamente ao existente no patronato.
Quase sempre temos vontade de rir com o que se lê no Avante, mas são os militantes do PC que controlam a maior central sindical do País.
Os resultados estão à vista, de um lado o conservadorismo em mudar negocialmente seja o que for nos contratos colectivos, do outro lado a resposta do patronato na humilhação dos contratos a prazo para todo o tipo de novos empregos.
Os fundamentalismos pagam-se caro e o ódio que o Avante prega ainda tem impacto sobretudo no mundo do trabalho.
Daí a importância do combate critico ao PCP.

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