Terça-feira, 16 de Maio de 2006

AINDA SOBRE OS FUZILADOS NA GUINÉ

A repulsa pelos fuzilamentos dos militares guineenses que serviram o Exército Colonial Português, ocorridos logo após a independência da Guiné-Bissau, despoletou uma enxurrada de opiniões, testemunhos e emoções. Naturais. Naturalíssimas. Como se viu, desde logo, pela interessante troca de impressões que aqui tive com o blogo-companheiro Eugénio Costa Almeida, um estimável prosador e companheiro no amor partilhado por África, sem que, para isso, tenhamos de pagar imposto em "racismo de fel" (o rasca, o que divide homens pela cor da pele) ou em "racismo de mel" (aquele que, “á la Bloco Louçanista”, trata os africanos de cima para baixo, condescendente, paternalista, desculpabilizante, justificativo, superior enfim, até bacoco pelo purgatório da má consciência, mas racismo também).

Agora, o Professor Jorge Cabral (ex-combatente na Guiné) colocou, entre várias, uma questão interessantíssima vivida pela experiência convivial de todos os ex-combatentes onde quer que tenham estado a cumprir o serviço militar no exército colonial naquele teatro de guerra. Refiro-me ao tribalismo versus consciência nacional na formação do “povo” e da “nação” da Guiné-Bissau. Sabe-se que este processo, como demonstra ainda a experiência após-guerra, é longo por natureza, sobretudo pela altíssima concentração de etnias diferentes e muitas delas rivais num espaço delimitado pelas potências coloniais (provavelmente, se a Guiné-Bissau “sobrou” para Portugal, isso se deve à desvalorização que a França atribuiu àquele problemático e pobre pedaço, mas, mesmo assim, abocanhando Casamansa). Por outro lado, a potência ocupante (Portugal), acelerou o processo de unificação diferenciada (os fulas mantiveram-se na supremacia de “aliados”) para integrar a categoria de Província Ultramarina, evoluindo assim da anterior concepção colonial “tout-court” de conquista e ocupação e que gerou, na estratégia de alianças, a tradição da cooperação militar e repressiva portugueses-fulas. E o proteccionismo colonial-ultramarino sempre manifestado para com os fulas (islamizados) foi mitigado para retirar argumentos de mobilização, via rivalidade étnica, ao PAIGC que, enquadrado sobretudo por caboverdianos, tiveram os balantas como seu suporte principal de revolta e de recrutamento de combatentes. E um aspecto do nivelamento étnico próprio do colonialismo da fase da guerra, sobretudo exercitado por Spínola e pelos Chefes da PIDE, centrou-se na exploração do factor de “máxima divisão comum”, ou seja, contrapor o “bom povo da Guiné”, o da “Guiné Melhor”, ao “mando caboverdiano” instalado no PAIGC. E isto, esta “unificação” perante um “inimigo comum” que ameaçava a supremacia de portugueses, fulas, balantas, mandingas, etc, julgo, foi o “melhor”, em termos de eficiência guerreira, que o colonialismo português, na fase da longa e sangrenta guerra colonial, conseguiu, incluindo até o clímax do assassinato de Amílcar Cabral (que, pelo contrário, não resultou em ganho da guerra). Nunca mais que isto, nos vários “chãos” guineenses. E a estratégia militar portuguesa, evoluindo a partir da aliança exclusivista pró-fula, exprimiu-se na separação estanque entre os “chãos” das diversas etnias, delimitando áreas de conflito, concorrência e rivalidades. Que, do ponto de vista da ocupação militar, não foi, reconheça-se, obra pequena. O grosso do problema da construção, naquele mosaico étnico, de uma consciência nacional, sobrou sempre, para o PAIGC. Difícil, sempre a desafiar o impossível, como ainda hoje constatamos. Sobretudo problemática quando a autoridade do Estado se corrói e se gasta no cancro das suas impotências e atavismos de regressão tribalista.

Cada um dos ex-combatentes na Guiné, na sua quadrícula, no seu “chão”, viveu essa experiência de “salamização” da Guiné. Uns com fulas, outros com mandingas, outros com manjacos, outros com balantas, por aí fora. Talvez parecendo, na percepção vivida, que os guineenses “eram” uma totalidade da etnia das tabancas em que serviram militarmente, a que lhes calhou como companhia. E foi nesse contacto, um contacto parcialíssimo pela natureza multi-étnica da Guiné, em que encontraram os seus amigos e camaradas guineenses e que apostaram, de vontade, à força ou por necessidade, no serviço pelo Exército Colonial, pela parte do ocupante. E, inevitável, a camaradagem do mesmo lado da barricada numa guerra , seja ela qual for, gera afectos e solidariedade. Como não entender isto?

No entanto, nada do que se reconhece, e tão respeitável que é, diminui a base o problema: fomos ocupantes e tivemos, no terreno, colaboradores na ocupação. E muitos, quase todos, sairam da Guiné com o afecto que se reparte com os amigos. Os daqui e os de lá. Feita a leitura simétrica, do ponto de vista do PAIGC, pode-se iludir que a leitura sobre o comportamento dos “nossos amigos” tivesse de ser forçosamente a oposta à nossa? Onde depositámos cumplicidade e afecto, eles deixaram plantar ódio. Ao fim e ao cabo, não admitimos sequer que o indigno, reprovável, inaceitável, tratamento dado pelo PAIGC aos “nossos amigos”, sobretudo os vergonhosos fuzilamentos no após-independência, não foi assim tão diferente (terá mesmo sido pior?) do tratamento que aplicámos, quando fomos metralha e lei, durante a ocupação militar colonial, pelas Forças Armadas Portuguesas e pela PIDE, aos capturados nas hostes do PAIGC e populações por eles controladas – ou se “passavam” para “nós”, mudando de “campo”, ou eram torturados, aprisionados e muitas vezes assassinados. Porque não se lhes reconhecia causa e qualidade de militar inimigo, eles eram os “turras”, apenas “turras”, por isso marginais à aplicação da Convenção de Genebra. E todas as inflamadas celebrações que agora oiço à nossa histórica aversão e abolição da “pena de morte”, ao “fuzilamento sem julgamento”, ao acto em si de matar, faltaram, faltaram-nos, no momento talvez mais certo por ser o mais pedagógico e de legado civilizacional – terem sido feitas, essas mesmas celebrações, quando capturámos “turras”, lhes chegámos a roupa ao pelo ou, na maior parte das vezes, os entregámos aos esbirros da PIDE e à sua sanha assassina. Mas, nessa altura, tínhamos o diáfano manto que nos cobria por sermos nós a autoridade. E o mando, sobretudo quando exercido por mão militar, não conjuga bem com o sentido de justiça e do património civilizacional? É mesmo. Pois é, ontem como depois. Ontem, os do PAIGC eram os “outros”. Hoje, continuam sendo “nossos”, os que de nos fizemos amigos no convívio e na camaradagem forjadas a combater os “outros”. E só nos pode indignar que os “outros” tenham sido patifes com os “nossos”. Ainda a diferença entre os “nossos” e os “outros”? Emoção respeitável esta, mas emoção. A razão, ainda distante, talvez faça, um dia, o resto - o que falta para o equilíbrio da apreciação histórica, entendendo, então, porque estivemos ali e o que fizemos ali. E, sobretudo, porque custa tanto, aos que lá estiveram, de lá “sair”, ou seja tirar do aperto ao pescoço os nós dos laços das circunstâncias e das marcas da juventude gasta lá, entre bolanhas e tabancas. E hoje, velhos ou para lá caminhando, a saudade aperta, das terras e das gentes, sobretudo dos amigos, principalmente dos amigos distantes, ficando com a lágrima mais fácil, mas nem sempre a mais justa na sua repartição equilibrada pelos caminhos da memória. Lá se chegará, confio. E já não faltará tudo, deduzo eu, depois de ter tido a felicidade de ler um excelente texto do guineense Leopoldo Amado recentemente disponibilizado na blogosfera.

Publicado por João Tunes às 23:14
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