Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

PELA NOSSA SAÚDE ENTREGUE AO GÉNIO INCOMPREENDIDO (1)

 

O A.Teixeira decerto entendeu que o que faz a diferença maior entre a política espanhola de saúde e a de Correia de Campos não é sobretudo, também o sendo, o número de médicos e de pessoal para-médico disponíveis para atender aos cuidados de saúde das populações. Rogando-lhe que leia com um pouco de atenção o meu post que comentou e que transcreve uma peça do besugo em que se comparam os cuidados de saúde disponíveis entre duas regiões peninsulares vizinhas (Trás-os-Montes e Alto Douro versus Galiza interior), verificará que as diferenças de monta, e que dão qualidade às atenções prestadas, são outras. É a política de atendimento e cuidados numa perspectiva de cobertura do território e acessibilidade das populações, é a quantidade e diversidade de especialidades, meios de diagnóstico e de tratamento que se aproximam das populações, desdobrando-se para onde estas escolheram viver. Sem que a gestão dos meios, numa pirâmide de sofisticação e particularismos, deixe de se exercer. E, estabelecida a rede de meios de acordo com as necessidades de saúde dos residentes, vêm (melhor: vão) as especialidades, os médicos, os enfermeiros, as camas, as ambulâncias e os equipamentos. E se empenham mais meios para prestar saúde, sobretudo eles partem de uma lógica antagónica à “portuguesa” face à interioridade e à lógica da pressão de urbanização das populações, empurrando-as para o litoral e grandes centros citadinos. Porque entendem que o usufruto do direito à saúde (e na educação, o panorama é parecido) não deve ser (já bastam as pressões económica e cultural) um factor objectivo e adicional de aceleração da desertificação do interior.

 

O que Correia de Campos tem andado a fazer é uma desgraça em termos de consideração pelas populações que, no seu pleno direito, resistem à migração para o litoral, principalmente para os seus grandes centros urbanos. E, sob a capa da racionalidade e da tecnocracia, a que se alia a impaciência das mudanças à pazada, uma exibição cínica e desapiedada da supremacia da gestão racional dos meios disponíveis relativamente aos nexos pessoais e comunitários de segurança, percebida no limite da segurança pelo instinto da sobrevivência, como se o empobrecimento da proximidade dos meios mínimos de cuidados médicos fosse um ónus de condição serôdia do cidadão que resiste a querer continuar a viver no interior. Com a agravante maior de, estupidamente, a velocidade dos encerramentos de unidades ser incomensuravelmente superior à criação, adaptação e apetrechamento das grandes e médias unidades de suporte na nova matriz.

 

Claro que a muita proximidade de um centro de saúde e de um médico de clínica geral mais um enfermeiro não resolvem os problemas essenciais de saúde das populações, particularmente em casos de média ou grande gravidade, cada vez mais frequentes com o aumento do horizonte de vida. Claro também que a proliferação de SAPs sem meios de especialidade, de diagnóstico e de tratamento, também não. Mas a reforma dos meios (em quantidade e qualidade), evidentemente necessária, devia ter sido conduzida com prioridade no apetrechamento e organização dos novos meios de apoio e, quando estes se revelassem eficazes como alternativa e suportados numa logística adequada de mobilidade dos doentes e de atendimento “in loco” ou em ambulâncias equipadas para os casos mais graves, é que se devia avançar para a fase de encerramentos, nunca se criando um hiato em que se generaliza o pânico indignado de ver, na mudança, apenas a debandada de meios e de assistência médica que, embora de eficácia relativa, estavam próximos, reforçando a sensação de que se está a praticar uma política deliberada de abandono. Além do efeito do desatino no ritmo da mudança em que os factores mais notórios são a hipersensibilidade, muitas vezes falsamente induzida e outras claramente manipuladas por forças partidárias hostis, sobre as causas de mortalidades verificadas e os caos resultantes em grandes concentrações hospitalares (por exemplo, Coimbra e Faro) por uma abundância de afluência para que não estavam preparados. E como se tanto não bastasse, tudo impensável num governo dito socialista, a mudança é liderada por uma equipa ministerial desastrada a comunicar, arrogante no trato, com um nítido recorte de comportamento político de tipo estalinista. Como se fosse imaginável que alguém que detesta os portugueses, desprezando-os porque o desentendimento da genialidade de Correia de Campos é atribuível a atavismos, os trata mal porque os quer ver felizes e de boa saúde.    

 

Publicado por João Tunes às 17:01
Link do post
De Sofia Loureiro dos Santos a 24 de Janeiro de 2008
João Tunes, acha mesmo que Correia de Campos e o governo como um todo estão a fazer esta força para manter a política de saúde porque detestam os portugueses? Ou porque querem mesmo perder as próximas eleições? Ou apenas porque são muito, muito, muito estúpidos? Já agora, como pensa que em Espanha ou em qualquer outro país se mantém tantos centros de saúde e hospitais, com tantos especialistas de pediatria, obstetrícia, medicina geral e familiar e outras especialidades, com tecnologia laboratorial e imagiológica , que têm que ser manuseadas por pessoas? Não será porque têm muitos médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, etc ? Ou será apenas por telepatologia ? E pensa mesmo que é a existência de centros de saúde, hospitais e maternidades, postos de correio e escolas, que prendem as pessoas ao interior? Então como se justifica que com os SAPs , maternidades e urgências, que Correia de Campos malignamente fecha, tenha havido um tal êxodo de cidadãos?
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