Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007

O MURO DA TRAGÉDIA EXEMPLAR

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Julgo tratar-se da publicação do livro histórico mais oportuno dos últimos tempos, a recente edição da obra de Frederick Taylor sobre o Muro de Berlim (*). Pelo tema, uma das barbaridades europeias mais medonhas da segunda metade do século XX. Mas, sobretudo, pela oportunidade de se conhecer melhor um gigante europeu em contínuo re-crescimento (a Alemanha). E quando a Alemanha cresce, a Europa tem o tique automático dual de se espantar e temê-la. Também sobre a forma como, nos tempos e momentos quentes, os mais quentes, da guerra fria, os aliados ocidentais da Alemanha e de Berlim, lidaram com elas, as Alemanhas (a capitalista e a comunista) e jogaram ao rato e ao gato com o colosso imperial soviético e o aventureirismo compulsivo de Krutchov (muitas vezes empurrado e armadilhado pelo fanático Ulbricht), ambos carregados de mísseis nucleares nas algibeiras.

 

De um lado, o bluff RDA, talvez a obra-prima do grotesco mais sofisticado conseguido em sociedades comunistas e no fabrico de Estados artificiais. Do outro, uma Alemanha que, perante a ameaça soviética, optou por se deixar reerguer sem se desnazificar. Com o abcesso de Berlim Ocidental metido dentro da RDA. E, depois, o monstro do Muro para evitar que um país ficasse vazio fugindo para dentro de uma meia cidade "inimiga". Até que a queda de podre de um Muro paranóico (coincidindo com a falência da RDA enquanto país e sociedade), passada a festa, recuperada a unidade de Berlim (mais a urbana que a humana), a Alemanha volte a incomodar pelo tamanho e pelo poder. E se Berlim e a Alemanha hoje não são tão ameaçadoras como parecem, ou vice-versa, isso deve-se fundamentalmente ao peso moderador das energias que os alemães ainda perdem em nostalgias (pelo aninhamento nas velhas divisões) e pelo incontestado e merecido prestígio da chanceler Merkel, ela mesma originária do Leste, vestindo um paradigma político do pragmatismo moderno e descomplexado.

 

Conhecer as formas valentes mas sobretudo sacanas, onde engenho, orgulho, cobardia e tibieza nunca faltaram, como milhões de vencidos da 2ª Guerra Mundial, apoiados por pólos neo-antagónicos de vencedores antigos aliados, lidaram com a realidade do maior castigo infligido à Alemanha por ter feito a guerra e a ter perdido, é um mostruário completíssimo sobre a plasticidade das sociedades perante os maiores desafios e ameaças. Demonstrando, como ensinamento a todos os povos, como se pode ser lesto a abrir e lamber feridas. E que feridas, as feridas alemãs. As espalhadas por eles e as outras, as que, de quando em vez, em fúria de violência doméstica, plantam uns nos outros. Incluindo o cúmulo de um Muro a dividir a sua principal cidade. E nada melhor para se fazer esta aprendizagem política (ou cívica?) que através da obra, este livro de Frederick Taylor, onde a apologética da visão propagandística cede perante o rigor, os factos e a teia do entendimento, a que acresce um poderoso fio literário, sem salamaleques cúmplices perante heróis e vilões. Que, quanto a estes, nenhum sistema tem fábrica de exclusivos de um de tais grupos.    

 

(*)“O Muro de Berlim”, Frederick Taylor, Edições Tinta da China.

 

Publicado por João Tunes às 16:30
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6 comentários:
De Try Logic a 11 de Dezembro de 2007
O caro amigo é dono de uma pontaria impressionante...pela segunda vez acerta em post no livro que actualmente leio :) Vou na pág.326 e realmente corroboro-o...um documento muito bem escrito e que efectivamente nos dá uma noção do grotesco, o muito bem apelidado por si "bluff RDA ".
De João Tunes a 11 de Dezembro de 2007
Sendo um caso de efeito recíproco, então eu tenho que me queixar do mesmo: vc anda a copiar os livros que compro e leio.



Acabe a leitura porque as páginas que lhe faltam são, opinião minha, as que melhor revelam do drama e nos ajudam a "viajar" para a Alemanha de hoje.
De Carlos Gil a 12 de Dezembro de 2007
curiosamente foi o que acabei de ler. agora estou com o tal sobre a fábrica de venenos...
abraço
De João Tunes a 12 de Dezembro de 2007
Então se leram o livro eu não tenho direito a saber das vossas opiniões?
De Carlos Gil a 19 de Dezembro de 2007
pra quê? está lá tudo, tin-tin por tin-tin... e, o outro que referi é semelhante (embora de escrita algo 'confusa' em caracterização histórica). admirou-te alguma coisa no 'Foi Assim' da Zita Seabra? pois, a mim também não. este, estes, são iguais. são os pormenores daquilo que, em bruto, sabemos (uns mais que outros).
segue-se (com intervalo na ficção c/ 'O assassino de Salazar' e 'O pecado de Darwin', um de título 'Guerrra Fria', de que não recordo agora o autor - também ainda não o li, né? :-)
bem, toma lá mais um abraço e continua a deixar os teus comentários que, podes ter disso certezas, são por regra certeiros e não só têm alvos fixos como, (meu caso entre tantos) clientes fiéis, coisa a roçar o etípeto de 'admirador', que só não uso porque não gosto. ;-)
De João Tunes a 19 de Dezembro de 2007
Abraço, caro Carlos.

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