Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

MEMÓRIA, VERDUGOS E BEATOS

0024byzh

 

Ainda estando fresco o acordo maioritário entre os partidos espanhóis que permite a aprovação da “Lei da Memória Histórica”, e que visa a anulação das medidas judiciais da ditadura franquista de vingança sobre os vencidos e a remoção dos símbolos glorificadores a Franco espalhados por Espanha, o Vaticano reagiu à sua maneira. Não pelo pedido de perdão aos espanhóis e ao mundo pela forma como se aliou e foi suporte e verdugo na sangria contra quem se opôs à Cruzada de Franco (dando cimento ao fascismo clerical espanhol), defendendo o poder legítimo. Não confessando nem dando mostra de arrependimento pela cumplicidade com a fuzilaria franquista sobre os sacerdotes que se mantiveram leais à República, entre os quais avultou a maioria do clero basco. O meio de reagir do Vaticano, em cerimónia presidida pelo cardeal português José Saraiva Martins, foi a beatificação de 498 espanhóis, assassinados em bárbara violência anti-religiosa (em que os anarquistas se destacaram) entre 1934 e 1939 e considerados pela Igreja Católica como “mártires do século XX”.

 

Perante mais um acto de duplicidade do Vaticano, resta subscrever as palavras indignadas da “Asociación para la Recuperación de la Memoria Histórica”:

 

 "El legítimo derecho a la beatificación de quienes considere sus mártires no debería estar reñido con una realidad en la que la Iglesia además de ser víctima fue un importante verdugo. Dejen de ejercer una doble moral y perdonen y pidan perdón por lo sucedido"

---- 

Adenda: Numa blogo-volta rápida, constato que o mesmo tema foi também, e pelo menos, tratado aqui, aqui e aqui. Consequência talvez de ter sido um cardeal português o mestre de cerimónias desta beatificação por atacado. Como que a querer dizer-nos que, de Espanha, não só sopram ventos e casamentos como ainda chusmas de beatos.
Publicado por João Tunes às 00:20
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2 comentários:
De Marco Oliveira a 29 de Outubro de 2007
João,
Como nunca estive sob combate, não sei o que é estar sob fogo inimigo, há sentimentos e emoções que apenas consigo imaginar. Mas vi algumas coisas e como observador arrisco o seguinte comentário:

Já vi antigos guerrilheiros que combateram o exército colonial português a confraternizar com militares e ex-militares portugueses. Vi reportagens de americanos que combateram no Vietname a conviver com os antigos vietcong.
Também vi uma reportagem sobre reuniões de convívio entre veteranos do Exercito Vermelho e alemães, e até reuniões de confraternização do Afrika Korps para onde se convidavam militares britânicos e italianos.
Em todos esse casos havia lágrimas e abraços, e muita vontade que mais ninguém sofresse o que eles sofreram.

Tudo isto me pareceram formas de enterrar fantasmas do passado.

Com este episódio, o que mais transparece é que os Espanhois ainda têm dificuldade em enfrentar o passado.
De João Tunes a 29 de Outubro de 2007
Caro Marco,

A diferença entre os exemplos que apontaste e o "caso espanhol" está, julgo, em a história se "equilibrar" ou não. E para esse "equilíbrio" existir há necessidade que o vencido aceite a derrota e o vencedor se mostre generoso com capacidade de perdoar sem se lhe pedir o preço de esquecer. Em Espanha, o essencial está por resolver (com culpas a repartir por todos os negociadores do "pacto de silêncio da transição"). Os que ganharam a guerra civil nunca perdoaram aos vencidos e consumiram-se, até o último dia do regime, a vingarem-se dos vencidos. O regresso da democracia a Espanha, em 1975, operou um fenómeno "anormal" - subitamente, os vencedores de 1939, os que se consumiram na vingança aos vencidos, passaram o testemunho aos herdeiros dos vencidos. Contando com uma contrapartida, a da impunidade e do silêncio, perante os crimes e a memória. Se tivessem sido minimamente decentes para com esse "contrato", os vencedores-vencidos teriam apeado o Vale dos Caídos dos seus sinais de afronta vingativa, teriam limpo as gravações glorificadoras a Franco e à Falange, seriam os primeiros a pugnar pela rectificaçao judicial dos crimes em julgamentos iníquos, devolveriam o bom nome aos cidadãos perseguidos, permitiriam que os cadáveres das suas vítimas, insepultos e espalhados em valas comuns, tivessem direito a uma última morada condigna, aceitariam que fossem o historiadores a recuperarem a memória espanhola. Não o fizeram, não o querem fazer. Particularmente, a Igreja Católica que, como se vê, persiste, em vez do pedido de perdão às vítimas para quem funcionaram como carrascos, em persistir na assunção da ligação orgulhosa ao crime franquista. O "problema" em Espanha, quanto ao retomar da querela da "guerra civil", não está na Lei da Memória Histórica, pois ela era necessária para honra das vítimas vencidas em 39 e vencedoras em 75. O que subsiste e complica é que o franquismo, e o "seu" Vaticano, queriam que a Espanha democrática convivesse com a exaltação do crime e dos criminosos que mataram a democracia em Espanha. Regressando aos teus (bons) exemplos seria o mesmo que os abraços entre antigos militares coloniais e antigos guerrilheiros se dessem com a música de fundo "Angola é nossa!".

Abraço.

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