Domingo, 21 de Outubro de 2007

CARA E COROA DE UMA GUERRA QUE MARCOU A (NOSSA E DELES) HISTÓRIA

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Entre os filmes incluídos no Festival “Doc Lisboa”, conta-se um documentário produzido pela jornalista portuguesa Diana Andringa e pelo cineasta guineense Flora Gomes, dedicado à memória da guerra colonial (guerra de libertação) na Guiné e intitulado “As duas faces da guerra”. Já projectado na Culturgest este documentário ainda pode ser visto, ou revisto, no Cinema Londres na segunda-feira (22 de Outubro) às 23 horas.

 

Sobre o valor histórico-testemunhal deste comentário, registamos a apreciação do historiador guineense Leopoldo Amado:

 

Para além de um documento histórico em si, este filme é, ele próprio, um importantíssimo documentário histórico, independentemente das observações criticas que um filme de natureza histórica possa suscitar – e suscita sempre – tanto mais que este possui intrinsecamente, do nosso ponto de vista, a dupla valia referida, para além também, obviamente, de um respeitável equilíbrio e sentido da história, pese embora o facto de, em certo sentido, ser nele notório um certo escamoteamento das contradições, divergências e confrontos de que esta guerra se rodeou, tanto entre os contendores como no seio de cada uma das partes tomadas separadamente, de resto, uma feliz opção histórico-cinematográfica que acabou neste filme por condicionar uma visão do conhecimento do passado – não tanto como a relação deste com o nosso tempo, na sua complexa teia de rupturas e continuidades – mas privilegiando antes uma abordagem das heranças diversas que produziu, positivas umas, negativas outras.

Outrossim, este filme da Diana Andringa e Flora Gomes – para lá dos tabus que as guerras engendram e sem desprimor para a importância histórica de que igualmente se revestiram as guerras de Angola e Moçambique no âmbito da guerra colonial/guerras de libertação – possui também o condão de reintroduzir a ideia segundo a qual a Guiné teria sido, indubitavelmente, o palco de guerra onde se registaram os maiores e mais violentos confrontos, maiores e mais situações dramáticas, maiores e mais apaixonantes episódios insólitos, mas igualmente a que suscita hoje uma maior profusão de livros, blogues colectivos, memórias diversas, teses académicas, para além de maiores e mais sensatas atitudes de reconciliação e aproximação que se registam hoje entre os antigos contendores, sejam eles europeus e africanos ou africanos entre si, considerando que, na fase terminal da guerra da Guiné, só os efectivos guineenses do Exército português eram cerca de três vezes superior aos do PAIGC.

Mas o que de melhor representa este filme, não é demais repeti-lo, é o seu refinado sentido do equilíbrio e da História, nele sobressaindo, claramente, o cunho individual, também refinado, do alto sentido artístico-histórico tanto de Diana Andringa como o de Flora Gomes. Dir-se-ia, aliás, que um filme com esta qualidade e com a dupla valia referida – para lá da sua indubitável beleza estética – só podia ter sido concebido e conseguido pela feliz parceria de cineastas de reconhecido valor e com provas sobejamente dadas e que, como tal, mostraram-se completamente despretensiosos e abertos à necessidade, quantas vezes adiada e
esquadrinhada, de construção de um possível e novo mundo, com base nos ensinamentos e heranças históricas comuns, tanto positivas como negativas.

------

 

Adenda: Fui ver o excelente documentário de Diana Andringa e Flora Gomes sobre a guerra na Guiné (o teatro de operações mais violento). Para surpresa minha, a esmagadora maioria do público que enchia o Cinema Londres era constituída por jovens. Isso, só isso, que uma juventude desfardada e desarmada estivesse ali a ver um filme histórico relacionado com algo distante passado no tempo dos seus pais ou seus avós, partilhando a revelação do que foi vivido mas interdito saber-se quanto mais entender, me compensou a emoção de ter “regressado à Guiné”. Com o bonito culminar final de a ovação de tributo ao mérito dos autores ter tornado desnecessário que alguém sentisse como imperativo gritar “abaixo a guerra colonial”. Só não sei se a Diana Andringa traduziu isso do aperto de mão com um “obrigado molhado” com que a felicitei no final. Pelo sim, pelo não, fica-lhe aqui explícito o que, a quente, a minha emoção não deixou ir além do implícito.

Publicado por João Tunes às 23:18
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2 comentários:
De Godzilla a 22 de Outubro de 2007
Não vou ter oportunidade de ir ver o documentário referido, com bastante pena.Agora sobre o teor do post apenas um comentário se me tal é permitido.
Enquanto ex-combatente e tendo vivido de perto alguns factos "históricos" da Guerra Colonial/Guerra da Libertação ou da Indepedência, conforme a óptica em que se queira ver o assunto, não posso deixar de dizer que não será possível falar ou escrever sobre esses factos sem uma ponta de amor/ódio e sentimentos contraditórios a não ser após a morte de todos os intervenientes directos e indirectos.
Eu próprio, 40 anos após o regresso e de muito ver e ouvir durante estes anos sinto agora que o SPT me ataca de vez em quando. Sonho e vejo uma realidade tão diferente daquilo que é hoje. Chorei em 1985 quando regeressei a ANGOLA. Voltei a CHORAR DE RAIVA em 1995 e de novo o fiz em 2007. Quem viu um POVO alegre e contente nos anos 60 e o vê agora triste e isolado, morrendo de fome e doenças, não pode ficar indiferente.
Tenho raiva e sinto um profundo ódio por tudo o que não fiz. Será que são mais livres e felizes agora?
As minhas desculpas por este desabafo, mas é o que sinto.
De paulo santiago a 22 de Outubro de 2007
Um comentário sobre o que diz Godzilla.
Não dou como adquirido,passados 40 anos,que ainda
haja esse sentimento amor/ódio,nem seja necessário
morrerem todos os ex-combatentes,para se ver com
clareza o período da Guerra Colonial.Soubemos há
dias que o Salazar,foi avisado três meses antes,pelos
U.S.,da preparação dos massacres da UPA.O que fez?
Nada!Deixou morrer toda aquela gente,para,de seguida, manipular"o bom povo português"despoliti-
zado,convencendo-o que a Pátria,o Império,do Minho
a Timor,estava em perigo.A guerra,a posterior
descolonização,nalguns casos mal feita,só tem um
culpado,nunca tendo ido a África...Salazar.
Quando todas as outras potências coloniais,descoloni-
zaram,o ditopresidente do conselho optou pela guerra
com todas as tragédias que daí advieram para nós e
para os povos das colónias.
Também,há dois anos,fui há Guiné,fiz lá uma comissão,chorei,de emoção,nalguns locais onde
morreram camaradas meus e,também, quando
encontrava algum dos meus antigos soldados negros.
O papel paternalista,saber se eram mais felizes antes
da independência,ou agora,não o sei desempenhar.
Sei que fui bem recebido,pelos meus antigos camaradas,e pelos ex-guerrilheiros.Temos algo que
nos torna irmãos....aLíngua Portuguesa
Abraço

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j.tunes@sapo.pt


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