Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

AINDA ADRIANO PORQUE ADRIANO SEMPRE (1)

0022qd7h

 

A melhor, a mais limpa, das evocações que li feita a Adriano Correia de Oliveira, o cantor e o cidadão, num tempo em que tartufos organizados se julgam donos do seu passado quando muito fizeram - em sua vida - para a denegrir e deprimir, encontrei-a aqui:

 

O Adriano à data da sua morte tinha quase 20 anos de música às costas, música gravada entenda-se. Do fado de Coimbra até à balada que o imortalizaria definitivamente. Não foi um cometa, antes um sólido trabalhador de pá e pica, dando que dando, mesmo se, o seu ar ingénuo, o seu penchant romântico, o fizessem parecer um “artista” à velha moda. O Adriano soube sempre, e muito claramente, o que queria e como queria. Há na sua démarche um rumo, uma persistência, uma teimosa e culta investigação e uma procura de empenhamento político e social que só o seu “ar diáfano” como uma vez, num jantar, alguém disse caracterizando-o, escondia.
O Adriano não apareceu, cintilante de ousadia, num qualquer largo do Carmo, mesmo se lhe juntarmos o quase enfrentamento do Terreiro do Paço, como Salgueiro Maia. Vinte e quatro anos de luta tinha o Adriano quando morreu, mais de metade da sua vida, que diabo. A metade útil pois que se saiba ninguém promove revoluções no infantário, na escola primária sequer no liceu. O Adriano fez-se homem e lutador na Coimbra dos anos sessenta, nas batalhas associativas, nas eleições da AAC, nas reuniões de curso, no CITAC, no Orfeon Académico, na Real República Rás-te-parta. Na primeira linha, escolhendo os poemas que iria cantar, arriscando a liberdade anonimamente tantas vezes quando, no intervalo de um fado ou duma sessão de estúrdia, ia pichar uma parede, distribuir um panfleto, participar numa reunião. Quando o 25 A chegou, já o Adriano andava “na estrada” há catorze anos. A cantar e não só. O segundo ponto é que, o Adriano não era cândido sequer ingénuo.
Sabia o que fazia e sabia (e doía-lhe) o que lhe faziam.
Mormente uns “camaradas” que, a partir de um certo momento, não hesitaram em tentar queimá-lo como artista, como homem e como militante político. O Adriano foi alvo de uma inquisitorial e malévola perseguição por parte de muitos que agora, e ainda há pouco, o homenageiam. Ele era “vícios pequeno burgueses”, “incapacidade de perceber a linha justa” e por aí fora. E neste “aí fora” até a mentira canalha de mão escondida andou.
Acho muito bem, acho de uma justiça pungente e gritante, que agora se edite a obra toda do Adriano. Faz falta em qualquer casa. Mas não mascarem que ele não precisa. Ou então que se diga, o Adriano era o vento diário e constante, a nortada habitual da nossa costa, deixem o 25A em paz. E meditem na velha frase que Virgílio põe na boca de Laoconte (Eneida, II, 49): timeo Danaos et dona ferentes, quando atira a lança contra o ventre do cavalo de Tróia. Arreceio-me dos Gregos mesmo quando dão presentes!
E não transformem um rapaz alto e desajeitado de Avintes em ícone que ele não era religioso. Basta que lhe restituam o bom nome e a honra perdida.

Publicado por João Tunes às 00:00
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