Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

AINDA SOBRE AS PRAXES

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A barbaridade medieval persistente das chamadas praxes académicas ainda continua a dar pano para mangas em termos de discussão.

 

O António Godinho Gil, num excelente blogue que há pouco descobri, definindo a sua posição passada e presente, escreveu:

 

Durante a minha passagem pela Universidade, bati-me sempre, nos lugares próprios, para que a praxe fosse encarada como um instrumento de crescimento e de integração e não um simples exercício de autoridade pífia, um hino à imaginação e não um nicho tolerado para a prática da humilhação. E que dela fosse banida qualquer violência, real ou figurada.

 

Mas, com mágoa, conclui:

 

Infelizmente, pelos relatos que chegam, parece ter triunfado a segunda versão.

 

Direi que, pelo lido, se trata do ruir de uma ilusão bem intencionada. A da esperança vã que um instrumento de iniciação imposta, encenada e muitas vezes impune, beneficiando sempre de uma desigualdade enquadrada na pressão social de quem habita com à vontade um espaço (que, sendo colectivo e para usufruto de uma comunidade académica tendo como objecto o estudo, não pode ser apropriável por uma das suas partes ou por uma vontade de domínio individual) perante quem nele penetra sob a inferioridade relativa de ser condómino neófito, indefeso e manifestamente inferiorizado quanto à capacidade de se orientar e apoiar no meio, possa, em probabilidade, beneficiar de uma atitude civilizada, culta e fraterna por parte dos detentores do “poder por antiguidade” (e só por péssimas razões as praxes se mantêm apenas em meios estudantis e militares, aqueles em que os recém-chegados arribam em inferioridade mais extremada relativamente ao novo meio). É que, mesmo sem violência e humilhação explícitas, as exercidas em formas de brutalidades física ou psicológica, a praxe, qualquer que ela seja, no grau, modalidade ou estilo, é sempre, no mínimo e nos casos mais benignos, uma afirmação social de superioridade e domínio por parte dos praxantes, a coberto de uma pretensa legitimidade institucional (a de membro “mais velho” de uma comunidade académica, enquanto estudante) que lhe outorga o direito a praxar, mesmo que seja sob a forma do carinho paternalista de quem possui a superioridade de “irmão mais velho”. Direito este que não há contrato académico que o inclua, a não ser que se atribua legitimidade suficiente ao “direito por tradição”, o que nos levaria direitos ao mundo das práticas medievas impostas e prolongadas através das situações de facto. Aceite o direito a praxar, torna-se aleatória a forma como ele é exercido, isto é, se se “praxa bem” (para o “crescimento” e para a “integração”) ou se se “praxa mal” (com coacção, violência e humilhação). Até porque o sentimento alternativo de “integração” ou de “humilhação” é do foro exclusivo do praxado e não do praxante (quantas vezes, pela vida fora, não vivemos situações em que um gesto, atitude ou palavra que desejámos generosa, terna, amiga e solidária foi percebida pelo destinatário como ofensa ou despropósito?). E sendo os praxantes os que definem as regras, os métodos e os rituais, nunca os praxados (remetidos aos exclusivos "direitos", quando os têm, de os aceitarem ou rejeitarem), como encontrar um código único de condutas e práticas que destrince, com eficácia, a diferença, para cada caso individual de conceito da dignidade humana que enforma a personalidade de cada praxado, com a consequente susceptibilidade associada, entre, para o mesmo acto, sentir nele um sinal de integração ou um sinal de humilhação? Acresce que, no mundo aleatório e de regras instantâneas que é o da praxe, a desigualdade de poderes entre o praxante e o praxado, em que o praxante é, por regra, ainda um adolescente tardio (ou pior, um adolescente retardado), quando não é (como também acontece entre os praxantes mais fanáticos no zelo do ritual) um mau exemplo de insucesso no afinco para com os actos de estudar e aprender (ou seja, um falhado ou um relapso quanto à razão da sua pertença à comunidade académica, portanto um dos membros menos qualificados em mérito para nela exercer qualquer espécie de poder), o apelo para exercícios sádicos de humilhação (muitas vezes, tendentes à violência física, sexualista e sexual) é pão nosso de cada dia, ou seja, a probabilidade maior.

 

Finalmente, também não posso concordar com o António Godinho Gil, quando diz:

 

Se quem a ela se submete o faz de livre vontade, antecipando a humilhação que vai inflingir no ano seguinte, é uma decisão que só ao próprio diz respeito. Mas quem não quer, saiba dizer não. Sem medo.

 

É que nenhum cidadão tem o direito a abdicar dos seus direitos de cidadania, submetendo-se a poderes não legítimos e usando práticas sociais ilícitas. Mesmo que, cívica e/ou psicoticamente, seja um masoquista. Na exacta medida em que, suportar voluntariamente, mesmo que seja com apetite, uma violência não autorizada (e o direito à praxe contraria muito do essencial dos direitos humanos), é uma conivência com o não permitido. Como, por exemplo, um sujeito cujo sonho de vida seja ser escravo não pode, mesmo que sob o alibi da "livre vontade", por falta de autorização da sociedade (que, relativamente a isso, aboliu a escravatura e, automaticamente, o direito a escravizar e o direito a ser-se escravizado), encontrado que fosse o seu esclavagista ideal, submeter-se a actos de escravatura, legitimando-a como “uma decisão que só ao próprio diz respeito”. 

---------

Adenda: O António Godinho Gil exerceu o seu direito ao contraditório. De uma forma elevada e brilhante, como eu esperava. Pela minha parte, fico em escuta de terceiras opiniões.  

Publicado por João Tunes às 12:10
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De Vítor Sousa a 3 de Outubro de 2007
João, não disponho de muito tempo, pelo que me limito a enviar um grande abraço, desde o Brasil. Deverei abordar a mesma questão, mas só depois de ler o seu texto, na íntegra. Mas, pelo que já li outrora, devo subscrever, na íntegra, o que aqui escreve.

Um grande abraço,

Vítor Sousa
De João Tunes a 3 de Outubro de 2007
Caro Vitor conto com o seu contributo para a discussão. Abraço com desejos de boas estadia e viagem de regresso. Abraço.
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