Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

MUGABE IN / MUGABE OUT

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A vinda de Mugabe a Portugal para a cimeira Europa-África promovida pela presidência portuguesa da UE, parece vir a consumar-se. Mesmo com os efeitos previstos de ausências de quem não se quer sentar ao lado do detestado senhor.

 

Não vejo que pudesse ser de outra forma, a menos que se preferisse não realizar a cimeira para não ter tal sujeito entre nós. Entretanto, Mugabe pode ser, e será, o mais repulsivo entre os ditadores africanos. Mas, infelizmente, está longe de ser o único ditador africano. Excluir Mugabe, permitindo a presença de outros da mesma laia, mais do que a afirmação dos valores democráticos, seria uma rendição perante o efeito da imagem e o peso dos interesses (obviamente, é o petróleo angolano e a "imagem presidencial" que disfarça a repulsa que merece Dos Santos, esse gentelman do despotismo africano). No caso britânico, a anunciada ausência de Brown, face ao contexto africano, o qual resiste a isolar e repelir Mugabe, concentrando-se na repulsa exclusiva a Mugabe, tem mais a ver com os interesses ingleses (e dos seus antigos colonos) ofendidos no Zimbabwe que a aplicação de um critério firme e universal de distinção entre democracia e tirania.

 

Portanto, do ponto de vista institucional e diplomático, não vejo que se possam atirar pedras a Luís Amado (quanto às que se lhe atiraram pela recusa em receber o Dalai Lama, essas só pecaram por defeito, sobretudo perante a forma cínica como o ministro se "justificou") por insistir em não recusar a presença de Mugabe (o que acarretaria o boicote da maioria dos governos africanos, ou seja, a não realização da cimeira). Outra coisa é o comportamento da opinião pública portuguesa, a qual deve descolar-se dos espartilhos institucionais, autonomizar-se e não projectar as suas defesas de valores, delegando-as, em exigências sobre "posições de Estado" que este não pode, não deve ou não quer tomar. Está aí, quando Mugabe desembarcar em Lisboa, uma boa oportunidade de lhe dizermos na cara o quanto o detestamos e como suspiramos pelo momento em que deixe o povo de Zimbabwe em paz para fugir da miséria e do desmando enlouquecido da sua tirania. A ele e aos outros da mesma laia. Por valores, não pela imagem ou por interesses.

Publicado por João Tunes às 15:35
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9 comentários:
De Eugénio Costa Almeida a 26 de Setembro de 2007
Directo e objectivo como estamos habituados. Só que o problema é que se Mugabe entra em lisboa, portugal pode vir ser fortmente penalizado pela União Europeia dado que o autocrático presidente zimbabueano está proíbido de entrar no espaço aéreo, terreste e marítimo, ou seja, em toda a União Europeia, excepto, naturalmente, por razões humanitárias. E é aqui que o senhor Mugabe gere a imagem e as inconsequentes palavras e actos lusitanos. E também aqui é que o senhor Brown quer mostrar que quem manda é o RU mas sabendo que quem manda e dispõe da vinda ou não de Mugabe é a UE.
O velho problema britânico; ser europeus sem deixar de ser britânicos e "dominar" como tal e como ex-potência colonizadora.
Um grande e fraterno kandandu
Eugénio Almeida
De João Tunes a 28 de Setembro de 2007
Não atingi a parte referente a Portugal "ser fortemente penalizado pela UE". Se se trata de uma cimeira UE-UA e se só o RU a boicotar, a que propósito?
De Eugénio Costa Almeida a 29 de Setembro de 2007
Meu caro é que há uma "ordem" da Comissão Europeia que impede a entrada de Muagabe no espaço Europeu, em qualquer local da União Europeia.
Ora se algum país-membro pevaricar que não seja por razões humanitárias pode ser penalizado pela Comissão e pelo próprio Parlamenteo (esta parte é que já não tenho a certeza absoluta).
E há muitas formas de um Estado ser penalizado. E o RU sabe-o mas quer dar a imagem que são os britânicos que estão a pensar na "Humanidade" e nos "Direitos Humanos" no Zimbabué. É contínua procura da capitalização de liderança que os britânicos têm perdido nos últimos anos.
Não é em vão que os outros países africanos, nomeadamente da zona e por onde pernoitam alguns do que um dos comentaristas aqui perguntava, têm avisado que sem Mugabe não estarão presentes.
Cumprimentos
EA
De marcelo ribeiro a 26 de Setembro de 2007
Cada coisa a seu tempo, caro João Tunes.
agora é desse Mugabe que temos de nos ocupar mesmo sabendo doutros salafrários africanos.
Pessoalmente, além de achar a cimeira uma inutilidade cara, penso que devemos fazer uma guerra de cada vez.
quando dizemos não a Mugabe, não estamos a dizer sim a um émulo do Idi Amin.
Neste caso, Mugabe é de facto um inimigo público nº 1 dos desgraçados cidadãos do Zimbabwe.
Ora se nos apenamos do Darfur, porque não destes mais a sul?
Dizer cá duas verdades a Mugabe é irrelevante. ele não ouve nem nós conseguiremos ser ouvidos.
E há que pôr os lideres africanos à prova. Não virão? Paciencia, são eles ou melhor os cidadãos dos seus países quem eventualmente perde. Enquanto não corrermos com os tiranetes eles continuarão a frequentar-nos.
Depois, há a UE que proibiu esta criatura de se chegar á Europa. Então somos a favor ou contra esta decisão comunitária?
E é isso que está em causa. Sermos maximalistas na anaálise da situação africana não ajuda os africanos nem nos ajuda a nós. Os malandros abatem-se um a um e se não for com cão será com furão, não acha?
Um abraço deste "reformista" bernsteiniano e tudo o mais que lhe quiser pôr na carta
De João Tunes a 28 de Setembro de 2007
Concordava se, do lado africano, só estivesse o Zimbabwe. Mas a cimeira é UE-UA, portanto estarão todos os dirigentes africanos no poder. E, nestes, a catrefa de ditadores é grande. Que o RU isole o caso Mugabe, entende-se. Agora nós, por mor de quê? Já basta a complacência, por meros interesses económicos, com que se trata Dos Santos. Neste sentido, defendo que só podem vir todos os representantes de todos os governos africanos reconhecidos pela UA. Se a cimeira é com a UA, não podemos sobrepor a nossa selectividade à do UA para com os seus estados membros, dizend-lhes: "venham todos menos um vetado por nós". E não julgo que se aplique à cimeira a interdição feita pela UE a Mugabe de entrar no espaço europeu. Durante o evento, Lisboa (se for em Lisboa) funcionará como NY para com as sessões da ONU. Última divergência: não partilho sobre a inutilidade da expressão da opinião pública. As grandes mossas muitas vezes fazem-se por acumulação de pequenas mossas. De qualquer forma, temos de agredecer a Mugabe por, finalmente, estarmos em desacordo em todos os pontos. Algo positivo o homem havia de ter.
De Marco Oliveira a 26 de Setembro de 2007
Pode ser que alguma universidade portuguesa o convide e depois o reitor lhe diga umas quantas verdades...
De João Tunes a 29 de Setembro de 2007
Boa malha! Outra possível: soltar-lhe um palavrão da colecção que o teu filho anda a recolher sabe-se lá onde.
De carlos freitas a 28 de Setembro de 2007
Eu só pergunto se só vem este! Cadê os outros? Bem estamos entendidos quanto à afronta que seria ao velho império britânico!!! Quantos as sanções, vamos lá, qual é o problema, também temos um Eduardo dos Santos e não dizemos nada!

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