Sexta-feira, 5 de Maio de 2006

Como costume: bom fim-de-semana

Haver Internet há, pois há, mas agora fica em descanso. Que isto, quando lhe dá, também cansa. E quem cansa, descansa. Senão não tem gosto voltar-lhe. Para mais, espera-me terra para mexer e remexer, verde herbáceo para dar lustro ás unhas e preencher-me as rugas dos dedos, mais as minhas árvores, pequenas e frágeis, para eu as namorar e dar-lhes sumo para a seiva porque secura não é seguro de vida, vida fraca que seja. E conto-as, as minhas pequenas árvores, tão minhas, tão delas, pelos dedos, beijando-as (sobretudo) ás escondidas, fixando-lhes rebentos e filhos pequenos, todos gémeos e todos diferentes, sofrendo com as suas percas e rugas de desdita, mesmo que vegetal. Estarei, penso nisso tanto, a ficar vegetal, podendo assim morrer da morte pior que é morrer-se verde que não é cor própria para deixar luto bom como herança, mesmo que seja riscado só para disfarçar através de luto de armanço de visconde enrascado a vender palacetes em saldo. Mas não deixa de ser bonito que um vermelho de condição se perca em amores nas verduras. Exótico, pelo menos. Ou não, nem isso?

Gostando de árvores, amando-as a vê-las crescer, fazendo as vezes dos livros que não escrevi nem vou escrever, não perco tino com o resto da vida. A poesia, melhor dizendo. E aqui, paro sempre no meu poeta maior, esse mesmo (podia ser outro?) – Carlos Drumond de Andrade. Que tão bem cantou as árvores, outras árvores, mas árvores também. Como esta(s):

 

No corpo feminino, esse retiro

" a doce bunda " é ainda o que prefiro.

A ela, meu mais íntimo suspiro,

Pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

 

Que tanto mais a quero, se me firo

Em unhas protestantes, a respiro

A brisa dos planetas, no seu giro

Lento, violento... Então, se ponho tiro.

 

A mão em concha - a mão, sábio papiro,

Iluminando o gozo, qual lampiro.

Ou se, dessedentado, já me estiro,

 

Me penso, me restauro, me confiro,

O sentimento da morte eis que adquiro:

De rola, a bunda torna-se vampiro.

 

E, é claro, bom fim-de-semana para todos vós. Gozem e façam gozar. Não se metendo em preguiças e deixando as árvores em espera de seca. E às bundas, ditas poesia, muito menos. Até já.

Publicado por João Tunes às 16:06
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3 comentários:
De M. Conceição a 5 de Maio de 2006
Cuide delas, cuide delas! :)

Bom fim-de-semana
De C.S.A. a 6 de Maio de 2006
Belo poema, João.
Não tenho rebuços para o belo, embora haja quem os tenha.
E digo rebuço no duplo sentido, pois o tecido, véu ou "fita" que serve para ocultar, precisa, para ter graça, de quem o desoculte.
Como não tenho, infelizmente, árvores, por aqui me fico cuidando em imaginação e ficção.
Abraços.
C.S.A.
De ana a 7 de Maio de 2006
"um vermelho de condição se perca em amores nas verduras: Exótico".
Completamente, caro João, completamente.
Como já lhe ouço cantar amores às suas árvores e rebentos pela segunda vez, pode até, sugiro eu, mandar uma fotozita do seu pomar/horta/quintal...
Bonito isso, de beijar as suas árvores às escondidas - há um pudor que nasce e morre com cada um.
Que lhe seja fértil e agradável, essa estada, a remexer verdura com as mãos.

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