Segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

O SALÁRIO E O VINHO

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Os caminhos cruzados das migrações laborais europeias estão bem expressos neste artigo de El País. Enquanto 11.000 espanhóis vão trabalhar nas vindimas em França, as uvas espanholas são sobretudo recolhidas por trabalhadores vindos de outros países (principalmente búlgaros e romenos). Por razões básicas: salários, regime e condições de trabalho, alojamento e alimentação. Mas, no mercado do vinho, isso não conta. Vale a uva e o preço. Ah, e a concorrência. Nesta concorrência, o factor encoberto, quiçá decisivo, é o da remuneração do factor trabalho. Assim, na cadeia laboral do mercado internacional da vinha e do vinho, os vindimadores espanhóis, fugindo da exploração dos seus patrícios vinhateiros, acabam por lhes retribuir com um serviço patriótico: permitirem ao vinho espanhol competir em preço com os vinhos franceses, precisamente aqueles que lhes dão melhores condições laborais. Resumindo: um autêntico caso em que, por melhoria de vida, os menos explorados servem os mais exploradores.

Publicado por João Tunes às 11:53
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2 comentários:
De JMC a 21 de Setembro de 2007
Este é um dos efeitos da emigração. É ilustrativo de quanto a falta de consciência colectiva dos trabalhadores joga sempre a seu desfavor e de quanto é difícil incuti-la. É a grande e dificílima função dos sindicatos e do sindicalismo.
No caso de uma indústria sazonal seria onde a unidade e a consciência dos interesses colectivos obteria mais facilmente resultados. O aumento dos salários teria efeitos para os directamente envolvidos e para os restantes, no país. Subindo o preço do vinho espanhol, por efeito da subida dos salários, também o preço do vinho francês (ou de outras produções) subiria sem os sazonais imigrantes, e as vantagens comparativas relativas manter-se-iam.
Cada um trata da sua vida. Filosofia de liberdade, que desde sempre tem prejudicado os vendedores de trabalho. É um dos comportamentos que explicam que os capitalismos nacionais sejam o que são e que ilustram a necessidade de um sindicalismo forte para alcançar uma melhor repartição do rendimento.
De João Tunes a 22 de Setembro de 2007
Caro JMC, vc levanta, afinal, a questão dos limites do "sindicalismo nacional", questão bem gorda. Mas se nas actividades não sazonais, essas limitações são evidentes (qual o sindicato que protesta quando uma multinacional deslocaliza para o seu país uma fábrica fechada algures onde os salários são mais altos? protestará sim quando uma nova deslocalização levar essa fábrica para outro país com salários ainda mais baixos), nas actividades sazonais nem se fala pois não há sequer sindicalização quanto mais acção sindical. A própria FSM, supra sumo do "internacionalismo sindical", para além dos problemas de instrumentalização e burocratização, nunca foi além da propaganda política e generalista contra as multinacionais mas não mexeu uma palha de substantivo nos limites dos círculos viciosos do "sindicalismo nacional". E um dos símbolos da falência da FSM é ir-se a Praga e olhar-se para o local da sua antiga sede mundial e lá morar agora um luxuoso hotel de uma cadeia internacional. Agradeço-lhe o contributo.

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