Quinta-feira, 4 de Maio de 2006

OS DONOS DOS CRAVOS

Recebi um “e-mail” que muito gostosamente transcrevo. Foi-me enviado por um dos muitos militares que, em 25 de Abril de 1974, ajudaram Portugal a sair da “longa noite”. Não nomeio o autor (embora devidamente identificado) porque a isso não fui expressamente autorizado. Não publicito também as palavras de simpatia para com este blogue que vieram juntas mas não pense o amigo leitor que isso seja sinal de falta de agradecimento. É que a edição de um blogue comporta tanto insulto anónimo cobardola que é preciso aturar (por vezes, apagar) que me sinto na necessidade de, em equilíbrio, conter a exuberância dos apreços para que a “coisa” não se mostre demasiadamente narcísica. Mas saiba, caro militar de Abril, que gostei de o ler, agradecendo-lhe inclusivé o naco de simpatia do apreço.

O depoimento vale pela emoção, genuína, mais ainda pela mensagem oportuna e que julgo de significado para com os “apropriadores dos cravos” e para, não menos, os que, pretextando isso, justificam doença alérgica ás flores da (nossa) liberdade. Vamos, pois, ao assunto comentado: “Abril , os Cravos e os seus Donos”:

“Por falar em 25 de Abril, cuja comemoração (ou será melhor dizer recordação) foi recente e, também, porque falou em cravos, gostaria de recordar qual o significado dos cravos. E faço-o, porque hoje é moda discutir os cravos, símbolos do evento, como representando uma esquerda caduca e ultrapassada que os ostenta. Quem alimenta essa discussão, tentando torná-la um facto político ou, mais grave ainda, tentando hipotecar o tema dos cravos à politiquice, fá-lo porque não entendeu nada do significado do 25 de Abril (ou quer desvirtuá-lo).”

“Os cravos no dia 25 de Abril foram não da esquerda, não da direita, não do centro; foram dados e usados pelo povo que saiu à rua, que não arvorava cartões partidários, que não tinha outra arma ou bandeira senão o cravo. Sei e senti os cravos apartidários que mãos, sem rosto nem cartão, colocaram nos "tapa-chamas" das G3 que eu e muitos jovens como eu, que militavam nas Forças Armadas, íamos recolhendo, como fiéis depositários, nas operações que efectuámos no 25 de Abril. Essas pessoas e os cravos não estiveram apenas no Carmo; estiveram, também, em Sete Rios (junto à antiga escola da PIDE/DGS), na Rua da Misericórdia (junto à Censura) e, em tantos outros lugares por onde andei e, onde certamente muitos dos que alimentam a discussão que falamos, nunca lá estiveram. Os cravos não são, portanto, de ninguém em particular, mas de todos os portugueses em geral. E são apenas dos portugueses que vibraram com o 25 de Abril, enquanto acto libertador dum regime. Esses perceberam o 25 de Abril e, por isso, os cravos são seus.”

Publicado por João Tunes às 15:24
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4 comentários:
De M. Conceição a 4 de Maio de 2006
Comovi-me com este testemunho. Acho-o coberto de razão. Obrigada, João, por o partilhar connosco.
De TT a 4 de Maio de 2006
Sim Senhor. Assim é que é o verdadeiro significado dos cravos. Bravo. Eu também penso e sinto assim.
Beijinhos aos dois.
De José Ruas a 8 de Maio de 2006
Caro João,
só hoje tive oportunidade de conhecer este seu espaço de comunicação e mais que gostar, senti muito profundamente a verdade deste seu "Post" sobre o 25 de Abril.
Bons aromas democráticos pois, com o cravo a enebriar-nos os sentidos, porque para cheiros merdosos e pestilentos já nos bastam os que sopram do arquipélago do Alberto João e quejandos do continente que não se querem contaminar com o dito na lapela. Ainda bem que esta cambada de tristes, começou a ousar deixar de ser hipócrita. A mim nunca me enganaram.
Viva a liberdade!
De RN a 9 de Maio de 2006
Como estive um tempo fora só agora tenho oportunidade de dar uma olhadela às preciosidades do Água Lisa. E solidarizo-me com os comentadores que estão do lado do cravo.
Mas o objetivo do comentário é perguntar se isso de "conter a exuberância dos apreços para que a “coisa” não se mostre demasiadamente narcísica." é alguma perfida e encapotada alusão à minha pessoa. E se é, escolho florete (que a austeridade não dá para espadas) logo à tardinha em Monsanto!

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