Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007

O “MITO DE OUTUBRO” (1)

001yghwg

 

Agora visitado por Rui Bebiano:

Em 1991, Marc Ferro previu que o desaparecimento da União Soviética levaria, mais cedo ou mais tarde, ao ressurgimento do «mito de Outubro». Noventa anos decorridos sobre os acontecimentos revolucionários de 1917, a previsão parece ter sido certeira: a memória da Revolução de Outubro mantém-se, no horizonte histórico de milhões de pessoas, como farol de esperança ou, inversamente, enquanto espectro da perversão totalitária.

Após a abertura de uma boa parte dos arquivos da ex-URSS e dos países do antigo «bloco socialista», a condenação passou a ser sustentada por um conjunto imenso de testemunhos e de documentos. Sob este ponto e vista, 1917, longe de ser actualmente uma data a celebrar, marca o arranque da primeira grande experiência totalitária do século XX. Uma forma de governo ultracentralizador, autoritário e antidemocrático teria nascido então, promovendo a organização sistemática da violência como instrumento de poder, a repressão de qualquer forma de dissidência, o exercício de actos de brutalidade contra populações inteiras (através de deportações maciças, execuções sumárias ou processos de limitação dos factores de sobrevivência), a instauração de um sistema económico e social que, apesar de fundado sobre princípios de igualdade, teria provocado um estado generalizado e contínuo de pobreza. Sobre este, uma minoria seguia erguendo um Estado forte e agressivo. Tudo isto seria visível já durante a guerra civil que se seguiu à revolução, mas foi conduzido a um estádio supremo sob a mão de ferro de Estaline.

Por sua vez, a esperança durou longas décadas e permanece ainda, em todo o mundo, como fonte inspiradora da acção interventiva de um grande número de pessoas, embora tenha sido, nos últimos anos, erradamente minimizada no seu alcance e na avaliação da permanência do seu impacto. Ferro encontrou a origem última do «mito de Outubro» e das condições para a imposição da sua grande capacidade dinâmica: «destruir e transformar o mundo para instituir uma Cidade da Felicidade é uma utopia tão antiga quanto a história dos homens».

De forma a poder depois fazer a sua crítica, foi François Furet quem mais sistematicamente procurou desenhar a dimensão positiva desse mito, adaptando-a à genealogia da experiência soviética. Em O Passado de uma Ilusão, um livro de 1995, dedica um capítulo inteiro aquilo que chama «o encanto universal de Outubro», que considera haver adquirido, logo após o termo da Primeira Guerra Mundial, «o estatuto de um acontecimento universal» capaz de preencher uma expectativa emancipadora que a memória da Revolução Francesa havia já deixado morrer. Desde logo por pretender inaugurar – a partir de um acto que foi de facto um putsch militar e não uma insurreição de massas – uma época nova na história da humanidade, assente, pela primeira vez, no poder dos produtores. Mas também por estimular uma «ideia de revolução», contendo uma capacidade instauradora de um processo radical de destruição e de construção, que ainda hoje constitui o núcleo da crença num instante regenerador («a Revolução») com equivalentes, na história da humanidade, apenas ao nível das escatologias fundadas na religião.

Ao contrário destas, porém, o paraíso não é reencontrado, mas sim construído, num locus que não se situa do lado de lá, mas sim do lado de cá da vida, aqui, na Terra, configurando assim uma utopia de grande efeito mobilizador e dinâmico, já não situada num tempo de espera ou de mortificação, mas sim na luta e na acção criadora. No termo do processo, um «futuro radioso», os «amanhã que cantam» capazes de mobilizarem os prosélitos mas também, acreditava-se, as grandes multidões de oprimidos.

Neste contexto, o que existe então de fascinante e de superador da sua ligação ao real na Revolução de Outubro? Furet diz que é «a afirmação da vontade na história, a invenção do homem por si próprio». Os seus protagonistas irão então glorificar-se a si próprios como figuras adornadas de um encanto irresistível, fornecido pela sua apresentação como encenadores e como protagonistas da própria história, de acordo com um programa «científico» que Marx desenhou e os bolcheviques teriam levado à prática. O «mito de Outubro», nunca será de mais lembrá-lo, foi construído pelos seus próprios intérpretes, e depois prolongado através da acção organizada dos partidos comunistas, assumindo um protagonismo transformador assente numa luta sem quartel destinada a colocar, ou a recolocar, a História «nos seus eixos».

Publicado por João Tunes às 11:16
Link do post | Comentar

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO