Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

MARX, O PRÉ-FUKUYAMA?

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É mais que um post, portanto para ler quando houver vagares depois das pressas com mudanças no ecran:

 

Nada na História ou na realidade empírica (…) permite fundamentar a concepção marxista da revolução social, nem que as revoluções políticas e ideológicas que culminam as lentas revoluções económicas sejam protagonizadas pela classe explorada de um determinado modo de produção social. Nem os escravos nem os servos foram os protagonistas das revoluções sociais que terminaram com a escravatura e com a servidão. A História tem mostrado que as revoluções políticas e ideológicas são protagonizadas por novas classes sociais exploradoras, que emergem pela instituição de novas relações de produção durante a longa revolução económica da produção social e que aspiram a conquistar o domínio político e ideológico para os adequar aos seus interesses e representações. A errada concepção marxista da revolução social, portanto, constitui uma forma de dar algum fundamento à profecia comunista proletária apresentada anos antes na proclamação panfletária, mas a História não permite conferir-lhe qualquer credibilidade. O único fundamento plausível para tal concepção é o voluntarismo, o desejo de que assim venha a ocorrer, como forma de acabar com a imoralidade da inumanidade total que a exploração constitui. Neste sentido, a crença na profecia marxista é mera crença pela fé numa verdade previamente revelada. Ironicamente, o próprio Marx rejeitava o voluntarismo e a crítica das concepções burguesas da realidade baseada na moral; acreditava que as suas predições tinham um cunho científico válido, e que o socialismo que proclamava se distinguia do socialismo utópico ou idealista por ser um socialismo científico. Destituídas de qualquer validade científica, resta às concepções marxistas fundamentarem-se no voluntarismo idealista.

A parte científica da obra de Marx, porque baseada em premissas erradas e em argumentação inválida, contendo grosseiros erros lógicos, está eivada de concepções falsas, proporcionando explicações invertidas da realidade social. Aquelas concepções, durante longo tempo aceites como conhecimento válido, não passam de representações falseadas da realidade social, em que esta é concebida duma forma invertida e os efeitos são confundidos com as causas dos fenómenos. Devido à complexidade dos temas e à aparente fecundidade dos conceitos, a sua obra não foi objecto de crítica exaustiva; os adversários limitaram-se a rejeitá-la, enquanto os adeptos a abraçaram. Deste modo, até hoje, o marxismo tem sido combatido no campo político, quer ao nível da profecia idealista, quer ao nível dos resultados da sua aplicação prática. A disputa tem estado situada ao nível das opiniões, onde nenhuma conclusão válida é possível. A demonstração da falácia do marxismo, porém, só será possível através da crítica teórica das suas erradas concepções. Infelizmente, a crítica teórica do marxismo é alvo de muitas e variadas incompreensões, oriundas quer dos ideólogos burgueses, quer dos ideólogos comunistas, encontrando-se entre dois fogos. É compreensível que assim seja. Por um lado, porque ela não legitima os discursos burgueses apologéticos do capitalismo, e, por outro lado, porque também não legitima os discursos apologéticos do comunismo, tentando desmistificá-los a ambos. A crítica teórica das concepções marxistas permite compreender melhor a realidade social e demonstrar as inconsistências dos discursos apologéticos, tanto do capitalismo como do comunismo, mas não constitui a chave para a adivinhação do futuro, que é coisa que os actores sociais vão construindo no presente sem a consciência de o estarem fazendo.

Os adeptos marxistas, sejam militantes ou ex-militantes dos partidos comunistas, sejam simples simpatizantes ou companheiros de jornada dos comunistas, continuam apegados à profecia idealista do comunismo proletário como necessário sucessor do capitalismo. As suas posições políticas derivam dum exacerbado espírito crítico em relação à exploração e às desigualdades de toda a ordem geradas pelos regimes capitalistas, como se fossem caso único ou o mais pérfido da História, e na crença, pela fé, de que o comunismo constitui um ideal humanista susceptível de acabar com semelhantes iniquidades. Persistem em tais crenças apesar da falência da generalidade dos regimes comunistas e da evidência das atrocidades que todos cometeram, que mostraram sem margem para dúvidas a incapacidade do comunismo para se constituir como alternativa económico-social do capitalismo. Continuam iludindo-se que com a reforma cosmética das velhas igrejas — os partidos leninistas de revolucionários profissionais, auto-proclamados vanguardas iluminadas para a condução das massas ignaras na insurreição vitoriosa e, depois, na edificação da nova sociedade — o comunismo reeditado estará ao abrigo dos chamados erros e desvios que conduziram à sua derrocada generalizada. Apesar de se orientarem pela mesma ideologia e de continuarem apegados à mesma concepção totalitária da organização social que despreza a liberdade individual, os adeptos querem fazer-nos crer que também eles são outras pessoas, que aprenderam com os erros que outros cometeram, e que a sociedade que propõem constitui a verdadeira e legítima alternativa ao capitalismo. Como todos os fiéis devotos, têm plena legitimidade para continuarem a iludir-se, mas não podem pedir-nos que acreditemos em semelhantes trapaças.

Existem variadíssimos tipos de adeptos, uns mais crentes, outros mais enduvidados, e outros que tendo abandonado as igrejas permanecem orgulhosos do seu passado e mantêm ainda a esperança na construção de uma alternativa ao capitalismo. Alguns destes últimos, quando criticados por permanecerem orgulhosos dum passado de militância comunista que não deveria constituir qualquer motivo de orgulho (a não ser em relação à actividade anti-fascista que alguns possam ter desenvolvido, mas até esta maculada pelo sectarismo e pela hipocrisia que desde sempre caracterizou a acção dos comunistas) desempenham o papel de vítimas ofendidas. Confundem a inutilidade da crítica do passado pessoal, porque é injusto julgar as pessoas pelo que foram sendo, com a legitimidade da crítica do que em cada momento do presente persistem aprovando do seu passado. Atitude oportunista, que pretende aproveitar o que de bom teria tido o passado de comunistas sem arcarem com a penalização que a actividade comunista acarreta no presente, e reveladora de que o seu corte com o comunismo ainda não foi efectuado. Uns migraram para a integração na social-democracia à moda do Mário Soares — um dito socialismo democrático, que nem o próprio Soares sabe o que seja, e que não passou de rótulo distintivo face à social-democracia reformista com raízes numa forte ligação ao movimento sindical, adoptado por um político vaidoso e ambicioso, sem qualquer ligação ao movimento operário, mas imbuído de um velho complexo de inferioridade, real e bem notório, em relação ao invejado rival Álvaro Cunhal — e colheram os louros da representação parlamentar; outros acolheram-se à representação parlamentar desse albergue espanhol do comunismo de passado apagado e de futuro branqueado, que dá pelo nome de Bloco de Esquerda, e continuam apostados em renovar o comunismo; outros, ainda, mantêm-se numa situação de independência ou de companheiros de jornada ocasionais. Todos eles saíram da igreja por uma qualquer desavença táctica, metodológica ou organizativa, ou por divergência menor em relação à cartilha, mas continuam crentes na profecia messiânica do socialismo marxista e na sua pseudo validade científica.

Entre nós, resta um pequeno grupo de adeptos, não sei se abarcando mais do que os membros de um casal, que desenvolve uma meritória actividade mantendo na Internet, há vários anos, um fórum de discussão. Também eles são ex-militantes comunistas, depois fundadores do grupo dos que pretendem renovar o comunismo, do qual parece se terem ido afastando. Ao que se conhece das suas posições, foram críticos dos regimes comunistas sendo ainda militantes no activo, não aceitando que aqueles regimes pudessem estar construindo o comunismo partindo duma base económica atrasada. (…) admitem que algumas concepções marxistas podem estar erradas, mas apenas admitem, sem que se conheça qualquer sua crítica fundada. Distinguem-se também por criticarem os que persistem acreditando na revolução política comunista proletária e que concebem a instauração de novas relações de produção a partir da superstrutura, do aparelho do Estado. Mantêm-se apegados a uma concepção idealista e voluntarista da transformação social, propugnando a necessidade de se estabelecerem novas relações de produção, as quais tornariam possível a almejada revolução política. Incompreensivelmente, ainda não se aperceberam de que o estabelecimento de novas relações de produção não ocorre por qualquer idealismo voluntarista empenhado em transformar o Mundo, mas pelo egoísmo prático dos actores sociais ao aproveitarem as oportunidades que possam ir surgindo na realidade empírica e que mostrem capacidade para se desenvolverem.

A exploração de umas classes sociais por outras é uma constante das sociedades produtoras, e tem uma História já bem antiga. E se a História não é mais do que a narrativa e a interpretação das lutas das classes, sendo o comunismo uma sociedade sem classes, logo, sem lutas de classes, a instauração da sociedade comunista constituiria o fim da História. Com base naquele desejo, legítimo e humanitário, Marx anunciou o fim da História muito antes do que Francis Fukuyama o fizesse. Apesar de tão peremptórias predições, parece que a História terá ainda um longo futuro pela frente.

Publicado por João Tunes às 12:18
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