Terça-feira, 21 de Agosto de 2007

CADA QUAL COM SEU PRECEITO

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Queixa-se o Marcelo Ribeiro que poucos dos seus leitores lhe escrevem. E, como acicate, plantou uma foto sua (a acima copiada), repimpado numa praia galega, em pose de distracção de leitura por, como o letrado à vista do cigano, ter um olho no livro e outro no enquadramento da objectiva. Pela estima que por ele nutro, sendo leitor compulsivo dos seus frescos escritos onde a fina e certeira ironia nunca dá nota de ausência, aqui estou a reparar a minha interrupção em pontuais mails de uma estimulante conversa que em tempos tecemos e em que nos demos um pouco a conhecer (ou a reconhecer?). Aqui vai.

 

Caro amigo Marcelo,

 

Muito folgo em o saber de volta e inspirado após as suas “férias galegas”. E tão folgado regressou que se deu logo ao trabalho de repor a escrita em dia.

 

Sem grande assunto de política para tratar, e assim alimentar o vício comum de a discutir (pois quanto a militâncias, o vento as levou), dei-me a cismar, pela foto sua que connosco partilhou, sobre a diversidade humana nos preceitos. É que, na parte que me toca, sendo velha aptidão minha o conseguir ler e dormir em qualquer circunstância ou condição, o último lugar onde consigo (conseguia) ler é exactamente na praia. Pela mistura com areia varrida pelo vento, pelo comichão do banho salgado a arranhar a pele, pela luz crua e demasiado forte que parece diluir as letras impressas, pelo risco do impacto da bola fugida de um pé futebolisticamente inapto e pelos gritos de mães zangadas com as criancinhas rebeldes. Mas, sobretudo, porque a concentração num livro não joga com o apelo do mar. Pois, por ser viciado na leitura e não conseguindo ler na praia, é que, por mor de padecer de uma maleita que me impede a exposição ao sol e a praia me ser interdita entre o nascer e o pôr do sol, vi alegremente certificada perante a família e os amigos a alergia que me dispensa da obrigação social de lhes fazer companhia nas idas à praia. E a isso devo o ganho de umas excelentes e proveitosas horas de leitura no preceito melhor para isso que é o sossego do silêncio e da solidão (que, infelizmente, dura enquanto dura o Verão). Assim, muito grato ficaria se me desse a conhecer o seu segredo na demonstrada capacidade sua de ler, com proveito, entalado entre uma cadeirinha e um chapéu de sol e ao som da brisa e de outros barulhos colaterais, com o mar a puxar os pés. Será por ajuda do arrepio provocado pela temperatura baixinha das águas nortenhas das praias galegas?

 

Abraço deste seu amigo e admirador.

 

Deserto da Margem Sul, Agosto de 2007

 

(assinado)

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Adenda: Claro que não fiquei sem resposta.

Publicado por João Tunes às 16:41
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6 comentários:
De cristina a 21 de Agosto de 2007
"porque a concentração num livro não joga com o apelo do mar." o apelo do mar, João??? huuuummmm......como se isso fosse uma coisa em que se acredite....
De João Tunes a 21 de Agosto de 2007
Qual a dúvida? Se não o sentiu, vai ver que ainda lhe vai tocar à porta dos olhos e do sentir.

De JVC a 21 de Agosto de 2007
Mas o João está a ligar ao Marcelo? ;-) Não sei que idade V. tem, mas o clube magnífico de/dos 60 é que dá para nos perdermos de riso, incluindo eu e o meu querido amigo Marcelo. Se não fosse a conotação homossexual que horrorizaria o Marcelo, somos todos hoje uma "cage aux folles".

Mas o que é que nos resta? Gaiolas à direita, jasus! PS socrático, só com grandes lições sobre o venerando Sócrates, não este videirinho. PCP e seu filhote PEV? Fica para si este encargo, de que se desincumbe muito bem. BE? Cheira-me sempre a queimado numa praça de Florença, com Savonarola a olhar para o céu. Se calhar, quem tem razão é um homem que detesto, Saramago, quando apregoa o partido do voto em branco.
De João Tunes a 22 de Agosto de 2007
Caro JVC, graças a deus não estou tão pessimista e, exceptuando quanto ao iberismo, ainda não me converti aos pensamentos de Saramago. Mas concordo plenamente consigo sobre os efeitos sadios da terapia do riso. E, por isso mesmo, é que "ligo" ao nosso amigo Marcelo.
De marcelo ribeiro a 22 de Agosto de 2007
Ò João
não ligue a esse velho galo doido chamado JVC (João Vasconcelos Costa) açoriano, gastrónomo, vicioso como só um cientista o sabe ser (!!!) e bom conversador.
Já não me horrorizo com nada, muito menos com a cage aux folles que deu um grande espectáculo de teatro e um filme delicioso. Ainda há pouco referi a morte de um dos seus actores.
Eu devia agradecer-lhe o mostrar-me às suas leitoras mas de facto, atentando na idade e na barriga, temo que antes sirva de repelente esta fotografia. Já lhe respondi no incursões mas ao vir aqui queria apenas sublinhar que se a areia é incomodativa (e às vezes é) e se a praia apinhada é horrível (sempre) há a hipótese de uma boa esplanada com vista para o mar, com a vantagem de haver um bom café ou uma imperial fresquinha (o JVC não perdoa esta última modalidade num simpático bar de Oeiras). Felizmente, agora começou a haver esplanadas agradáveis à beira água. Creio que aí V não desdenharia uma hora ou duas de leitura.
Um abraço (e outro a esse velho açoriano que dá por JVC: boa bisca me saiu!)

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