Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007

PRAGA 68

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Na noite de 20 para 21 de Agosto de 1968, Brejnev mandou seguir para Praga os blindados do marxismo-leninismo. E a classe operária soviética fardada, juntamente com os seus irmãos de classe búlgaros, alemães orientais, polacos e húngaros, corrigiu com força e metralha o desvio dos revisionistas checoslovacos. Com eles esteve solidária a classe operária portuguesa dirigida pelo PCP dirigido por Cunhal que, exceptuando as classes operárias possuidoras de poder armado, foi o primeiro destacamento de trabalhadores conscientes no mundo inteiro a apoiar a correcção por meios tanquistas. Devido ao vírus do "eurocomunismo", falharam na hora da chamada as vanguardas operárias de França, Itália e Espanha mas falta não fizeram porque a coisa, mesmo sem eles, resolveu-se a preceito. E, com as presenças e as ausências assinaladas, a contra-revolução não passou.

 

Muita água correu nos rios dos povos desde os acontecimentos de há 39 anos atrás. Hoje, está claro que o que se passou em Praga não foi, ainda, um confronto entre democracia e revolução, entre liberdade e opressão. Mas apenas uma luta fraticida entre cliques comunistas sobre a forma de gerir a ditadura do proletariado e o império que haviam construído sobre os escombros da II Guerra Mundial. Dubceck e seus pares, com a experiência liberalizante da “primavera”, experimentaram a receita do “socialismo de rosto humano” como panaceia de prolongamento de uma experiência que se havia atolado no beco sem saída do percurso comunista pelo crime, pelo obscurantismo, pela asfixia económica e pelo atrofiamento social (traços constituintes da patologia política da via marxista-leninista). Mas o engano comunista, a supremacia comunista, a afirmação comunista além das vontades livremente expressas, mantiveram-se. Os checos apoiaram Dubceck porque lhes surgiu como uma fresta aberta na atmosfera viciada da canga que manietava a sociedade. Os eslovacos (Dubceck era eslovaco) pelas mesmas razões mais a esperança de se aliviarem da hegemonia checa. Mas Brejnev e Cunhal sabiam que qualquer corrente de ar puro era (como será sempre) um perigo mortal para o comunismo. E a resolução da “questão checo-comunista”, dispensando prosápias teóricas e ideológicas, foi resolvida pelos militares do Pacto de Varsóvia (só Ceauscescu não alinhou). Como resultado, a Checoslováquia foi “normalizada”: o Secretário-Geral do P C Chescoslovaco foi preso, enviado para uma prisão soviética, torturado e devolvido destituído para depois ser “reconvertido” como guarda florestal, meio milhão de comunistas checos e eslovacos foram presos, expulsos ou abandonaram o partido comunista. Afinal, uma purga no velho e clássico estilo.

 

Foi necessário que Gorbatchov, na União Soviética, repetisse o “erro checoslovaco” para que todo o império caísse como um castelo de cartas. Então, só então, a partir de 1989, se colocou aos povos europeus dominados pelo comunismo a resolução dos dilemas revolução-democracia e liberdade-ditadura. E, na Checoslováquia, como nas outras componentes do “campo socialista”, o dilema da “primavera de Praga” tinha passado à história. Os checos são, hoje, membros aplicados da União Europeia e da NATO. Os eslovacos, feitas as partilhas, foram às suas. Uns e outros não perderam muito tempo a agradecer a frágil resistência de Dubceck e seus pares pois o tempo havia diluído o cisma tentado, remetendo-o para a memória como negócio de antiquários. Como a história é ingrata!

Publicado por João Tunes às 18:32
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4 comentários:
De marcelo ribeiro a 21 de Agosto de 2007
A Checoslováquia foi a gota de água. não que eu tivesse especial admiração e simpatia pelo PCP. Apenas me confirmou o que (com 26 ou 27 anos) já pensava do "bloco soviético", do pacto de Varsóvia e de outras rapozices do mesmo género.
De João Tunes a 21 de Agosto de 2007
Também me abalou. E muito. Logo após Praga 68, era então um estudante metido em pedradas à ditadura e, como a maoria destes um simpatizante comunista, fui convidado a formalizar a condição de membro efectivo do PCP. Coloquei ao "recrutador" [então um estudante de medicina no Porto, hoje médico lá a exercer (soube-o pelo livro de Zita Seabra)] a única condição de, antes, me explicarem a posição do PCP sobre a ocupação da Checoslováquia e com a qual não concordava nem entendia. A resposta foi que aguardasse por uma conversa com um camarada "mais responsável" e mais dentro do "assunto". Claro que a minha dúvida foi entendida como falta de amadurecimento político e aquela tentativa de recrutamento morreu ali.
De Anónimo a 20 de Outubro de 2008
Contado dessa forma torna-se quase assustador.
A posição de Álvaro Cunhal nunca foi assumida, em termos políticos fazia sentido aceitar ou abster de tal situação. Vejamos, o PCUS sofria de actos separatistas desde há muito tempo, acentuado no X congresso 1920 por aí, Nikolai Bukhárine,e Nikita Kruchtchov defendiam um sistema pequeno-burguês agrícola que contradizia o ideal socialista, tal como Lev Trótskie defendia o apoio que para ele seria imprescindível da revolução noutros países do mundo principalmente na Europa. Era extremamente importante o rápido desenvolvimento industrial nessa época tendo em conta que a União Soviética era essencialmente um país de suporte agrícola, era também uma via de suporte a este principio, nunca esquecendo que se aproximava uma guerra em escala mundial, portanto uma enorme ameaça ao socialismo. Mesmo assim não concordando com os métodos, Stáline conseguiu a quase radicação total da alfabetização nacional, saúde gratuita, radicação do desemprego, salários muito mais justos, habitação para todos custando no máximo 2 a 5% do rendimento familiar e por aí fora.
Acho que podemos concluir que é muito fácil ser-se anti-comunista primário, descartando assim a responsabilidade dos países do norte ditos países ricos (Ocidentais, na sua grande maioria) da miséria que se passa no mundo... Vamos lá ver, só nos países ocidentais consome-se 75% dos recursos naturais do planeta, sendo uma enorme parte deste numero dispensável, bastava que as pessoas reduzissem um pouco á carne que consome para que se conseguisse alimentar toda a população mundial. Todos os dias morrem pessoas inocentes devido à ganância capitalista, por exemplo:

Sabia que o coltan que se encontra nos seus electrodomésticos já provocaram 5.4 milhões de mortes, pois é o coltan é um metal que é usado em chips de telemóveis, computadores e por ai fora, estamos a falar de Nókias, HP´s, etc, pois este metal é grande parte das vezes proveniente da República do Congo, que tem o Este e Nordeste ocupado pela Ruanda uganda desde 1996
provocando milhões de mortes devido à pilhagem de diamantes e coltan.

Como sabe as Caraíbas como a América Central ainda hoje vive
a precariedade da exploração agrícola por parte de alguns países Ocidentais.

Sabe também que a Democracia imposta Iraque é uma fachada para a exploração de petróleo tal como o mercado bélico, tal como o apoio a governos narco-traficantes, que não têm a menor ideia do que é o respeito pela vida humana causando assim milhares de mortes pela via das suas forças militares oficias, tal como na Colômbia, Bolívia, Paraguai e como já foi Venezuela.

Bom o que eu gostaria de perguntar é... Afinal o que é que está a defender em concreto?

Tem noção que será um pouco hipócrita apontar uma abstenção meramente política tendo em conta de que o que defende e consome é proveniente de autênticas chacinas?

Acredita mesmo que as pessoas vão passar a vida toda a acreditar nesse anti-comunismo primário absurdo?

E por ultimo, como é que tem a lata de apontar uma situação em ambiente de guerra como animalesco? Não consegue ver o que se passa na actualidade?

Não vou pedir para que compreenda a história, porque já reparei que não seria possível, contudo peço para que entenda o disparate que é a sua intenção em publicar este artigo, não pelo seu conteúdo mas pela propaganda que o denuncia.

PS. Espero que seja democrata e publique a minha resposta.

muito obrigado.

De João Tunes a 21 de Outubro de 2008
Fica publicado o comentário. Até porque diz muito sobre a forma como, no PCP, se enquadra a história, particularmente a história dos cismas comunistas: passar ao lado das questões "quentes", desconversar virando para as malfeitorias do campo imperialista. E mente-se quando convém, como dizer-se que "a posição de Alvaro Cunhal nunca foi assumida" (basta ler o discurso deste na Conferência dos Partidos Comunistas e Operários realizada em 1969 em Moscovo e que consta da edição feita a propósito pela Revista Paz e Socialismo e impressa em Moscovo, documento de que guardo um precioso exemplar). Mas se o comentário fica aqui exposto é porque, ao contrário da expectativa denunciada, chamar anti-comunista não é ofensa (não ofende quem quer) pois não imagino que um democrata o possa ser sem que seja, por consequência, antifascista e anticomunista. Embora, francamente, não merecesse aqui continuar dada a cobardia do anonimato na assinatura do texto. Mas, enfim, demagogia propagandista, mentira, tentativa de insulto, casam bem com cobardia. E, já agora, com comunismo, sobretudo com o estalinismo serôdio desta direcção do PCP. Fica, pois.

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