Quarta-feira, 15 de Agosto de 2007

TORRE BELA (revolução, elites, povo, utopia, história, cinema) (2)

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Perante a riqueza pródiga e multifacetada do filme-documentário “Torre Bela”, é difícil esgotarem-se as notas e os sublinhados. Porque um filme-filme é muito mais para se ver que para se contar. E, sobre isso, não consegui, nem tentei, ser excepção.

 

O Manuel Correia, em dois magníficos posts sobre o “Torre Bela” (1, 2), refere uma das personagens mais impressivas (uma autêntica síntese do ressentimento camponês), a da “mulher das azeitonas”, uma rotunda camponesa com a idade já a pesar, típica até no seu bigode, e que repetia incessantemente a sua experiência oprimida com as azeitonas que sobravam ao agrário e que é uma imagem demolidora da impiedade insensível do latifundismo, um dos sustentáculos do fascismo à portuguesa.

 

Claro que Manuel Correia faz da figura da “mulher das azeitonas” a sua própria leitura ideológico-dedutiva, aliás consagrada em qualquer manual sobre as revoltas revolucionárias dos deserdados da terra procurando construir a meta de devolver a terra “a quem a trabalha”. E daí partiu para ressonâncias na actual situação política. O que não surpreende pois já antes, na caixa dos comentários ao meu post anterior sobre o filme, Manuel Correia me notificara das suas discordâncias comigo sobre a magna questão da “relação dos camponeses pobres com as cooperativas”.

 

Cabe-me, pois, defender a dama da minha parcialidade (ainda) não desconvencida. Pelo lido, mais que discordância (porque, afinal, eu dele não discordo), constato que o que nos separa é o dilema de querer-se levar a leitura do fenómeno até ao fim, lendo também, nas entrelinhas dos sinais, os limites e os equívocos dos caminhos da esperança ou ficar-se pela iconografia da gesta, fixando para a posteridade a velha “contradição fundamental”, a do instante revolucionário, augurando-lhe, como subentendido, intermináveis réplicas de superação até à “terra sem amos, a internacional”. E, sobre a “mulher das azeitonas”, comungando quanto ao valor sinalético da alegoria sobre a tipicidade da exploração agrária, a repetição em exclusivo e obsessiva do seu “caso vivido”, por parte da “mulher das azeitonas”, diz-nos mais coisas sobre aquela (ou a) revolta dos camponeses pobres (claro que quando se trata de “kulaks”, a música é outra, como a história bem nos ensina) e a dificuldade individual/social deles lidarem “com as cooperativas”. Por um lado, a “mulher das azeitonas” demonstra o peso perdurável do ressentimento pessoal (género “o meu caso é o caso”) mesmo nas movimentações mais empolgantes da superação colectiva, incluindo nos clímaxes da fraternidade. Depois, o “caso das azeitonas” serve de contraponto relativista (assim, individualista e não colectivizável) entre a coragem com heroicidade auto-atribuída da personagem (enfrentando a repressão) e a fraqueza pusilânime das suas irmãs exploradas. Afinal, numa leitura possível, um caso exemplar de “realismo socialista”. A apontar mais para a terapia das correcções dos entorses pelo vanguardismo condutor que para a corda solta e espontânea do presumido cooperativismo como cultura perduravelmente integrável entre os camponeses pobres, bem demonstrável, aliás e como contraponto, na “personagem negativa” do camponês que não queria “cooperativizar” a sua pobre alfaia (autêntico “camponês pobre com alma de kulak”). E, na realidade e no filme, ficou por se saber quem levou a sua avante, se a “mulher das azeitonas” ou o “homem da enxada”, pois o 25 de Novembro, concentrando as culpas, encarregou-se de apressar a frustração, sem sabermos se, com o triunfo da revolução, ganharia a alegria ou a decepção. Pois, quanto aos frutos do futuro construído, se sabemos que Camilo Mortágua continua revolucionário também se sabe (li num jornal) que o então líder carismático da cooperativa é hoje um próspero comerciante especializado no mercado de camiões.

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Imagem: Fotograma do filme "Torre Bela" com um cartaz afixado na Cooperativa. A palavra de ordem "Não se poderá acabar com a miséria enquanto as terras e as fábricas estiverem em poder da burguesia" indicia activismo agit-prop de um qualquer vanguardista que ali tenha "descido ao povo camponês" para colmatar o défice de "consciência de classe", ajudando-o a dar o salto da consciência de "classe em si" para o nível "classe para si", tal como ensinou, no século XIX, o velho e sábio Carlos.           

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Adenda: O meu amigo Manuel Correia alimentou o fio desta conversa (agora aqui). E comprovou duas minhas certezas que tenho como firmes: 1) não há nada como conversar; 2) sigo uma "linha justa" quando o desafio a partilhar na blogosfera a sua inteligência culta e criativa. Dito de outra forma: num debate ou polémica, concordar ou discordar deve ser mais desafio que defesa de causa.

Publicado por João Tunes às 12:00
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