Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

TORRE BELA (revolução, elites, povo, utopia, história, cinema) (1)

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Custa-me a acreditar que quem gosta de cinema ou do entendimento político da transição da ditadura para a democracia em Portugal, passando por uma fase transitória de revolução sob tutela militar, prescinda do filme-documentário “Torre Bela”. E menos entenderei que alguém lhe passe ao lado caso acumule estes dois gostos. Claro que o filme não é “obrigatório” (esses não existem). É simplesmente imprescindível para a memória estética de um passado varrido do presente (o da revolução portuguesa).

 

O alcance político do filme é singular na medida em que, pela atipicidade do caso filmado, ajuda a entender o que foi mais típico no PREC, cabendo lá o genuíno do fundo popular da passagem portuguesa, quente e efémera, pela revolução. Até porque no “caso Torre Bela”, ocorrido na periferia da revolução, com o povo profundo em revolta mas escapando ao controlo revolucionário, exprimiram-se os limites da revolução e os equívocos quanto à probabilidade do seu sucesso em consumar utopias redentoras de tipo igualitário. E isso porque as tutelas revolucionárias não se afirmaram em Torre Bela e lá não estando, ou só por lá passando, não houve disfarces para os limites das acções de massa. Ali, em Torre Bela, no concelho de Azambuja, numa propriedade saída direitinha das profundezas abjectas da componente feudal do fascismo português, um povo despolitizado, inculto, arredado do progresso, mísero, ressentido, colou-se à vaga da revolução e, em pura “jacquerie”, em bando de profundos individualistas, quis um naco do céu da sobrevivência e da dignidade. Tentaram, experimentaram e depressa aprenderam que, pelos defeitos das virtudes da sua gesta, não iam a lado algum. E se foram derrotados pela “contra-revolução novembrista” foi porque assim calhou acontecer, mas a sensação de derrota já era anterior e não havia revolução possível que a salvasse. Quando muito, na melhor das hipóteses, o “sucesso” de Torre Bela passaria, inevitavelmente, pelo regresso dos camponeses à sujeição de novas tutelas, provavelmente num novo papel de assalariados ao serviço de uma qualquer “nomenclatura” impondo-lhes a gestão vanguardista (como ocorreu na maior parte das UCPs do Alentejo e Ribatejo, as dirigidas pelo PCP).

 

A enorme beleza de estética fílmica desta fabulosa montagem sobre material magistralmente filmado e exaustivamente filmado, assenta muito na evidência política dos acontecimentos em Torre Bela. Todos os momentos chave da odisseia de equívocos estão ali a prescindirem de guião condutor de explicações ideológicas (a ideologia, sempre presente, é reduzida ao retrato das evidências como caricaturas naturalistas). Desde logo o grande equívoco camponês do movimento cooperativo numa cultura em que o individual, o ter e a rivalidade são alfa e ómega (bem expressa numa das melhores sequências em que um camponês não abdica da sua miserável alfaia e resiste à sua colectivização, demonstrando uma enorme sabedoria premonitória de que todo ele seria colectivizado, restando-lhe o corpo como individualidade e propriedade). Outro momento chave é o espectáculo em que conhecidos cantores “de intervenção” (e que cantores: Zeca Afonso, Vitorino e Fanhais), vanguardistas citadinos, em acção de solidariedade para com o povo em luta, sob uma chuva miudinha, cantam a “Grândola” do púlpito de um muro, de megafone em punho, para o povo a seus pés e este agradece mas não se deixa envolver com aquela música com ressonância melódicas e políticas que lhe eram estranhas (há uma abissal diferença de envolvimento entre o grupo dos cantores-vanguarda e o povo-espectador, resultando num sublinhar quase cruel do equívoco manipulador das vanguardas cultas e paternais relativamente ao povo-massa). O terceiro conjunto de sequências significantes são os encontros dos dirigentes camponeses com as elites revolucionárias e que nunca passam além dos programas recheados de perplexidades: os oficiais do MFA a quem o povo pede apoio e que lhes respondem que devem avançar para ajudarem o MFA a ser o motor da revolução, essa revolução que lhes era intrinsecamente exógena e misteriosa, com os camponeses a explicar-lhes que se os militares lhes dessem armas para se defenderem ainda acabavam aos tiros com os militares; o papel patético de Camilo Mortágua (dirigente da LUAR, essa espécie de partido não partidário) que, para ser aceite, se teve de diluir e individualizar-se, negando-se como condutor partidário; o dirigente sindical que, no início, procura meter ordem no caos organizado e rapidamente desaparece de cena engolido pela dinâmica do caos instalado. Quanto à sequência muito e mais vezes gabada, a da ocupação do palácio do senhor feudal expulso, se o ritual do deslumbramento e contacto com a parte sagrada e escondida da propriedade tem um efeito fílmico muito bem conseguido, não ultrapassa a encenação (que admito não ter sido deliberadamente manipulada pelo realizador) com mistura de inspirações em Buñuel e em Eisenstein, sofrendo os limites de aquela acção, pelo que tinha de extroversão do íntimo em tensão de climax, nunca poderia ser genuína em termos de registo documental pois estava impedida de ir além do despudor revelável, implicando sempre uma dose de auto-teatralização perante uma câmara de filmar (em que, num certo grau, se esconde parte do que apetece e se ostenta um ou outro apetite para ficar no retrato).  

Publicado por João Tunes às 23:41
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6 comentários:
De silêncio culpado a 11 de Agosto de 2007
É bom quem se interesse pela cultura política e transmita aos outros esses conhecimentos de forma didáctica e bem documentada. Estamos a atravessar uma época de trevas em que é muito importante que se recordem factos como os aqui relatados.
Muitos parabéns
De Isidoro de Machede a 12 de Agosto de 2007
Amigo João,

diz o amigo coisas interessantes, bastante interessantes e escorreitas. Havendo, no entanto, alguns detalhes com os quais não posso concordar. Aliás, a vida seria um pasmo se meneasse-mos todos a tola para o mesmo lado. As turbulências revolucionárias sempre terão muitas, imensas leituras. Para além daquilo que não se consegue ler.
Também fui cooperante na Cooperativa Torre Bela durante quase dois anos. Um citadino atrevido na procura das suas raízes camponesas, ou, um camponês na procura dos calos calos demonstrativos das raízes .
Sei algumas coisas, poucas. Mas sobre isso, parece-me que cada vez sei menos.
Todos gloriosamente pecámos!
Bom, um dia falaremos sobre a Torre Bela e os restantes pecados.

Isidoro de Machede
De João Tunes a 16 de Agosto de 2007
Caro Isidoro, claro que não é comparável viver uma realidade por dentro e percebê-la através de um filme sobre ela. Muito menos uma vivência vivida e a quente e olhá-la através da distância. Além da sadia divergência de pontos de vista e amadurecimento (ou apodrecimento) sobre os sonhos e as ilusões. Falei do filme enquanto filme mais a realidade que existe nele (sempre distinta, recirada, dos factos em si). Sobre a realidade Torre Bela, ela mesma, fico expectante e ansioso até ao momento em que o amigo Isidoro despeje o seu baú de memórias cooperativistas. Abraço.
De Manuel Correia a 14 de Agosto de 2007
Parabéns pelo poste.
Tb revi o filme nestes dias e acompanho-te em reflexões e sentimentos.
Menos. é claro, no teu comentário sobre a relação dos camponeses pobres com as cooperativas. A cena é realmente de antologia, mas por outras razões. Estou a matutar num ou dois postes sobre isso.
Abraço
De Anónimo a 23 de Agosto de 2007
Torre Bela, o fantástico domínio das palavras de quem ainda lutava para que as palavras de ordem e sonho (duas contradições marcantes do século XX) tivessem um significado diferente, um significado novo...uma desconhecida utopia que transformasse por completo aquilo a que uns chamavam de ditadura e outros de governo.
Torre Bela, o exemplo de um povo que sai à rua cantando e festejando o poder roubado através de fins que ninguém conhecia...sim, ninguém conhecia porque todos éramos enganados...
Torre Bela é, sem dúvida, o exemplo novo de quem pode, agora, lutar por uma vida melhor sem deixar cair por terra os princípios e os valores de um passado e de um futuro. Porque o tempo, sim o tempo é quem dá ordens e nós, nós o povo que Portugal tem, somos os actores, os sonhadores, os utópicos que construímos uma democracia baseada no sonho e na utopia. O mesmo sonho e utopia que tivemos quando iniciámos o período dos descobrimentos...uns com interesses, outros com curiosidade.
Torre Bela, o significado de que não basta ter confiança no outro, mas é preciso respeitá-los e acolher a sua mensagem.
De João Tunes a 23 de Agosto de 2007
Um comentário tão escorreito e tão sentido merecia a assinatura do autor. É uma lástima que tão interessante prosa de sensibilidade que entende o significado da solidariedade venha de alguém que, decerto por boas razões, teve de passar á clandestinidade do anonimato.

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