Segunda-feira, 23 de Julho de 2007

A OUTRA FACE

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Logo que terminada a 2ª Guerra Mundial, o legado da grande coligação antinazi não só durou pouco como a posse da bomba atómica por parte de dois ex-aliados (EUA e URSS), criando apetências megalómanas nestes rivais conjunturalmente coligados contra Hitler, resvalou para uma apetência pelo domínio hegemónico sobre a humanidade. E a “guerra fria” logo iniciada, bem cedo se transformou numa probabilidade elevada de, mudando os amigos e os inimigos, uma nova hecatombe (mais destruidora que a anterior) cair sobre os sobreviventes atordoados entre os escombros e os cadáveres de uma carnificina que acabara de ceifar muitos milhões de vidas e fizera baixar, na Europa, a qualidade de vida a um patamar mínimo de indigência.

 

A deriva histérica nos Estados Unidos, no rasto da substituição de Roosevelt por Truman, consubstanciada no “macarthysmo”, representou um retrocesso assinalável na identidade democrática dos Estados Unidos e no paradigma “wilsoniano” da liberdade e autodeterminação dos povos. A opinião pública e a intelectualidade americanas há muito que fizeram o escalpe e o juízo severo sobre este período negro da democracia americana no arranque da “guerra fria”. E a propaganda antiamericana glosou á saciedade, e continua a glosar hoje, esta perversão.   

 

Pouco ou nada se fixou na memória herdada do início da “guerra fria” quanto à outra face da tentação hegemónica. Ou seja, a forma como a URSS e o seu líder (Estaline) apostou e se preparou para o “confronto total” com o seu ex-aliado, fazendo a humanidade pagar o preço de uma nova e mais radical onda destruidora. E, no entanto, a fase que se seguiu ao fim da 2ª Guerra Mundial constituiu um sobressalto paranóico (uma reedição agravada da mortandade havida em 36-39) do poder absoluto instalado no Kremlin virada para o interior (visando a liquidação da camarilha dirigente do PCUS) e preparando o confronto atómico com os Estados Unidos, fosse qual fosse o preço. A estratégia da purga interna em coincidência com o confronto externo (utilizando os judeus e Israel como o pretexto odioso) arrancou sob batuta de Estaline e só parou com a sua morte em Março de 1953, ficando conhecido como a “conjura das batas brancas”.

 

Bem conhecido e bem denunciado o “macarthysmo” no lado americano, talvez seja útil lembrar o muito esquecido respeitante ao lado soviético. No mínimo, a cronologia que enquadra a teia paranóica estalinista na sua fase terminal (*):

 

9 Maio 1945: vitória sobre a Alemanha nazi.

 

10 Maio 1945: Chtcherbakov [dirigente soviético] morre de crise cardíaca.

 

Abril 1948: Iouri Jdanov [membro do CC do PCUS e filho do alto dirigente soviético A. A. Jdanov] critica o biólogo charlatão Lissenko e protegido de Estaline durante um seminário científico.

 

Maio 1948: criação do Estado de Israel.

 

Junho 1948: 10.000 judeus participam numa cerimónia sobre o fim da guerra na grande sinagoga de Moscovo.

 

Julho 1948: A. A. Jdanov, doente, é mandado para uma estância de repouso da nomenclatura em Valdai.

 

23 Julho 1948: A. A. Jdanov adoece gravemente.

 

31 Julho – 7 Agosto 1948: O biólogo Lissenko dá uma conferência.

 

7 Agosto 1948: O “Pravda” publica uma carta de autocrítica de Iouri Jdanov; a médica judia Drª Karpai (especialista em electrocardiogramas) faz um exame a A. A. Jdanov e, após o diagnóstico, vai de férias.

 

28 Agosto 1948: A médica Drª Timachouk, também agente da polícia política, especialista em electrocardiogramas, em substituição da Drª Karpai, examina A. A. Jdanov e regressa a Moscovo.

 

29 Agosto 1948: Segunda crise cardíaca de A. A. Jdanov. A Drª Timachouk regressa a Valdai, faz novo electrocardiograma a A. A. Jdanov e manda relatório para Vlassik, chefe da segurança de Estaline e do Kremlin.

 

30 Agosto 1948: Abakoumov, chefe da polícia política e dirigente do PCUS, envia o relatório da Drª Timachouk a Estaline, anexando-lhe o electrocardiograma feito a A. A. Jdanov em que esta médica refere estar a haver negligência dos seus colegas. Estaline manda arquivar a carta de denúncia. A Drª Timachouk volta a fazer novo electrocardiograma a A. A. Jdanov.

 

31 Agosto 1948: Reúnem-se os principais médicos do Kremlin – Drs. Vinogradov, Zelenine, Etinguer (judeu) e Nezline, em Moscovo. Em Valdai, morre A. A. Jdanov e é imediatamente autopsiado.

 

4 Setembro 1948: O Dr. Iegorov, chefe dos médicos do Kremlin, convoca a Drª Timachouk ao seu gabinete que, entretanto escreve ao seu superior na polícia, Souranov.

 

6 Setembro 1948: O Dr. Iegorov realiza uma reunião extraordinária no hospital do Kremlin.

 

8 Setembro 1948: Um informador da polícia sob o pseudónimo de “Iourina” (pseudónimo da Drª Timouchouk?) faz um relatório sobre a discussão do dia 6 no hospital do Kremlin.

 

9 Setembro 1948: A Drª Timachouk é despromovida das suas funções e passa a “segunda linha” na assistência médica aos senhores do Kremlin.

 

15 Setembro 1948: A Drª Timachouk escreve uma carta de queixa a Kouznetsov (membro da Comissão Política do PCUS).

 

21 Setembro 1948: Ilya Ehrenbourg (escritor, jornalista, judeu) publica no “Pravda” uma carta a atacar Israel.

 

Janeiro 1949: A Drª Timachouk volta a escrever a Kouznetsov.

 

Janeiro de 1949: São presos os membros do “Comité Judaico antifascista” Luzovsky, Kvitko, Markesh e outros.

 

26 Janeiro 1949: É presa Jemtchoujina (judia, mulher de Molotov, membro da Comissão Política do PCUS).

 

16 de Abril de 1949: A delegação de Leninegrado do PCUS é acusada de actividades “antipartido”.

 

Primavera de 1949: Svetlana Alliluieva (filha de Estaline) casa com Iouri Jdanov.

 

Junho 1950: Começa a guerra da Coreia.

 

Agosto 1950: Kouztnetsov e Voznessenski, membros da Comissão Política do PCUS, são presos por acusação de dirigirem as actividades “antipartido” em Leninegrado. Estes dirigentes destacados do PCUS, mais sete dirigentes regionais de Leninegrado, serão fuzilados em Outubro.

 

22 Novembro 1950: O Dr. Etinguer (judeu, médico e professor) é preso e interrogado por Abakoumov.

 

2 Março 1951: O Dr. Etinguer, após torturas prolongadas, morre de crise cardíaca na prisão de Lefortovo.

 

Março 1951: Rioumine, alto funcionário policial, é repreendido pela morte do Dr. Etinguer.

 

2 Julho 1951: Rioumine queixa-se a Estaline de Abakoumov, seu superior na direcção da polícia. A carta é imediatamente apreciada em reunião do “presidium” do CC do PCUS.

 

4 Julho 1951: Abakoumov é demitido de chefe da polícia. É preso no dia 12.

 

16 Julho 1951: É presa a Drª Karpai.

 

17 Julho 1951: Vlassik faz um relatório contra o Dr. Iegorov.

 

Outubro 1951: Ignatiev (que substituíra Abakoumov) faz um relatório para Estaline denunciando o “grupo de médicos terroristas”.

 

Outubro 1951: Rioumine faz relatório sobre a situação na polícia política para Estaline.

 

Dezembro 1951: São presos vários judeus altos funcionários da polícia – Raikhman, Navlovsky, Sverdlov e outros.

 

15 Fevereiro 1952: O Dr. Rijikov é preso sob acusação de ter assassinado Chtcherbakov.

 

12 Agosto 1952: São fuzilados os membros do “Comité Judaico Antifascista” que tinham sido presos em Janeiro de 1949.

 

Setembro 1952: É examinado o coração de A. A. Jdanov (os órgãos dos dirigentes do PCUS que faleciam eram conservados em álcool) e as conclusões são enviadas a Estaline. O Dr. Iegorov é preso, bem como o Dr. Vassilenko.

 

27 Setembro 1952: É presa a mulher do Dr. Iegorov.

 

5 Outubro 1952: Inicia-se o XIX Congresso do PCUS (o último com Estaline).

 

2 Novembro 1952: Estaline ordena à polícia que torture os médicos presos “até à morte”.

 

4 Novembro 1952: É preso o Dr. Vinogradov.

 

12 Novembro: São presos os médicos judeus Dr. Vovsi (médico chefe das Forças Armadas) e Dr. Kogan, acusados de negligência no tratamento de Dimitrov (dirigente comunista búlgaro, antigo chefe do Komintern).

 

13 Novembro 1952: Rioumine é substituído nas funções policiais por Sokolov.

 

13 Novembro 1952: Rioumine escreve a Estaline.

 

Novembro 1952: Ignatiev reúne com Estaline e a seguir é acometido de uma crise cardíaca.

 

15 Novembro 1952: Goglidzé é nomeado chefe do inquérito à “conspiração das batas brancas”.

 

1 Dezembro 1952: Numa reunião do CC do PCUS, Estaline invoca a carta da Drª Timachouk, a mesma que lhe fora enviada em 1948 e ele mandara arquivar, ataca Abakoumov (preso) e Vlassik e insulta os membros da Comissão Política do PCUS, acusando-os de cobardia e laxismo.

 

16 Dezembro 1952: Vlassik é preso.

 

21 Dezembro 1952: Festa do 73º aniversário de Estaline na sua “datcha”. Reunida a Comissão Política, Estaline ataca dois dos seus membros – Molotov e Mikoian.

 

13 Janeiro 1953: A TASS difunde um artigo sobre a “conspiração das batas brancas”.

 

20 Janeiro 1953: A Drª Timachouk recebe a “Ordem de Lenine” por ter denunciado os médicos.

 

Janeiro 1953: O "Avante", no seu nº 174, exprime o apoio do Partido Comunista Português a Estaline e à repressão soviética, proclamando: "Na sua política de domínio mundial, os imperialistas recorreram à sabotagem, à espionagem e ao assassinato dentro da União Soviética. Os seus agentes, acobertados no próprio Partido Comunista, foram descobertos, julgados e condenados em 1937 e 1938. Estes históricos julgamentos vibraram um golpe profundo nos planos imperialistas, contribuiram poderosamente para a defesa da União Soviética, cujo povo unido e dirigido pelo heróico Partido Bolchevique, infligiu ao fascismo a grande derrota de 1945. Recentemente foram descobertos os crimes de 11 médicos judeus, que, instigados pelos serventuários do imperialismo americano do Estado de Israel, se dedicavam na União Soviética a crimes de assassinato contra os mais destacados dirigentes do Partido Comunista e do Estado, particularmente dos dirigentes das forças armadas, tendo assassinado Jdanov e o general Shderbokov. Estes infames crimes mostram bem os intentos criminosos dos imperialistas americanos e dos seus lacaios israelitas."

 

17 Fevereiro 1953: A polícia propõe-se organizar vários novos campos de concentração destinados a “prisioneiros criminosos estrangeiros” (supõe-se que seria destinado a internar os judeus soviéticos).

 

1 Março 1953: Estaline é encontrado muito doente na sua “datcha”.

 

5 Março 1953: Estaline morre.

 

9 Março 1953: Funeral de Estaline.

 

17 Março 1953: Rioumine é preso às ordens de Beria.

 

31 Março 1953: Decreto de Beria sobre o fim das perseguições aos médicos e judeus e libertação dos prisioneiros da “conspiração das batas brancas”.

 

4 Abril 1953: O “Pravda” dá notícia da libertação dos prisioneiros. É retirada a “Ordem Lenine” atribuída à Drª Timachouk.

 

26 Junho 1953: Beria é preso.

 

23 Dezembro 1953: Beria é fuzilado.

 

2-7 Julho 1954: Rioumine é julgado e fuzilado.

 

Dezembro 1954: Abakoumov é fuzilado.

 

 

(*) A partir da cronologia incluída em “Le Dernier Crime de Staline”, Jonathan Brent e Vladimir P. Naumov, Ed. Calmann-Lévy  

Publicado por João Tunes às 00:20
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